Não Me Arrependo de Nada

E vê lá se quando eu voltar o apartamento está um brinco! Dona Olinda Sousa saiu a correr para o patamar e deu com tanta força com a porta que até as janelas do prédio pareceram tremer.

Inês, que naquele instante descia as escadas, também levou um susto. Ficou ali imóvel, feita estátua, a torcer para que a vizinha não desse por ela. Foi sol de pouca dura. Notou-a num instante.

Ai, Inêsinha Bom dia!

A senhora pousou no chão, sem grande delicadeza, uma caixa de cartão daquelas onde vêm as máquinas de café e começou a fechar à pressa o casaco, claramente com pressa de ir a algum lado.

Olá, Dona Olinda respondeu Inês, forçando um sorriso. Os miúdos aprontaram mais alguma?

Olha, não imaginas! Já não sei que hei de fazer resmungou a vizinha, a travar batalha com o último botão.

Nesse mesmo momento, a caixa aos pés dela mexeu-se.

Inês até saltou, mesmo a uma distância segura: nunca foi medricas, mas não era de crer que estivesse ali alguém vivo

Mas quem raio está dentro da caixa?

A imaginação dela foi logo buscar a ideia de uma máquina de café revoltada, talvez zangada por só levar cápsulas descafeinadas, agora condenada a ir de cartão para o lixo.

Ora vê lá isto disse Dona Olinda, pegando a caixa para mostrar o conteúdo.

Inês aproximou-se, olhou lá para dentro, um pouco a medo. Bem sabia que não ia apanhar nenhum pega-toques de cafeína, mas mesmo assim não estava preparada para a surpresa agradável! que viu.

Do fundo da caixa espreitavam dois olhos cheios de curiosidade. Um gatinho minúsculo, fofo e desconfiado.

Ai que ternurinha! exclamou Inês.

Oh, vai lá vai Não percebo esse entusiasmo bufou Dona Olinda, empurrando a tampa.

E isso como veio parar aí?

Trouxeram os miúdos para casa e eu, feita tonta, deixei ficar. Devia era ter dito logo que não. O trabalho que este bicho me dá! Eu que até achei fofinho ao princípio mas é como se diz: Nem tudo o que reluz é ouro. Olha, cheio de manhas feito o meu ex-marido, só pinta.

Deixe lá, Dona Olinda, olhe que isto com o tempo acalma. Vai ver que fica um anjinho. Já vai ao veterinário para as vacinas?

Qual quê, menina Inês? Veterinário? Vacinas? Já não posso com o marau! Olhe que decidi: vai já para a casa de campo. Ao menos lá entretém-se a caçar ratos.

Inês torceu o nariz, a ver se era só conversa, mas pelos modos dela percebeu que aquilo era para valer. Nem era 1 de abril; era 15 de novembro.

Um gato? Para o quintal, agora, quase inverno?

Mas o que hei de fazer? Fico à espera que chegue a primavera? Quero lá saber! Se fosse inverno, ia já hoje! Que fique lá. Não se perde nada

Tão cheia de emoção ficou Dona Olinda que ficou um bocado sem fôlego. Respirou fundo, depois continuou:

Sabes o que ele faz? Nem imaginas! Fiquei eu sozinha com dois filhos e nunca precisei de tantos calmantes! Por mim, assunto encerrado: vai para a quinta e não se fala mais nisso.

Mas espere um bocadinho

Podia era deixá-lo cá em baixo. Ao pé dos contentores, que foi onde o encontraram. Mas os miúdos vêm cá buscá-lo, escondem no armário. E ele sabe muito bem o caminho. Eu cá não caio nessa conversa!

Dona Olinda olhou para o telemóvel.

Já estou atrasada, Inêsinha. Olha que perco o autocarro!

Agarrou a caixa, virou costas (180º afinadíssimos) e lá foi ela a descer, braços e pernas a agarrar no corrimão.

Inês ficou a ver até desaparecer e nem queria imaginar como se deixava ali um bichinho tão pequeno no meio do nada. Não durava ali uma tarde, quanto mais o inverno.

Espere, Dona Olinda! chamou ela, meio a atirar as palavras pelas escadas abaixo.

O que é agora? Já disse que estou atrasada!

Não leve o bichano para a aldeia. Deixe-se estar: eu trato de arranjar alguém que queira ficar com ele. Dê cá a caixa, por favor.

A vizinha parou, olhou de lado depois virou-se devagar.

Boas mãos? Tás a insinuar que as minhas são más? apertou os olhos, com ar de quem já educou meio bairro à palmada. Com estas mãos pus eu a andar dois filhos!

Ai não, Dona Olinda! Só acho que ele aqui tem mais hipóteses. Na aldeia não aguenta.

Se quiser viver, vive. Se não azar. Nem devia ter nascido!

Não diga isso

A culpa é do bicho, não minha. Não quer aprender regras!

Ainda é tão novinho aprende, vai ver! disse Inês. Olhe que você também berra com os miúdos e nunca os mandou para a aldeia.

Os meus filhos são meus filhos. Nem compare. Mas se fazes questão toma lá!

Pousou a caixa no chão.

Eu até agradeço: não gasto nem combustível nem bilhete da rodoviária. Logo vejo quanto duras! e piscou o olho, cheia de ironia.

Depois desapareceu em casa, com nova porta batida, e ainda se ouviu aos gritos:

Que é isto? Porque é que ainda ninguém começou a limpar? Deixem lá ver esses telemóveis!

O resto, Inês já não ouviu. Pegou na caixa, espreitou, viu que o pequeno não tinha fugido, e subiu ao seu andar.

Assim, meio por acaso, acabou dona ou, pelo menos, depositária temporária de uma caixa de máquina de café… e de um gatinho dentro.

Na verdade, Inês não contava ficar com um gato. Muito menos naquele dia. Ia só comprar café (o dela estava esgotado, maldição das manhãs!) e deu-se este azar enguiçado.

Nunca foi mulher de animais. Nada daquela paixão que os donos de gatos descrevem entre lágrimas no Facebook.

Mas também não era assim tão desalmada que deixasse a Dona Olinda despachar o bicho para o interior à sua sorte.

Porque, pronto, indiferença não é o mesmo que não ter coração. E também: quem é que inventou que não havia de se arranjar um humano qualquer para um gato destes?

Bonito como era, já o estava a ver: três ou quatro fotos bem tiradas e punha meio bairro a pedir para adotá-lo.

*****

Inês decidiu não adiar. Mal chegou a casa, clic clic clic no telemóvel: sessão fotográfica improvisada. Publicou logo a carinha do bicho em tudo quanto era grupo e fórum de Animais para adoção. Dá-se.

Saiu de casa: café, finalmente e déjà vu comida para gato, pois claro, que o bicho não ia alimentar-se a esperança.

Com o pacote do supermercado veio também tabuleiro de plástico e areia. Era despesa para a qual ninguém a tinha avisado, mas era o que era.

Depois, entrego isto a quem vier buscar o gatinho, pensava ela, já a rir-se da coisa por estar a fazer caridade. E nem um cêntimo lhe doía!

Pela Dona Olinda, o bicho era Bubas, mas não respondia ao nome. Inês fez uma lista de alternativas e, no nome número cento e trinta e dois, decidiu:

Vais chamar-te Biscoito. Gostas?

Miau! respondeu o bichano, e atirou-se a caçar chinelos piores que o próprio gato, cheios de pêlo, quase ficavam na prateleira da fofura.

Era ele o mais bonito, o mais fofo, já se sabia.

Inês, a olhar para o bicho a brincar, foi sentar-se ao computador para tentar trabalhar.

Trabalhava por conta própria, fazia sessões de fotografia, e até nem se podia queixar dava-lhe prazer e ajudava na renda. Precisava, porém, de editar um monte de fotos dessa semana, e lá se pôs ao Photoshop.

Trabalhar? Só que não!

Biscoito, depois da tareia nos chinelos, começou a incendiar a casa, a dar voltas como se fosse o corredor do Estádio da Luz. Saltava, escorregava, atirava-se aos cantos parecia que fazia de propósito!

Eh lá, pequenino! Inês virou-se para o bicho, dedo no ar, com aquele tom maternalíssimo.

O gato congelou, de olhos atentos: Diz, mas despacha-te, que eu quero brincar.

Eu compreendo que tenhas energia, mas olha que isto é temporário, estás a perceber?

Miau!

E nem contestes! Aqui és visita. Portas-te bem e deixas-me trabalhar, combinado?

Devia ter ficado calada.

O ar do gato deixou-a cheia de remorsos. Em vez de pensar na asneira que tinha feito, ficou a parecer-lhe aquele filme triste dos fins de tarde na RTP2: como podia ralhar com um bichano tão pequeno?

Pronto, brinca. Mas devagarinho, sim?

O gato soltou um miado feliz e regressou ao ralentado (só que nunca).

Viste o alvo, não viste obstáculos, pensava ela, bufando pela milésima vez, tão natural.

Enfiou uns headphones, música alta, mais fotos para editar, tentar ignorar o salto e pinote cada três segundos.

Aos seis minutos, numa curva apertada por baixo da secretária, Biscoito apanhou o cabo do computador com a pata e zás cortou-lhe a luz. Fugiu, inocente.

Porra, como é possível?! resmungou Inês, a olhar para o ecrã preto.

O resto da meia-hora foi ela a correr pela casa a tentar apanhar o gato. Resultado: nunca o apanhou. Mas enfiou dois solavancos ao joelho e quase partiu um dedo do pé.

Depois, com o computador ligado outra vez, voltou à guerra da internet: verificou os fóruns onde tinha posto os apelos. Montanhas de likes, muitos Que fofo!, mas zero gente a querer adotar Biscoito.

Uau! Que sortuda! Gato incrível! Que fofura!, liam-se os comentários. Mas nada de contactos. Nem um telefonema, muito menos filas à porta.

Inês acrescentou nos anúncios: Levo-o pessoalmente, até ao outro lado da cidade. Ou do país. Ou do mundo inteiro.

Se calhar não vêm cá só por preguiça. Assim já ninguém tem desculpa!

Entretanto, o gato já exausto, aninhou-se no sofá, barriguinha ao léu, pedindo mimos infinitos. Inês foi lá, deu festinhas, e acabou ela própria a adormecer. Lá se foi o resto do dia trabalho? Isso ficou para outro episódio.

*****

Uma semana depois, Inês já desconfiava: arranjar família para o gato não era coisa simples. Muitos corações, zero propostas. O bicho não saía.

Mais três dias e Inês já se via:

E se nunca aparece ninguém? Fica cá para sempre comigo?

Ah, o que me faltava! disse ela. E logo se ralhou.

Biscoito dormia abraçado ao rato do computador (há quarenta minutos sem ela poder trabalhar), mas ao ouvir o protesto, abriu um olho desconfiado.

Olha-me esta, não me deixa dormir? Que falta de decoro!

Suspirou, levantou o telefone, foi ver os comentários. Sempre o mesmo: Que lindo! Que sorte tens tu! e ela perdia a esperança.

Lembrou-se então, como quem se lembra de azulejos do Metro, de uma consulta recente de psicologia. Queria a felicidade completa. Trabalho não faltava, dinheiro também não. Casa própria, graças aos pais, também. Rapazes? Nem por isso; agora queria era descanso.

Mas faltava qualquer coisa.

O psicólogo recomendou: Converse consigo mesma, tente ouvir o que lhe falta. Claro que acabou foi com um copo de água e um comprimido para dores de cabeça.

Acabou por desistir da psicologia e foi perguntar às amigas.

O que te falta é é barriga cheia, estás é mal habituada atirou a Ana, sempre com um pézinho de inveja desde que Inês comprou o apartamento.

Nada disso, Ana! Trabalho que nem tu, até mais. Não é de andar a brincar

Será que falta ele? aventurou Mariana, a lamber o fondant de chocolate.

Hein? Quem?

Não é quem, é o quê! Falta-te gordura para a felicidade. Só tens ossos, mulher! Não comias bolos em miúda, pois não?

Entre psicólogos e amigas, Inês percebeu só que não valia a pena pensar demais. O que me faltava repetiu, em suspiro. Mas se calhar, era isto mesmo: faltava-me o Biscoito.

*****

Passou-se um mês desde que Biscoito ocupou o arejado T2 de Inês. O tempo voou.

Ninguém quis ficar com ele. E sinceramente, Inês já estava mais intrigada: das 1.228 pessoas que fizeram gosto às fotos do gato, nem um se chegou à frente?

Agora, um mês depois, tudo fazia sentido. Tantas coisas tinham acontecido que, se contasse tudo, parecia Os Maias. Resumindo:

Biscoito era um génio de quatro patas. Bastava olhar-lhe para perceber: gato de personalidade, mestre em ignorar o sofá. Experimentou todas as profissões de felino. Primeiro decorador de interiores forçou Inês a trocar as cortinas quatro vezes até perceber que mais valia não ter. Depois quis ser chef: mastigava tudo o que via, mas não apreciava nada. Para quê comer sopa se há ração sabor frango em casa?

No fim, escolheu o que escolhem todos: fazer a dona feliz.

Claro que felicidade é um conceito relativo. Para Inês, felicidade era conseguir dormir até tarde e editar fotos descansada. Mas sossego? Uff, caiu do céu só em sonhos. Lá de cima acharam que Inês estava sossegada demais. Toma lá um gato, para veres o que é viver!

É que bastava sentar-se à mesa, o gato aparece: Brincas agora? E de cada vez era um festival, impossível de explicar em palavras do dicionário.

Agora, Inês até entendia Dona Olinda, mas não lhe perdoava a ideia da aldeia. Aquilo era delírio! Por muito que o gato a cansasse, nunca faria tal maldade.

Haviam aspetos positivos, claro. Deixou de dar voltas à cabeça sobre o que lhe faltava na vida. E surpreendeu-se com as manhas que arranjou para limpar a casa à pressa antes do gato acordar.

Teve emoção com fartura: a primeira vez em que ele usou sozinho o tabuleiro foi uma alegria! Finalmente pôde dormir mais. Chorou de felicidade (ninguém viu, mas chorou mesmo).

O gato trocava de manias: ora jogava com o candeeiro de noite, ora sumia com as cortinas a casa ficou mais clara assim. Mas Inês foi-se habituando, como todos se habituam.

E um dia percebeu: afinal, não era Biscoito que vivia com ela. Era ela que o visitava. Era ele o dono de casa: recebia-a à porta ao fim do dia e despedida-se de manhã.

De mãos boas, coração grande e tudo.

E já não queria saber de outros donos para o adotarem. Ela era a dona de Biscoito, as mãos boas que ele precisava. Pronta para brincar a meio da noite ou dar-lhe festas na cama, mesmo que o gato ocupasse metade do colchão.

Estava, finalmente, feliz. E não se arrependia de nada. Porque o gato era impossível de não amar.

E ele, claro, retribuía. Agora, até deixava Inês dormir. Aninhava-se a um canto da cama, que era todo dele, e esperava. Só a olhava como quem diz: Oh pá, já chega de dormir! Estou a morrer de saudades tuas……anda brincar comigo?

Foi a voz dele ou era apenas a vontade dela? No escuro do quarto, Inês sorriu antes mesmo de abrir os olhos. Biscoito, pé ante pata, ronronava-lhe baixinho aos ouvidos, como quem diz segredos que só os gatos sabem.

Nesse instante percebeu: a vida, afinal, estava ali, enrolada em patas pequenas e bigodes espetados, cheia de surpresas e afeto inesperado. Talvez fosse isso que lhe faltava: a alegria secreta de quem acorda com um amigo do lado.

Levantar cedo, correr para o trabalho, responder a mensagens, assinar contratos tudo era mais simples depois de partilhar um café com quem nunca reclamava do açúcar mas roubava um bocadinho de pão.

Naquela manhã, enquanto o sol espreitava pelas janelas finalmente sem cortinas, Inês pensou, com um riso leve: Dona Olinda nunca saberia o quanto acertou ao mandar-lhe o gato. E mesmo que um dia viesse perguntar, Inês responderia apenas com um sorriso cúmplice.

Porque agora, naquela casa, ninguém precisava de ser dono de alguém. Eram dois cada um mestre na arte de inventar companhia. E, por fim, era Biscoito quem lhe ensinava: a felicidade pode muito bem caber dentro de uma caixa de cartão ou de um instante de silêncio partilhado.

E foi assim num apartamento como tantos outros, entre festas, arranhadelas e miados que Inês aprendeu de vez: a vida fica sempre melhor quando tem lugar para um Biscoito.

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