Não é por acaso que existe o provérbio: “Deus dá um filho, Ele próprio cuida de quem dá um filho”.

Hoje, ao folhear o meu velho diário, não consigo evitar refletir sobre tudo o que vivi até aqui. Cresci num orfanato em Coimbra, depois de perder os meus pais ainda era uma menina. Não tinha família próxima e, por isso, acabei ali, entre paredes frias e vozes desconhecidas. Quando fiz dezoito anos, não hesitei: comecei logo a trabalhar, pois não havia dinheiro para seguir estudos. Sempre fui trabalhadora, nunca recusei qualquer tarefa por mais dura que fosse.

Foi então que conheci o Rafael. Apaixonámo-nos rapidamente e decidimos viver juntos em Lisboa. Dávamo-nos bem, sem grandes discussões, ajudávamo-nos no que era preciso. Mas, apesar dos meus sonhos, ele nunca quis casar comigo. Sempre desejei ter uma família verdadeira, algo que nunca tive. Depois de quatro anos juntos, fiquei grávida. E o Rafael, assim que soube da notícia, desapareceu. Tudo o que deixou foi um bilhete a dizer que não queria filhos agora e que os pais dele me iam dar dinheiro para resolver.

É verdade, eles enviaram-me algum dinheiro, mas nunca me passou pela cabeça abdicar do meu filho. Sabia que, por mais difícil que fosse o caminho, iria lutar e trabalhar para lhe dar um futuro.

Houve um dia em que a minha vizinha, Dona Luzia, ao notar a minha barriga a crescer, veio com aquele tom crítico tão português:
  Já te disse tantas vezes, menina, que se vive com um homem só depois do casamento O que vais fazer agora, hen? Mãe solteira
Ficou-me atravessado aquele comentário, e não foi a última vez que ela fez questão de partilhar a sua opinião pouco discreta.

Os meses seguintes custaram-me imenso. Trabalhava ainda mais do que antes, agora grávida. Pelo menos, o senhor diretor percebeu o que se passava e adiantou-me algum dinheiro extra. O que nunca pensei foi que completos desconhecidos acabariam por me estender a mão.

Certa tarde, soou a campainha de casa. Era uma senhora que não conhecia, trazendo consigo um saco enorme. Ao que parece, a Dona Luzia mobilizou o prédio todo para me ajudar. Cada vizinha contribuiu com algo roupas de bebé, brinquedos, até mantas e leite. A seguir, comecei a receber dinheiro do senhor António, o jardineiro do bairro, que decidiu apoiar-me a mim e ao meu filho.

Nunca imaginei que, num momento em que me sentia tão sozinha, pessoas que mal conhecia se preocupassem tanto comigo. Até a Senhora Amália, a senhoria, baixou a renda da casa para me ajudar a aguentar.

Foi graças à bondade de todos à minha volta que consegui trazer o Tomás ao mundo e cuidar dele. Ele cresceu rodeado pelo carinho de toda esta gente.

Agora, tantos anos depois, o Rafael quer conhecer o filho. Nunca refez a vida e, pelo que sei, até os pais dele começaram a perguntar pelo neto. E eu aqui, sem saber se devo abrir esta porta do passado…

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Não é por acaso que existe o provérbio: “Deus dá um filho, Ele próprio cuida de quem dá um filho”.