Segunda-feira amanheceu sobre Lisboa com um céu de luz dourada, mas dentro do gabinete envidraçado de uma das grandes empresas instaladas junto ao Tejo tudo ressoava com uma estranha intemporalidade de sonho, como se a rotina se embalasse num torpor de névoa. Os colegas, em seus vultos indistintos, deslizavam pelos corredores polidos murmurando saudações etéreas: alguns falavam de idas ao cinema no fim-de-semana passado, outros contavam encontros com amigos num jardim cujas árvores pareciam de papel, e outros apenas repetiam frases desfiadas, ansiosos por alcançar as suas secretárias submersas em luz artificial.
Entre estes vultos andava Joana Pereira, uma mulher baixa, de cabelo castanho apanhado numa trança ligeira que, no sonho, parecia dissolver-se e recompor o rosto. Os seus olhos castanhos, intensos e atentos, olhavam para documentos que ora se multiplicavam ora desapareciam em pilhas que deslizam sobre a mesa secretária partilhada com outros três colegas, nebulosos mas familiares.
Enquanto parecia nadar num mar de relatórios que se tornavam peixes de papel manchados de tinta, aproximou-se um vulto entusiasmado. Era Mário Faria, gestor do departamento ao lado, que parecia escorregar com os sapatos polidos tanto no chão como no limiar da realidade. Encostou-se despreocupadamente à beira da mesa.
Olá, Joana! Como foi o teu fim-de-semana?
O sorriso de Joana, cordato, aparecia e desaparecia no rosto, como uma lua tímida, e respondeu numa voz de rendas e distância:
Normal, obrigada. Fiz arrumações em casa e a frase pairou no ar, como se arrumar papéis fosse varrer folhas de outono. E tu?
Eu fui acampar com amigos, fizemos churrasco, tocámos guitarra à luz das estrelas… A excitação de Mário parecia aumentar a cada palavra, e o corredor enchia-se de cheiro a sardinha assada e vozes cantadas. Devias mesmo vir um dia connosco, sabes? Agora estás sozinha, não é? Recentemente separada?
Hesitando, Joana ficou imóvel por um momento, rendilhada entre realidades sobrepostas, mas recompos-se rapidamente. Ergueram-se muros invisíveis à sua volta, mas respondeu polidamente:
Sim, estou divorciada. Mas não estou interessada em viagens nem convívios com desconhecidos para já disse quase suspirando, enquanto as palavras caíam na mesa como papéis amarrotados.
Ah, mas porquê esse não-planeando-tão-rígido? insistiu Mário, agora com um rasto de persistência quase cómica. Nada como uma novidade depois de mudanças na vida! Que tal irmos jantar sexta-feira? Apenas para espairecer!
Joana alinhou os papéis, como quem afina um universo incerto, e olhou directamente para Mário com uma calma de vidro:
Mário, agradeço a atenção, mas não procuro novos relacionamentos. Ficamo-nos pelas questões de trabalho, se não te importas.
Mas o sorriso de Mário voltava a esvoaçar teimosamente, como se fosse feito de areia nas asas do vento:
Oh, vá lá… Estou apenas a convidar-te porque te acho interessante, tal como eu! Por que não experimentar?
A irritação em Joana era um animal ferido, mas só pisava o chão com leveza. Não queria discussões apenas o silêncio funcional das manhãs de escritório então repetiu, mais firme:
Não, Mário. Não é isso que quero. Vamos trabalhar e deixar o resto fora da porta, sim?
Após uma pausa de desprezo quase teatral, Mário abriu os braços com um encolher de ombros indolente:
Como quiseres. Fica ao teu critério.
No olhar dele, Joana sentiu uma pontada de estranheza, as fronteiras do sonho vagas pedaços de diálogo pairando como folhas no tecto.
Com o passar das semanas, como madeira a ranger numa casa antiga, Mário continuava a invadir o espaço de Joana. As suas desculpas fluíam do cotidiano: eram relatórios urgentes que precisavam de conversa direta, ofertas de ajuda nunca solicitada, ou perguntas sobre o seu estado de espírito, que transportavam uma preocupação forçada.
A cada aproximação, o ar ficava mais denso, ou talvez fosse só Joana, cansada de recusar num idioma que o colega insistia não entender. Os céus do escritório enchiam-se de frases que se dobravam sobre si mesmas, e Joana, mergulhada em seu sonho de resistência, mantinha a educação mesmo sentindo, no íntimo, vontade de desaparecer pelas frestas do parquet.
Até que uma noite, ao preparar um relatório tardio sob a claridade solitária do candeeiro, ouviu a porta abrir. O escritório, vago, parecia um teatro abandonado. Era Mário, de chave do carro nas mãos e olhar de transe:
Ainda aqui? Vem comigo a um café, hoje há fado ao vivo disse, como se a proposta fosse uma porta surrealista para outro mundo.
Joana fechou devagar o computador, enfrentou o olhar de Mário. A sua voz soou densa, como se atravessasse água:
Já te disse muitas vezes, não quero. Respeita, por favor, os meus limites.
O rosto de Mário contraiu-se com um sobressalto súbito, e do seu tom saltou, como peixe fora de água, uma indignação:
Mas que raio há contigo? Depois do divórcio, devias aproveitar! Só um jantar, Joana!… Não acreditas que podes viver outra vez?
A respiração de Joana era agora a de quem se defronta com nevoeiro denso; as palavras saíram redondas e definitivas:
Não se trata de ti. Só não quero. Preciso que pare. Acho que fui clara.
Mário afastou-se num estrondo de vozes, e a porta fechou-se de rompante. Ficou a ecoar entre mesas e cadeiras como um sino de outro mundo.
No dia seguinte, a vida ressurgiu de forma ilusoriamente normal. Os computadores piscavam, os colegas sorridentes trocavam figurinhas de tempo passado. Mas Mário continuava a pairar em redor da secretária de Joana como uma sombra insistente uma palavra aqui, outra ali, sempre à pesca de reacções desaparecidas.
Na quinta-feira de manhã, Joana entrou na copa do escritório e sentiu o aroma de café e tostas misturar-se com o odor metálico das máquinas. Mário estava lá, a mexer o seu galão distraidamente. Ao ver Joana, ensaiou um sorriso estaladiço, quase incomodativo.
Olá, outra vez. Não me percebeste bem… Só queria conversar, sem segundas intenções. Não pensarás demasiado, Joana?
Ao verter café, Joana fixou o olhar na chávena, como se fosse um mundo em miniatura. Respondeu só:
Já expliquei o que sinto. Não vale a pena insistir.
O tom seguinte de Mário foi mais agudo, inquieto como um sino rachado. Um gesto fez o café entornar-se na bancada sem que ele notasse.
É só um jantar, Joana! Só isso! Não faças disto um drama. Tens medo?
Joana depositou a chávena, olhou firme:
Não tenho medo. Mas não suporto este teu modo de insistir. É desagradável.
Deixou-o na copa, perplexo, com as palavras penduradas entre eles, tal como cenário de sonhos inacabados. Ele ficou, e a poça de café ia lentamente escorrendo sobre a pedra branca.
Nessa noite, na sua casa, encostada à janela emprestada de um sonho desarrumado, Joana reviu tudo: palavras, frases, hesitações. Abriu o telemóvel como se procurasse uma saída num labirinto, e escutou a voz dele, gravada na memória insistente, indefinida. Suspirou. Optou por informar a mulher de Mário através de uma mensagem, ligada à gravação.
Na manhã seguinte, quando o sol piscava sobre os autocarros a ocupar as ruas, Joana entrou no gabinete atravessada por uma ansiedade mais densa que o ribombar do cacilheiro no rio. Ao sentar-se, percebeu que Mário vinha a passos pesados, rosto vermelho, olhos faiscando.
Que raio foste fazer, Joana? sibilou ele, inclinando-se sobre a sua mesa. Mandaste aquilo à minha mulher?!
Sim, Mário. Disse-te que não queria conversas não relacionadas com trabalho. Reagiste como se não houvesse problema.
Armou-se um pandemónio lá em casa… Tu nunca me compreendeste, gostavas de mim mas tinhas vergonha!
Joana permitiu que a voz subisse pela primeira vez, como se rebentasse uma bolha à sua volta:
Nunca fui arrogante, nem demonstraste entender os meus limites. Agora, assume as consequências.
Os restantes colegas apuraram os ouvidos em silêncio desconfortável, as folhas deixaram de ser folheadas. Mário recuou, desfeito, saiu apressado com o ranger dos sapatos fazendo ricochete nos azulejos.
Nos dias seguintes, o escritório tornou-se um espaço etéreo, carregado de olhares de lado e frases sussurradas. Mário passou a pairar no seu próprio nevoeiro já não abordava Joana, mas a sua presença era como electricidade estática. Quando cruzavam no corredor, parecia que o ar se condensava, criando paredes invisíveis.
O director, António da Fonseca rosto pálido, óculos redondos e um colete demasiado justo para o corpo magro convocou uma reunião geral. O salão da empresa era largo, mas a sua voz soou clara entre as cadeiras de madeira:
Colegas, num ambiente como o nosso é vital respeitar os limites dos outros. Não tolerarei falta de respeito nem assédio. Espaço de trabalho é para profissionais, não para cenas pessoais.
Todos ouviram e sentiram a seriedade atravessar a sala como o vento que embacia as janelas do elétrico. Mário, no fundo, permaneceu calado, saboreando a tinta do seu próprio silêncio.
Com o passar das semanas, o tempo começou a desdobrar-se em camadas: Joana continuava dedicada ao seu trabalho, os dias flutuavam entre si como folhas caídas nos jardins da cidade. Às vezes, depois de sair do escritório, passeava pelas ribeiras de Lisboa sentindo o odor a castanha assada, encontrava as amigas num café onde copos de vinho tinto pareciam ampliar o riso.
Numa empresa onde as reuniões são tão rotineiras como o correr do Eléctrico 28, Joana finalmente sentiu que podia falar e ser escutada sem peso ou medo. Foi chamada ao gabinete do director e convidada a liderar um novo projecto. Sorrindo, aceitou, e à noite brindou com um cálice de vinho ao lado de amigas, cada uma depositando moedas de dois euros numa caixa de música imaginária.
Pelo meio, conheceu Miguel Sampaio, um colega de outro departamento, de modos suaves e voz tranquila. Miguel não trazia perguntas intrusivas, nem elogios ruidosos. Limitava-se a ouvir e a rir dos detalhes pequenos comentou uma vez os azulejos de Alfama, outra a chuva miudinha de novembro.
Os dois passaram a almoçar juntos: no jardim da Estrela, no Solar dos Presuntos, às vezes a comer pastéis de nata. O tempo com ele nunca era apressado. Miguel nunca a pressionou, limitava-se a caminhar, abria-lhe espaços onde a palavra não tinha peso de granito mas nem por isso deixava de ser suave.
O outono desceu sobre Lisboa. Um dia, num passeio sob as tílias amarelas da Tapada das Necessidades, Miguel parou diante de uma fonte e, com aquela naturalidade irrepetível das coisas verdadeiras, disse:
Gosto de ti assim. E respeito a tua história. Quero continuar ao teu lado, à velocidade do teu passo.
Joana sentiu o peso leve daquele momento, como um lenço pairando no ar. Respondeu com um sorriso e deu-lhe a mão sem cerimónia, como quem diz que sim sem precisar de voz.
A vida avançou num compasso tranquilo. Mário mantinha-se distante, cumprimentava nos corredores da empresa, mas a sua sombra já não pesava. Num dia de primavera, um cartão foi deixado discreto sobre a secretária de Joana:
Obrigado por me mostrares como não se deve ser. Espero que encontres quem saiba respeitar-te desde o primeiro passo.
Sem assinatura, mas o perfume das palavras era conhecido. Joana sorriu, dobrou o papel e guardou-o no bolso, sentindo finalmente a paz de quem se permite ser apenas quem é.
Os meses rolaram. Um dia, durante uma festa surpresa no escritório bolos de pastelaria, café pingado, risos e faduchos tocados na rádio , Miguel ajoelhou-se discretamente com um pequeno anel de prata: o pedido foi tímido, sincero. Joana aceitou.
Casaram seis meses depois numa pequena cerimónia no sossego de Sintra, rodeados de amigos próximos. Ela usava um vestido marfim simples, o cabelo solto nos ombros, e a luz do entardecer nas janelas parecia misturar sonho e real.
Entre os convidados, Joana viu Mário. Ao lado, a mulher. No final, ele aproximou-se, apertou-lhe a mão e disse:
Felicidades. Cada um de nós cresceu do seu lado.
Naquele abraço leve, ficou pairando o tempo dos maus entendidos desfeito como terra levada pelo vento.
No final da noite, à saída do restaurante coberto de folhas douradas, Joana e Miguel ficaram lado a lado a olhar as luzes em reflexo no empedrado. Um silêncio tricotava-se entre eles.
Sentes-te bem? murmurou ele, encostado à sua testa.
Sinto. Por estranho que seja, tudo isto faz sentido. Não mudava nada, Miguel. Nem sequer os dias difíceis.
Ficaram assim, mãos dadas, enquanto Lisboa brilhava lá fora. Calmamente a vida continuava, e os muros do sonho dissolviam-se, dando lugar a um entardecer limpo e promissor, como um rio calmo visto da Colina do Castelo.
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E assim, no estranho fulgor das manhãs lisboetas e na música silenciosa dos corredores de escritório, Joana aprendeu e sonhou que um não pode ser todo um mundo de dignidade, e que há futuros tecidos de respeito, onde cada palavra importa e cada fronteira desenha o seu próprio caminho.







