Não é não

Segunda-feira de manhã, Lisboa: o escritório da empresa estava povoado por sons estranhamente familiares tênues risadas, sussurros de conversa ecoando pelos corredores, o clique dos saltos no corredor que se misturava ao som distante do elétrico passando na rua. E por cima de tudo, pairava aquele cheiro de café torrado, forte, como se a vida inteira da cidade se desenrolasse ali, debaixo das lâmpadas fluorescentes.

Num canto do open space, Maria Antónia ajeitava a papelada do dia anterior. Tinha os cabelos castanhos curtos e um ar sério, mas nesse sonho tudo nela parecia flutuar levemente o olhar atento, os papéis a deslizarem sozinhos, uma caneta que rodopiava sem que a tocasse. Partilhava aquele gabinete largo com mais três sombras colegas sem rosto, presença onírica que pareciam pairar junto das secretárias.

De repente, um vulto alto e sorridente imagino chamar-se Tiago Menezes, o gestor do departamento vizinho, com gravata vermelha desalinhada e um brilho insistente nos olhos emergiu da névoa de copos de plástico e folhas de Excel. Encostou-se à secretária de Maria Antónia, de forma tão casual que, por um momento, a madeira pareceu ondular.

Então, Maria Antónia, como passaram os teus sonhos no fim de semana? perguntou ele, a voz tropeçando com eco de fado por debaixo das palavras.

Abriu um sorriso polido, a mais delicada cortesia do costume. Nunca gostou de embaraços. Normal, obrigada. Andei a pôr a casa em ordem e fazia um gesto como quem tira pó invisível no ar. E tu?

Tiago cresceu uns 20 centímetros, inflamando com a própria animação, como se tivesse engolido um sardinha grelhada e ela lhe acendesse a conversa. Fui com os amigos até à Arrábida: churrasco, fado ao improviso com guitarra, vinho tinto entornado nos copos de plástico. Havias de ir connosco um dia destes. Agora, então, que estás livre, não é? Disseste que te divorciaste há pouco.

O tempo parou. Maria Antónia ficou suspensa entre os papéis e o abajur que balançava no teto. Respirou fundo: sim, não era assunto de trabalho, mas no fundo toda esta sequência parecia inventada, como se pairasse num filme mudo, onde a boca se mexia mas a voz vinha de longe.

É verdade, estou divorciada respondeu ela, em voz de cana rachada, olhando para a frente. E agradeço, mas não estou para programas em grupo com gente que mal conheço.

O rosto de Tiago retorceu-se num sorriso mais fixo, um cristal a precisar de ser limpo, enquanto ele insistia, escorregando entre a realidade e o absurdo. Porquê tanta resistência? Agora é a altura perfeita para te divertires Olha, sexta-feira jantamos perto do Príncipe Real, que tal?

Maria Antónia alinhou meticulosamente os papéis, como quem constrói um muro invisível. O sentido da realidade era líquido, as palavras pareciam evaporar-se com o café.

Tiago, agradeço o convite, mas dispenso relações novas. Vamos nos limitar ao trabalho, sim?

Ele fez um gesto largo, afastando a conversa como se fosse uma mosca irritante.

Oh, vá lá. És gira, eu também. Para quê tanta cerimónia?

Dentro dela, subia um vapor de impaciência, mas o exterior continuava sereno, como um espelho liso ao pôr-do-sol em Sintra.

Não estou interessada, Tiago. Peço que respeites repetiu, agora com voz firmeante.

Está bem, se tu dizes cedeu ele, erguendo os ombros como quem deseja o Tejo subindo até cobrir as mágoas. Mas o olhar, prestes a evaporar, retenha-se nela um segundo mais.

Nas semanas seguintes, o escritório tornava-se um labirinto: Tiago flutuava de cadeira em cadeira, inventando pretextos para se aproximar. Preciso falar contigo sobre aquela folha de Excel. Ajudo-te a corrigir este relatório? Tudo soava como uma velha canção passada ao contrário. Qualquer conversa, por mais trivial, desembocava no convite recusado, como se as negativas de Maria Antónia lhe parecessem jogadas num tabuleiro incompleto.

Ela balançava as respostas entre o formal e o indiferente, enquanto os cabos dos fones pareciam enrolar-se em volta dos dedos: queria gritar, mas só saia vapor de água. Por vezes, sentia-se como uma estátua arrastada pela maré, o NÃO transformado num eco contido no soalho encerado.

O tempo escorreu feito caracol. O escritório, antes um formigueiro, esvaziou-se ao final de uma noite. Maria Antónia, sozinha, revisava um projeto urgente. Três xícaras frias, uma almofada perdida, um relógio parado antes das nove. Quando surge Tiago, chave do carro a oscilar, sorriso impresso no rosto. Senta-se na beira da secretária como se fosse um príncipe despenteado.

Valha-me Deus, ainda aqui estás? Que te parece irmos ali ao bairro Alto, ouvir um samba ao vivo?

Pausa. O computador fecha-se com um suspiro. Ela ergue o olhar, agora fosco como porcelana antiga.

Tiago, por favor, já não tenho energia para repetir o mesmo: não me interessa. Respeita-me.

O rosto dele estilhaçou-se numa careta de criança contrariada, o eco da voz batendo nas paredes do sonho.

O que é que tens, mulher? Ficaste sozinha, devias agradecer ser notada! Só quero jantar contigo ou tens medo?

A sala pareceu soltar faúlhas. Maria Antónia contou cada gota de suor, como quem conta moedas de euro para pagar o elétrico.

Isto não tem a ver contigo. É meu direito dizer não. E pronto.

Ele recuou, corando, punhos fechados, tudo em câmara lenta.

Pois olha, depois não te queixes, vais acabar sozinha. Vocês são todas iguais!

Saiu batendo com a porta tão forte que as pastilhas de menta saltaram da gaveta.

No dia seguinte, tudo parecia rodar no mesmo disco riscado: colegas a cochichar no refeitório, o barulho das impressoras, Tiago a pairar como um balão insistente, inocente e sorridente. Maria Antónia mantinha o muro alto de respostas curtas. O café, de tão tenso, parecia ácido.

Numa manhã cinzenta de quinta-feira, encontrou Tiago de novo na copa, a açúcar pingando no café e olhos perdidos pela janela sobre o Rossio.

Maria Antónia atirou ele, sorriso descongelado , se calhar não nos percebemos. Eu só queria conversar

Ela mexeu o café, o leite a desenhar redemoinhos. Olhou para ele sem pestanejar nem angústia, nem medo.

Está tudo dito.

Sempre a fugir! Nem a casar contigo quero, só queria sair uma vez! a voz dele subiu, o café transbordou sem que ninguém parecesse notar.

Ela pousou a chávena. Não foge nada, apenas não quero. Não aceitares o não é muito feio.

Saiu silenciosa, deixando Tiago entre manchas de café derramado.

Nessa noite, nem o som do autocarro a afastou. Revirou o episódio na cabeça: teria sido demasiado dura, teria evitado o confronto? Repisando cada palavra como quem passa ferro em roupa seca, percebeu que tudo já tinha sido dito e redito só não ouvia quem não queria ouvir.

Pegou no telefone, abriu o gravador de voz, hesitou em ouvir a conversa gravada. Em vez disso, escreveu uma mensagem curta à esposa de Tiago: Boa noite. Desculpe a intromissão. Achei que devia saber como o seu marido se comporta no trabalho. Em anexo, envio o áudio que achei adequado partilhar. Cumprimentos. Clicou em enviar, a mão a tremer, mas com uma estranha sensação de sossego.

Dia seguinte: Tiago aparece no escritório tenso como um peixe fora de água, rosto roxo, a voz feita de trovão.

Como te atreves? Mandaste aquela gravação à minha mulher?

Sim. Avisei que não queria nada contigo para lá do trabalho. Tu ignoraste. Fui forçada a agir.

Traíste-me, puseste o meu casamento em causa!

Traíste-te a ti próprio respondeu Maria Antónia, finalmente sem medo de se dar a voz. Não me achas atraente, dizes? Pois eu nunca te dei confiança! E continuei a dizer que não!

O escritório suspendeu-se, colegas a olhar de soslaio, outros parados nas suas tarefas, um silêncio pesado fermentando entre cadeiras e monitores. Tiago retirou-se, o fado ainda lhe saindo pelos punhos.

Durante dias, o ambiente pesou no ar; Tiago evitava qualquer contacto. Maria Antónia sentia o seu rancor pairar como neblina. Quando cruzavam caminhos, só sentia a vibração agreste do silêncio e a liberdade fresca, finalmente, de poder respirar.

Burburinhos espalharam-se: Disseram que a mulher do Tiago ficou à espera na porta do escritório, fez uma cena, discutiu à frente da secretária. Ouvi dizer que ele foi ao gabinete do diretor e quase foi demitido. Maria Antónia não comentava, limitava-se a um ciclo infinito de emails e reuniões, como se nada fora do trabalho a ameaçasse.

Uns dias depois, uma colega, Ana Filipa do Marketing nervos às pontas dos dedos e voz miúda abordou-a, quase a medo.

Desculpa, só queria agradecer. Há meses que noto o Tiago a ser demasiado insistente, mas nunca tive coragem de fazer nada. Obrigada por teres falado, por teres travado isto.

Também passaste pelo mesmo? Maria Antónia perguntou, como quem tateia o escuro.

Passa, sim. E agora acho que ele percebeu. Espero, pelo menos.

Numa manhã de assembleia dentro de uma sala com cheiros a pó e tostas, o diretor-geral Sr. Manuel Paiva, óculos na ponta do nariz fez um discurso protocolar sobre ética:

Colegas, somos profissionais. A vida privada não entra na sala de reuniões. Respeito pelas fronteiras de cada um é a base deste trabalho. Qualquer questão, venham ter comigo.

Todos escutavam em silêncio. Tiago, distante, a bater com a caneta na mesa como se tentasse adormecer a culpa.

Dali em diante, a rotina reconquistou a empresa. Sorrisos tornaram-se relaxados. Tiago manteve distância; nunca mais desviou pela secretária de Maria Antónia, mas, de vez em quando, um olhar frio, sem fala, cruzava o ar, lembrando capítulos não encerrados.

Passados meses o tempo, em sonhos, dobra-se de formas estranhas numa manhã, entraram juntos no elevador. Os dígitos do painel subiam, Maria Antónia sonhava com o relatório por terminar, Tiago mexia num botão imaginário do casaco.

No momento de sair, ele falou baixinho, como se o sonho fosse acabar: Maria Antónia Desculpa. Devo ter passado dos limites.

Ela ficou por instantes parada no limiar, depois assentiu.

O importante é perceber e não repetir.

Seguiram cada um para o seu caminho. Daí em diante, cumpriam apenas o protocolo: Bom dia, Precisas de ajuda nalguma folha? e nada mais.

Numa tarde com cheiro a castanhas assadas, encontrou sobre a secretária um pequeno cartão linhas abstractas, nenhuma assinatura. A mensagem dizia: Obrigado por me mostrares o que não devo fazer. Vais encontrar alguém que respeite os teus limites ao primeiro não.

Ela guardou o cartão, sentindo a poeira do passado assentar suavemente.

A vida voltou a acontecer. As tarefas de sempre, as reuniões, o café na esplanada à beira-rio. Maria Antónia sorriu para o espelho no hall, surpresa por ver um sorriso sincero, não esforço. O não não é convite para insistir, pensou. É só uma fronteira, e há quem a saiba compreender.

Numa dessas noites estranhas, no final de um jantar informal com colegas entre risadas e bolos de arroz, conheceu André Vilhena, do departamento de análise. Olhos abertos e conversas sem pressas, nunca impunha a presença: apenas ouvia, dava espaço, oferecia chá sem grandes intenções. As palavras eram outra coisa leves como flores no Cais do Sodré.

Quando lhe perguntou, semanas depois, se apreciaria continuar a conversar, Maria Antónia sorriu, leve: Sim, gostava.

Começaram a sair vez por outra, no Chiado, em exposições ou a vaguear entre praças e vielas. Sem pressas, sem perguntas do passado. Com ele, conversar era um sono bom onde não se teme a madrugada.

Com o tempo, Maria Antónia viu-se diferente. Dava opiniões no trabalho, apresentava ideias novas, ouvia e explicava. Colegas procuravam-na, sabiam que podiam falar sem medo de serem julgados. O diretor, um dia, após uma reunião, propôs-lhe liderar um novo projeto. Dessa vez, não hesitou.

Muito obrigada pela confiança, aceito disse.

André esperou por ela à saída, sorriso suave.

Parabéns. Sabia que sim.

Finalmente, o mundo parecia encaixar-se. E, passado um ano e meio, casaram discretamente numa quinta fora da cidade, entre amigos e familiares. Maria Antónia usava um vestido leve e uma coroa de folhas douradas. Entre os convidados, Tiago e a esposa juntos novamente, depois de um árduo percurso de reconciliação e aprendizagem mútua. Antes do bolo, Tiago aproximou-se, humilde:

Muitos parabéns. Que sejas mesmo feliz.

Ela respondeu com gratidão, segurando o olhar dele.

E obrigada pelo cartão.

Mais tarde, sozinha junto à janela, observou as luzes da noite refletidas no Tejo. André abraçou-a por trás, calor recostado nos ombros.

No que pensas? perguntou, voz macia como a brisa do Atlântico.

Penso que algumas decisões difíceis nos trazem ao sítio certo. E eu não mudava nada, segredou ela.

Nessa noite, Lisboa sonhava morta e acordada; Maria Antónia sentiu o chão, sentiu-se inteira. E enquanto fechavam o restaurante e ficavam as últimas sombras, saíram os dois de mãos dadas sem pressa, seguros, para onde quer que o sonho os levasse a partir dali.

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