Não gostas? Podes ir andando declarou Leonor aos convidados indesejados.
Leonor passou trinta anos da sua vida em silêncio. O marido dizia algo ela acenava. A sogra aparecia de surpresa Leonor punha logo a água ao lume para o chá. A cunhada chegava com malas lá a instalada no quarto da ponta. É só por uns dias, prometia a cunhada. Ficava três meses.
O que havia a fazer? Fazer um escândalo iam logo achar que era má esposa. Dizer que não diziam que era fria e sem coração. Leonor habituou-se a aguentar. E até aprendeu a não perceber como a vida dela se foi tornando em servir os desejos dos outros.
O marido, Manuel da Fonseca, era homem simples. Encarregado de obras, gostava de petiscos bem regados e de praguejar contra os chefes. Chamava Leonor de minha dona de casa e nunca entendia por que é que ela chorava à noite. Estás cansada descansa. Olha a família, cozinha para eles. Qual é o drama?
Quando ele morreu, Leonor ficou sozinha num T3 em Benfica. O funeral foi como manda a tradição: mesa posta, bagaço, discursos de grande homem. A família veio, choraram, comeram, despediram-se. Leonor pensou: Pronto, ao menos agora vou ter paz.
Pois sim
Uma semana depois liga-lhe a cunhada, Maria da Fonseca:
Leonor, amanhã passo aí. Trago umas compras!
Maria, não preciso de nada.
Oh, deixa isso! Não vou de mãos a abanar!
Chegou com dois sacos de arroz, um de massa e um pedido: deixar o sobrinho Tiago ficar ali em casa uns tempos, porque vai entrar na faculdade em Lisboa. Leonor esforçou-se por recusar, mas
Vai para a residência.
Isso é só daqui a uns meses! Onde é que ele fica até lá, na estação?
Leonor cedeu. Tiago instalou-se no quarto da ponta. Desmazelado: meias no corredor, pratos na banca, música alta até tarde. E à faculdade, nem chegou a entrar Arranjou um emprego de estafeta e passou a casa de Leonor a ser ponto de passagem.
Tiago, não preferes procurar casa? tentou Leonor ao fim de um mês.
Tia Leonor, não tenho dinheiro para renda!
Duas semanas depois apareceu Rita, a filha do falecido Manuel de um primeiro casamento. Trazia uma mágoa de trinta anos e exigências:
O meu pai deixou-te a casa, e a mim, nada? Eu também sou filha!
Leonor ficou sem saber o que dizer. A casa estava em nome do marido e era agora dela, por herança. Legal. Mas Rita olhava para ela como se fosse ladra.
Sabes o que é viver sozinha com um filho? Pago renda caríssima! insistia Rita.
Leonor tentava explicar que aquela casa era o que tinha, que não havia poupanças e também ela não sabia o que a esperava Rita não queria saber. Não vinha procurar empatia vinha exigir justiça.
E começou.
A família passou a aparecer com frequência. A sogra a dar conselhos de vender a casa e comprar um T1. A cunhada, outra vez com mais um sobrinho. Rita, com mais queixas.
Todas as vezes, Leonor punha a mesa, fazia o chá, ouvia as cobranças.
Até que começaram a falar da casa à descarada.
Leonor, para que precisas de três quartos? disse Maria, mexendo o chá. Vende, compra um T1. Ajuda os rapazes com o resto.
Quais rapazes? estranhou Leonor.
A Rita, ao Tiago. A vida está difícil para eles.
Leonor olhou todas para Maria, para Rita, para a sogra. Percebeu: não vieram dar conforto. Vieram reclamar herança.
Se não estão satisfeitas disse ela baixinho podem ir embora.
O silêncio caiu.
O que disseste? murmurou Maria.
Disse para irem embora. Já!
Olharam para Leonor como se ela tivesse falado chinês. Ou dito um grande palavrão.
Julgas quem és? Maria recuperou. Somos família!
Que família? perguntou Leonor calmamente. Aquela que só aparece para comer e ver televisão?
Mãe, ouves isto?! Maria, furiosa, fez sinal à sogra. Sempre soube, Leonor, que eras arrogante!
A sogra, Dona Teresa, não falava muito apenas lançava aquele olhar de quem desaprova e suspirava, como quem diz: A ingrata da Leonor outra vez
Dona Teresa virou-se Leonor para ela. Durante trinta anos ensinou-me a ser mulher de casa. Mandou-me calar o choro. Aguenta, que toda a mulher aguenta, costumava dizer. Lembra-se?
A sogra carregou nos lábios.
E eu aguentei. Mas acabou. Aguentar era como óleo na garrafa: quando acaba, acabou.
Maria apanhou logo a mala.
Vou contar tudo ao Tiago! Que ele saiba quem é a tia dele!
Conte à vontade. Só quero que o tire daqui. Amanhã. Ou despejo tudo ao corredor.
Saíram, batendo a porta. Leonor ficou na cozinha, a tremer, o coração a galopar. Foi beber água da torneira, de um só trago.
Pensou: Meu Deus, o que é que eu fiz?
E depois: Afinal, o que é que fiz? Mandei embora quem não foi convidado!
Nessa noite não dormiu. Virou-se na cama, olhou para o teto. A cabeça era uma máquina de lavar roupa: as mesmas dúvidas a rodar. E se elas tinham razão? E se era mesmo egoísta? Deviam tê-la ensinado a aguentar?
De manhã, tudo claro. Tolerar é só durante um período. Trinta anos já não é tolerância. É rendição.
Tiago saiu dois dias depois. Maria foi buscá-lo, sem a encarar. Tiago remexia nas roupas, resmungando velha bruxa. Leonor ficou calada no corredor. Antes, chorava, pedia desculpa, suplicava. Agora, silêncio.
Uma semana depois, Rita telefona:
Eu e a avó estivemos a conversar
Que avó? cortou Leonor A tua mãe faleceu em 1992. Dona Teresa é minha ex-sogra.
Silêncio. Rita não esperava.
Pronto, nós não queremos zangas. O pai gostava de ti.
Gostava, à maneira dele. A casa ficou no meu nome. Legalmente. Não devo nada a ninguém.
Mas por justiça
Justiça? sorriu Leonor. Se fosse por justiça, ao menos tinham-me dado os parabéns de vez em quando. Ou telefonado sem pedir dinheiro. Isso sim, era justiça.
Amargaste-te disse Rita. A solidão faz mal.
Não. Só deixei de fingir.
As semanas passavam, arrastadas. Leonor ia trabalhar ajudante num hospital voltava a casa e jantava sozinha. A vizinha, Dona Cláudia, aparecia com bolinhos:
Leonor, estás bem? Não ficas triste?
Não fico.
E já não tens cá família?
Não.
Ainda bem disse Dona Cláudia de rompante. Passei a vida a ver aquilo, sempre pensei: “Quando é que te decides, rapariga?” Fizeste bem.
Leonor sorriu. Pela primeira vez em muito tempo, senti-o sincero.
O pior não foi ver a família chateada. O pior foi o silêncio. À noite, ninguém para dizer boa noite, ninguém para partilhar um chá. Leonor percebeu: toda a vida viveu para os outros.
Agora? Agora tinha de aprender a viver a própria vida. E isso assustava-a mais do que todos os insultos da cunhada.
Um mês depois, Maria reaparece. Sem avisar. Com Tiago, Dona Teresa e Rita. Todos juntos. Um comício.
Leonor abre a porta ali estavam. Maria à frente, os outros à retaguarda.
Então Leonor começa Maria já mudaste de ideias?
Sobre o quê?
A casa. Vais vender?
Leonor olhou cada um nos olhos. Vieram confiantes. Apostaram que ela se ia render à solidão, que lhes ia pedir para voltar.
Entrem disse, já que aqui estão.
Acomodaram-se na cozinha. Dona Teresa correu logo ao frigorífico. Rita pegou no telemóvel. Maria senta-se em frente de Leonor, braços cruzados.
Tu sabes que é difícil manter isto sozinha. As despesas, os arranjos. Não achas desnecessário tanto espaço?
Gosto deste espaço respondeu Leonor sem hesitar.
Mas vives aqui sozinha! intrometeu-se Rita. Olha este plano: vendes, compras um T1 na Amadora. Ficas com cem mil euros de diferença. Trezentos mil para mim (estou com o miúdo), trezentos mil para o Tiago estudar, cem mil para ti.
Leonor ficou calada. Olhou Rita: tão confiante, unhas feitas, mala cara.
Eu devia mudar-me para longe para vos dar dinheiro?
É o certo! exclamou Rita O pai trabalhou anos para isto!
Não baixou a voz Leonor. Ganhou a casa do Estado, em 1984, como jovem técnico. E as obras? Fui eu que paguei, do meu ordenado.
Leonor, não compliques meteu-se Maria. Somos família.
Ali, algo dentro de Leonor estalou.
Família? Quando fui operada há três anos, quem me visitou? Maria, apareceste?
Maria desconversou:
Tinha a minha vida
E a senhora, Dona Teresa? Ligou alguma vez?
Silêncio.
E tu, Rita, sabias que estive internada?
Ninguém me disse nada
Pois, estavam-se nas tintas. Como agora. Não vieram por mim, vieram pela casa.
Leonor, não exageres! ainda tentou Maria.
Não estou a exagerar. Só que chega. Aguentar já não faz sentido.
Levantou-se, foi à porta e abriu-a.
Podem sair. Já. E não voltem.
Estás louca! gritou Rita Não és ninguém nesta família!
Pois não. Graças a Deus.
Maria já de pé:
O Manuel, se visse isto!
Se ele visse, obrigava-me a ceder. Sempre fez isso. Mas ele já cá não está. Agora mando eu.
Vais arrepender-te! ameaçou Rita Quando fores velha e doente, ainda nos vens pedir ajuda!
Leonor sorriu, cansada.
Rita, tenho cinquenta e oito anos. Trinta vivi a tentar ser boazinha para me gostarem. Quanto mais cedia, mais me pediam. Não, não vos vou pedir nada. Nunca.
Saíram sem uma palavra. Maria, vermelha. Dona Teresa, de lábios fechados. Rita, com um último estrondo de porta.
Leonor ficou no corredor, mãos trémulas, corações aos saltos. Foi para a cozinha, sentou-se e chorou.
Não de pena. De alívio.
Uma semana depois, Dona Cláudia ligou:
Leonor, dizem que discutiste com toda a família?
Não discuti. Só disse a verdade.
Muito bem. Olha, tenho uma neta, Catarina. Trinta anos, separada, não se adapta sozinha. Queres conhecê-la? É trabalhadora, está só.
Conheceram-se. Catarina era tímida, recatada. Trabalhava como contabilista, alugava um quarto em casa de gente estranha. Passava tardes com Leonor, chá e conversa.
Não preferes vir cá viver? propôs um dia Leonor. O quarto está vago. Só pagas a tua parte do condomínio.
Catarina mudou-se ao fim de um mês. Viver com alguém pode ser simples, se essa pessoa respeita o teu espaço. Não se mete, não julga, não ensina.
Leonor inscreveu-se na biblioteca do bairro, onde já tinha sido funcionária. Agora vai lá buscar livros que nunca teve tempo de ler.
De vez em quando lembrava-se da família. Como estariam? Maria e Tiago? Rita na sua vida? Dona Teresa?
Nunca mais ligou. Nem vontade.
Meio ano depois, Dona Cláudia conta novidades:
A tua cunhada foi viver para a residência com o filho. Fartou-se da solidão na aldeia.
Que corra bem respondeu Leonor.
E a Rita casou-se com um empresário. Está feita!
Fico contente por ela.
Dona Cláudia olhou Leonor de lado:
Não ficas sentida?
Porquê?
Por conseguirem dar-se bem, sem precisar de ti?
Leonor sorriu:
Dona Cláudia, sempre viveram sem mim. Só eu é que não sabia.
Nessa noite, à janela, Leonor olha a cidade. As luzes, as pessoas na rua, a Catarina na cozinha a cantarolar enquanto prepara o jantar.
Pensa: isto é felicidade saber dizer não sem morrer de culpa.
E vocês, já tiveram de pôr a família no seu lugar?







