NÃO CONSEGUI AMAR
Raparigas, confessem lá, qual de vocês é a Madalena? perguntou a jovem, olhando-nos com um olhar astuto e curioso.
Eu sou a Madalena. Que se passa? respondi sem perceber.
Toma, Madalena. É uma carta do Valter disse ela, tirando um envelope meio amassado do bolso do avental e entregando-mo.
Do Valter? E ele, onde está? estranhei.
Foi transferido para um lar de adultos. Esperou tanto por ti, Madalena, como quem espera por um milagre. Ficou a olhar pela janela até cansar os olhos. Deu-me esta carta para rever, para eu corrigir os erros. O Valter não queria fazer má figura contigo. Bem, vou andando, está quase a hora de almoço. Eu trabalho aqui como educadora disse a jovem com um suspiro, lançou-me um olhar de leve reprovação e saiu apressada.
Uma vez, eu e minha amiga Carminho, a passear, fomos parar por acaso aos jardins de um instituto desconhecido. Tínhamos dezasseis anos, era férias grandes, apetecia aventura.
Sentámo-nos num banco à sombra, rimos, conversámos. Sem darmos conta, aproximaram-se dois rapazes.
Olá, meninas! Estão aborrecidas? Queres conversar? disse um, estendendo-me a mão. Valter.
Eu respondi:
Madalena. E esta é a minha amiga Carminho. E o teu amigo como se chama?
Leonel disse o segundo, tímido.
Achei-os sérios demais, quase fora de tempo um excesso de correção que nos fez sorrir.
Valter comentou, firme:
Meninas, porque usam saias tão curtas? O decote da Carminho até me faz corar.
Assim é a moda, rapazes, cuidado para não deixarem os olhos fugir, rimos.
Difícil não olhar. Somos homens, não é? E fumas? insistiu o moralista do Valter.
Claro, mas só por brincadeira, disse eu, piscando o olho à Carminho.
Só então reparei que andavam com dificuldade.
Valter arrastava-se devagar; Leonel coxeava notoriamente.
Estão aqui em tratamento? arrisquei.
Sim. Fui apanhado num acidente de mota, o Leonel caiu mal da falésia ao mergulhar respondeu Valter como quem recita uma história já feita. Vamos sair breve.
Eu e Carminho acreditámos no conto deles. Nem nos passava pela cabeça que tinham uma deficiência desde a infância, e que estavam destinados a viver nesse lar por muito tempo. Para eles, nós éramos uma brisa de liberdade.
Viviam e estudavam num internato fechado. Cada jovem tinha a sua versão inventada de acidente, queda ou briga.
Valter e Leonel eram rapazes cultos, sábios para a idade.
Começámos a visitá-los todas as semanas. Por um lado, sentíamo-los felizes com a nossa presença; por outro, aprendíamos muito com eles.
As conversas tornaram-se hábito.
Valter oferecia-me flores do jardim, Leonel dava origamis feitos por ele à Carminho, sempre corado.
Depois, sentávamo-nos todos juntos no mesmo banco: Valter ao meu lado, Leonel virado para Carminho, a quem dedicava toda a atenção. Apesar da timidez, via-se que ela gostava da sua companhia. Falávamos de tudo e de nada.
O verão passou rápido, doce e leve.
Chegou o outono, a chuva, as aulas recomeçaram. Eu e a Carminho ficámos tão agarradas ao final do secundário que esquecemos dos nossos amigos Valter e Leonel.
Vieram os exames, a última aula, o baile de finalistas. O verão seguinte era promessa de esperança.
Resolvemos ir ao instituto ver os rapazes. Sentámo-nos no banco habitual, à espera que Valter chegasse com flores frescas e Leonel com origami. Esperámos mais de duas horas, em vão.
De repente, apareceu a jovem educadora e entregou-me a carta do Valter. Abri sem hesitar:
Minha querida Madalena,
És a flor mais doce do meu jardim, a estrela inalcançável do meu céu. Talvez não saibas que me apaixonei por ti ao primeiro olhar. Os nossos encontros eram o ar que eu respirava. Durante meio ano fiquei à janela, à tua espera, Madalena. Esqueceste-te de mim. Como lamento! Os nossos caminhos são diferentes, mas agradeço-te por me mostrares o que é amor verdadeiro. Lembro a tua voz suave, o sorriso que me encantava, as tuas mãos ternas. Sinto um vazio sem ti, Madalena! Se pudesse ver-te mais uma vez Quero respirar, mas falta-me o ar
Eu e o Leonel fizemos dezoito anos. Na primavera, vamos ser transferidos para outro lar. Talvez nunca nos voltemos a ver. O meu coração está partido! Espero esquecer-te e curar-me.
Adeus, minha querida!
Assinatura: eternamente teu Valter.
No envelope vinha uma flor seca.
Senti uma vergonha terrível. O coração apertou-se ao perceber que nada podia mudar. Lembrei-me da frase: Somos responsáveis por aquilo que cativamos.
Nunca imaginei as emoções que explodiam no coração do Valter. Mas nem eu seria capaz de retribuir. Nunca senti nada além de amizade, curiosidade por alguém tão sábio. Sim, brinquei, fiz charme, atirei lenha para a fogueira, sem suspeitar que o meu flirt seria para o Valter incêndio de paixão.
Passaram-se muitos anos. A carta do Valter está amarelada, a flor desfaz-se. Mas recordo os nossos encontros inocentes, as conversas soltas, o riso fácil das piadas do Valter.
Há uma continuação. A Carminho sensibilizou-se com a história de Leonel, que fora rejeitado pelos próprios pais por causa da diferença. Nascera com uma perna bastante mais curta. Carminho terminou a licenciatura de Educação, trabalha num instituto para crianças com deficiência. Leonel é o marido amado, juntos têm dois filhos adultos.
Valter, segundo Leonel, viveu quase sempre sozinho. Aos quarenta, a mãe apareceu no lar, viu o filho carente, emocionou-se, e levou-o consigo para a aldeia. Depois disso, nunca mais soubemos dele
A vida ensina: não podemos controlar os sentimentos dos outros, mas devemos tratá-los com verdade e respeito. Não somos donos do coração alheio, mas a nossa presença pode marcar para sempre. E o verdadeiro amor, mesmo não correspondido, é sempre prova de esperança.







