Não, não venhas agora, mãe. Pensa bem, a viagem é longa, de comboio toda a noite, e tu já não és nova. Para quê esse trabalhão? E com a primavera por aí, de certeza tens a horta cheia de coisas para tratar, diz-me o meu filho.
Ó filho, como para quê? Já não te vejo há tanto tempo. E olha que queria mesmo conhecer a tua mulher, ver como é que ela é, conhecer a nora, como deve ser, digo eu, sincera.
Então faz assim, espera só até ao fim do mês, e nós é que vamos todos aí a casa, até calha bem na Páscoa que temos uns dias de folga, descansou-me o meu André.
Para dizer a verdade, eu já estava decidida a ir ter com eles, mas lá confiei na conversa, prometi não ir lado nenhum e ficar à espera em casa.
Mas ninguém apareceu. Liguei ao André umas quantas vezes, mas ele não me atendeu. Depois lá devolveu a chamada: estava muito ocupado, não valia a pena eu ficar à espera.
Fiquei mesmo triste. Tinha-me preparado para receber o filho e a nora. Ele casou-se há meio ano e eu ainda não tinha sequer visto a rapariga.
O meu André foi um filho feito por minha conta, como quem diz. Eu já tinha trinta anos, nunca casei, decidi que queria pelo menos um filho. Se é pecado ou não, não sei, mas nunca me arrependi; mesmo com pouco dinheiro, sempre trabalhei em tudo e mais alguma coisa, só para que ao André nunca lhe faltasse nada.
O rapaz cresceu, foi estudar para Lisboa. Para lhe dar uma ajuda nos primeiros tempos, até fui trabalhar para França, de forma a poder mandar-lhe dinheiro para os estudos e a casa. O meu coração de mãe ficava feliz por isso.
Ao terceiro ano de faculdade, o André já fazia uns biscates para se aguentar sozinho. No fim do curso arranjou trabalho e passou a viver pelas próprias pernas.
Ele vinha à aldeia, mas pouco, talvez uma vez por ano. E eu, de Lisboa, só conheço a estação dos autocarros da televisão.
Pensei: Quando o André casar, vou lá de certeza. Comecei logo a pôr algum dinheiro de lado para esse dia. Cheguei a juntar sessenta mil euros em notas e moedas, que uma pessoa do campo é assim: poupadinha.
Há meia dúzia de meses, o André ligou-me, todo entusiasmado: ia casar.
Mãe, mas não venhas agora, que vamos só ao registo. O casamento fica para mais tarde, preveniu logo ele.
Fiquei desiludida, mas fazer o quê? O André apresentou-me a nora por videochamada. A rapariga parecia simpática bonita até! E dizem que rica: o pai dela é peixe graúdo, empresário qualquer. Olha, eu só podia ficar contente por lhe correr bem a vida ao meu filho.
Só que o tempo passou, nem eles vieram, nem convite algum apareceu. Já não aguentava mais sem ver o meu rapaz e a tal da nora, decidi embalar umas coisas, comprei bilhete de comboio, fiz um farnel, levei broa acabada de cozer, uns frascos de compota, e lá fui eu para Lisboa. Liguei ao André antes de embarcar.
Ó mãe, o que foste fazer? Estou a trabalhar, não te posso buscar. Pronto, fica aqui a morada, apanha um táxi, suspirou ele.
Cheguei de manhã à capital, chamei o táxi, fiquei logo aparvalhada com o preço da viagem, mas pronto, ao menos Lisboa estava linda e lá ia apreciando a vista pela janela.
Foi a nora que abriu a porta. Nem um sorriso, zero braços abertos. Um simples Venha por aqui para a cozinha, faça favor. O André já tinha saído cedo para o emprego.
Comecei a desembrulhar as minhas coisas: batatas, beterrabas, ovos das minhas galinhas, maçã seca, cogumelos em vinagre, pepinos, tomates em conserva, uns frascos de doce. A nora, calada, a ver aquilo tudo, e depois saiu-se com esta: Nem valia a pena ter trazido isso tudo, nós não comemos dessas coisas. Aliás, eu até nem cozinho em casa.
Então, mas o que é que vocês comem? perguntei.
Todos os dias encomendamos as refeições. Odeio cozinhar, então depois o cheiro da comida fica pela casa fora… dissertou a Filipa.
Mal eu tinha absorvido aquela, entra-me pela cozinha um rapazito de três ou quatro anos.
Apresente-se, este é o meu filho, o Tiaguinho, disse ela.
Tiago? tentei confirmar.
Não, Tiaguinho. Não gosto que mudem nomes aqui em Lisboa.
Epa, tanto faz, lá disse: Está bem, Filipa.
E não é Filipa, é Filipa, não me cortem o nome. Aqui ninguém troca os nomes, mas pronto, vocês lá da terra…
A mim só me apetecia chorar. E nem era por ver o André com uma mulher já com filho, mas porque ele a mim não contou nadinha destas coisas.
E ainda não era tudo: olhei para a parede e vi um retratão de casamento.
Ao menos tiraram umas fotos bonitas, mesmo sem casamento, tentei aliviar.
Mas não houve casamento? Claro que houve! Foram duzentos convidados. Só tu é que não vieste, o André disse que estavas doente. Se calhar até foi melhor assim, de cima a baixo, aquela crítica das normais da cidade.
Vai tomar o pequeno-almoço?
Vou, sim…
Filipa encostou-me uma chávena de chá e uns pedaços de queijo caro à frente. Para ela, era isto o pequeno-almoço.
Eu, que sempre me habituei a comer bem pela manhã, ainda mais vinda de viagem… Pensei: Vou estrelar uns ovos e corto broa. Mas a nora proibiu-me logo à partida, feio, deixa cheiro.
O meu pão caseiro ela nem quis tocar. Lá disse que agora ela e o André seguiam uma alimentação saudável.
Perdi logo o apetite, só pensava no tempo que esperei por aquele casamento, a deitar dinheiro ao mealheiro… Afinal, tudo em vão.
Bebi o chá, silêncio, que até fazia eco. O menino veio ter comigo, encostou-se, e eu, já derretida, tentei pegar-lhe. Mas a Filipa veio logo a protestar, não fosse eu trazer algum bicho da aldeia.
Não tinha presente para o puto, então dei-lhe um frasco de doce de framboesa, disse-lhe: Olha, para barrar as panquecas. A nora arrancou-mo logo das mãos:
Quantas vezes é preciso dizer? Aqui é só comida saudável, não comemos açúcar!
Já nem acabei o chá. Fui ao corredor, vesti o casaco, comecei a calçar-me. Ela… nem perguntou para onde ia.
Saí e sentei-me num banco do jardim do prédio, a chorar baba e ranho. Nunca uma ida à cidade me tinha custado tanto.
E passado um bocado vejo a Filipa, a sair para passear com o filho e a levar todas as minhas compotas e conservas para o lixo.
Fiquei sem palavras, esperei que se fossem embora, recuperei os frascos, e arrastei-me até à estação de comboios. Tive sorte: alguém desistiu do bilhete, comprei para essa mesma noite.
Perto da estação entrei numa tasca, pedi um prato de sopa com carne, batatas com salada. Estava cheia de fome, paguei bom dinheiro, mas hei-de merecer pelo menos uma alegria no dia.
Deixei as malas no cacifo e fui passear por Lisboa afinal, a cidade até tem outra graça ao vivo. Quase me distraí.
No comboio, a noite toda em claro, lavada em lágrimas. O que custou mesmo foi o meu André, nem uma chamada: Onde estás, mãe?
Juro que esperava mais depressa ver neve em julho do que esta receção do meu filho único, a minha esperança, que afinal… já pouco ou nada quer de mim.
Agora penso: o que faço eu com aqueles sessenta mil euros? Dou-lhos, para saber que mesmo assim cuidei sempre dele? Ou fico com eles, afinal, ele não fez nada por merecer?







