— Não conseguiram educar bem os vossos filhos. Vejam o caso do Alexandre Micá, por exemplo…

Não conseguiram educar filhos como deve ser. Olha o Miguel do Alexandre…

Constança, ao início, não entendia por que razão a mãe começara a implicar com ela. Parecia-lhe que até há pouco tudo corria bem, especialmente na infância. Sempre foi posta como exemplo ao irmão mais velho, elogiada pela mãe.

Viviam modestamente, nunca passaram fome, mas também não lhes sobrava. Tinham o essencial, e para as grandes compras a família juntava. Até havia carro, já de uns bons anos, mas que nunca os deixava ficar mal. E se avariava, o pai punha mãos à obra.

Depois do secundário, o irmão Alexandre entrou na Universidade de Lisboa. Gastava-se muito dinheiro com ele: propinas, quarto alugado, comida…

Constança via que os pais se sacrificavam, poupavam em tudo. E ela também ia para a universidade em breve, a diferença de idades não era grande.

Outra lisboeta não conseguimos aguentar. Também há universidade cá, candidata-te tu.

Constança entrou no Instituto Politécnico da cidade, arranjou logo trabalho: primeiro entregas de comida ao fim de semana, depois empregada numa pastelaria ali perto. Estudava com bolsa, comprava as suas roupas, até para casa trazia algumas compras de vez em quando.

És um orgulho, filha. Em casa, estudas, trabalhas. O Alexandre não dá, tem muita matéria, muita exigência por Lisboa. Anda cansado.

Também eu ando cansada, passo noites a fazer trabalhos.

Não é igual, em casa é diferente.

Eventualmente, o irmão terminou o curso, começou à procura de trabalho. Para quê voltar para o interior, se na capital havia oportunidades? Só que não havia trabalho que cobrisse as expectativas dele. Os pais continuaram a ajudar.

Ele precisa de se estabelecer lá, depois tudo encaminha.

Encaminhava ou assim se pensava. Alexandre acabou por trabalhar, e, de repente, casou com a filha do patrão. Foi tudo muito rápido, porque já vinha um bebé a caminho.

O filho nasceu, e assim ficou garantido. Os sogros compraram-lhes um apartamento em Campo de Ourique, o sogro subiu-lhe o cargo, ainda acrescentou ao ordenado. Correu-lhe tudo bem. Os pais respiraram de alívio.

Também Constança casou, mas não com nenhum filho de chefes; escolheu um homem simples. Juntaram-se para comprar casa, longe de Lisboa.

Tiveram uma filha e, depois, de repente, vieram gémeos rapazes. Esperavam o segundo e chegaram logo dois. Custou, mas não se queixavam. Os filhos cresceram bem, foram à escola.

Ao fim de trinta e cinco anos juntos, os pais de Constança decidiram finalmente celebrar. Tinham passado ao lado dos vinte e cinco, dos trintasempre a faltar dinheiro, mas agora decidiram arriscar.

Alexandre veio com o filho, a mulher não pôde, mas enviou presente. Um cartão oferta para comprar um eletrodoméstico. Sugeriu logo uma máquina de lavar loiça.

Alexandre entregou, escolheram juntos, instalaram. Durante todo o jantar, a mãe não parava de exibir a máquina a toda a gente. Depois da festa, nada de lavar loiça, a máquina tratava de tudo.

O presente de Constançauma viagem para os pais, assim como uma segunda lua-de-melacabou ofuscado pelo brilhantismo da máquina de lavar. Custara mais, mas ninguém reparou.

Os pais lá foram de viagem, agradeceram a filha, mas sublinharam depois que Constança gastava o dinheiro sem cabeça. A viagem passou, a máquina ficou para sempre útil.

E a partir daí, começou o coro inevitável: em qualquer ocasião, a mãe arranjava maneira de exaltar o filho bem-sucedido. O filho que mora na capital, logo é alguém. Fez carreira, tem apartamento, mulher, filhoum!

Um só filho, não três aos magotes. Para quê ter três? São para criar! Agora é fácil, depois quero ver. O Alexandre…

O Miguel do Alexandre tem tudo, casa cheia de modernices, aspirador que limpa sozinho, luzes automáticas, máquina de lavar loiça, comida chega feita, e até vem senhora para passar a ferro…

Mãe, eu faço tudo sozinha, os miúdos e o Luís, meu marido, ajudam.

Mas olha o Alexandre…

Mas o teu irmão…

O tempo passou. Os filhos de Constança cresceram. Ninguém foi estudar para Lisboa, mas todos tiraram curso superior na terra deles. E a mãe de Constança não perdeu a oportunidade:

Ali não souberam criar filhos como deve ser. Olha o Miguel do Alexandre…

Mãe, temos bons filhos, e do Miguel tu não sabes tudo! Nós já fomos lá, não é assim tão perfeito. Notei logo.

Não inventes. Se não serviste para nada, os teus filhos muito menos. Só desgraçados à solta!

Sim, mãe. Não sirvo para nada. Bom emprego, mas não é em Lisboa. Marido honesto, mas não é doutor. Filhos com cursos, mas só cá no distrito!

Casa remodelada, sim, só não temos empregada doméstica. O nosso aspirador, máquina de lavar loiça, interruptores, tudo somos nós!

Também ajudamos, mãe, mas não como o Alexandre. Ele nem para medicamentos manda dinheiro, os gastos lá na capital são milhares!

Ele é alguém, tu és ninguém!

E, um dia, o Alexandre aparece a casa dos pais. A mãe pensava que vinha só de visita, mas era para ficar. A mulher dele pediu o divórcio, foi despedido pelo sogro, e havia problemas graves com o filho.

Na terra não arranjou trabalho, o ordenado era ridículo perto do lisboeta.

Constança, achámos que o Alexandre devia abrir negócio. Ele está pronto. Não é para ficar engenheiro num buraco, depois de conhecer Lisboa. disse a mãe um dia.

Acham, então avancem.

Precisamos da tua ajuda. Dinheiro, um crédito. Vocês não precisam tanto, não vivem na capital.

O Alexandre também já não vive! Está na hora de pôr os pés na terra.

Tu podes passar sem, ele precisa! Ele…

Mãe, ajudamos os filhos, ajudamos-vos. Cada um como pode. Nós também precisamos de trocar o carro, comprar umas coisitas…

O carro pode esperar. O dinheiro é mais necessário para o Alexandre.

Eu sei, mãe. O Alexandre sempre foi prioridade. Mal foi para Lisboa Eu nem queria ir estudar para lá, mas nem aqui ajudaram. A casa dos meus avós foi para manter o teu filho na capital. O carro que era dos outros avós “foi ter” a Lisboa porque o Alexandre precisava de carro.

Pedi só dinheiro emprestado para o carrinho dos gémeos! Empréstimo recusado. O que pensas, que fomos a Lisboa ver o teu filho? Não! Só levávamos coisas que vocês mandavam. Ficámos num hotel, não agradávamos à mulher dele. Éramos da província!

Já está divorciado e precisa de ajuda! Agora nem sequer tem casa.

Nem carro. O dele ficou desfeito o filho tratou disso.

Vá, não discutamos as desgraças dele, ajudem.

Não, mãe! Há trabalho na nossa cidade, os ordenados são dignos. Ai não! Para ele são uma miséria. Para nós é suficiente, para ele, trocos.

E o que achas que eu posso dar? Uns trocos? Dinheiro para negócio, para carro, depois para casa… Não, mãe! Não fica bem uma pessoa tão importante vir mendigar à irmã pobrezinha do interior, que nunca foi alguém!

Achas bem falar desse modo comigo?

Está tudo bem, mãe. Só percebi que só o meu irmão foi alguém. Agora vive convosco, que seja ele a ajudar. Chegou a vez dele.

Constança! Queres obrigar-nos a vender a casa. Sabes para onde nos empurras?

Sou eu? Então vendam Mas pelo menos fiquem com um quarto para vocês.

Venderam o apartamento, compraram um velho T0. O resto do dinheiro foi para o Alexandre, que voltou para Lisboa. Fazer o quê ali no interior?

Negócio, nunca viu nenhum. E para a mãe, o Alexandre continuava a ser alguém, enquanto pedia ajuda a Constança para obras na casa minúscula. A filha ajudou, mas recusou o arranjo.

Bem sei que essa casa vai ser para o teu querido filho, por isso que seja ele a tratar.

O dinheiro do irmão depressa acabou, voltou outra vez a viver com os pais, agora apertados num T0. Alexandre dormia montado sofá da cozinha, mas podia dizer que tinha sido alguém.

Afinal, como diz o nosso povo, os pais apostaram no cavalo erradoficaram a ver navios.

E vocês? O que acham desta história? Escrevam nos comentários, deixem o vosso gosto!

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