Uma Boa Mulher.
É uma boa mulher. O que seria de nós sem ela?
E tu só lhe dás dois mil euros por mês.
Oh, Leonor, deixámos o apartamento em nome dela.
Manuel ergueu-se lentamente da cama e caminhou até ao quarto ao lado. Sob a luz suave do candeeiro, mirou a esposa com os olhos cansados dos anos.
Agachou-se ao lado dela, escutando atentamente. Parece estar tudo bem.
Ergueu-se novamente e arrastou os pés até à cozinha. Abriu o iogurte, foi lavar as mãos na casa de banho. Depois, voltou para o seu quarto.
Deitou-se. O sono não vinha.
Eu e a Leonor já passámos dos noventa. Quanto tempo vivemos? Já estamos a caminho de Deus, e à nossa volta não ficou ninguém.
As filhas, Maria partiu cedo, nem chegou aos sessenta.
O Miguel também já não está. Viveu sempre à solta… A neta, Andreia, já vive na França há mais de vinte anos. Nem se lembra dos avós. Já deve ter filhos grandes…
Sem se aperceber, adormeceu.
Acordou com um leve toque na mão:
Manuel, está tudo bem? ouviu-se a voz suave da esposa.
Abriu os olhos. Ela estava inclinada sobre ele.
Que se passa, Leonor?
Olhei para ti e pareceste-me tão quieto.
Ainda estou vivo! Vai dormir!
Ouviram-se passos arrastados. O interruptor da cozinha estalou.
Leonor foi beber um pouco de água, foi à casa de banho e voltou ao seu quarto. Deitou-se suspirando:
Um dia, vou acordar e tu já não vais cá estar. O que hei-de fazer? Ou, talvez, eu vá primeiro.
O Manuel já encomendou até o nosso funeral. Nunca pensei que isso se podia tratar com antecedência. Por outro lado, que alívio. Quem o faria por nós?
A neta esqueceu-se completamente de nós. Só a vizinha, Ivone, é que aparece cá. Tem a chave do apartamento. O avô dá-lhe mil euros da nossa reforma. Ela compra o que é preciso, os mantimentos, essas coisas. Que havemos de fazer ao dinheiro? Do quarto andar já não descemos sozinhos.
Manuel abriu os olhos. O sol espreitava pela janela. Saiu para a varanda e viu as folhas verdes do loureiro. Um sorriso acendeu-se-lhe no rosto:
Vês, sobrevivemos até ao verão!
Foi chamar a esposa. Ela estava sentada, perdida em pensamentos.
Leonor, larga essa nostalgia. Anda, quero mostrar-te uma coisa.
Ai, hoje não tenho forças para nada murmurou ela, erguendo-se com dificuldade. Que tens tu em mente?
Anda, amor, anda!
Amparando-lhe os ombros, guiou-a até à varanda.
Olha, o loureiro já está tão verde! E tu a dizeres que não víamos mais o verão. Estamos cá!
É verdade! E o sol brilha tanto…
Sentaram-se juntos no banco da varanda.
Lembras-te daquela vez que te convidei ao cinema? Ainda na escola. Era por esta altura, o loureiro estava igualzinho…
Quem podia esquecer? Quanto tempo já passou?
Mais de setenta anos… setenta e cinco feitos.
Durante muito tempo ficaram ali, relembrando os tempos de juventude. Muitas coisas se esquecem com a idade, até o que se fez ontem, mas a juventude nunca se apaga.
Olha que já estamos a conversar demais levantou-se Leonor. Ainda nem tomámos pequeno-almoço.
Leonor, faz lá um chá decente! Já me cansei dessas ervas.
Já sabes que não podemos.
Ao menos põe pouco açúcar, vá.
Manuel levantou a chavena de chá fraquinho, trincando uma torrada com queijo, e viajou nas lembranças do tempo em que, ao pequeno-almoço, o chá era forte e doce, com bolos acabados de fazer.
Entrou a vizinha. Sorriso aprovadíssimo:
Então, como estão vocês hoje?
A esta idade, o que se pode responder? gracejou Manuel.
Se tens ânimo para piadas, estás bem. Precisas de alguma coisa das compras?
Ivone, trás-me carne de frango pediu ele.
Só pode ser frango, é o recomendado.
Está bem, depois faço-vos uma canja com massas, como gostam.
A vizinha limpou a mesa, lavou a loiça e saiu.
Leonor, vamos para a varanda apanhar sol sugeriu o marido.
Vamos lá!
Minutos depois, Ivone apareceu na varanda.
O sol faz-lhes bem, não é?
Aqui é perfeito, Ivone agradeceu Leonor.
Já vos trago a papa de aveia e vou começar a preparar a canja para o almoço.
Manuel olhou para ela enquanto saía:
Que boa mulher que seria de nós sem ela?
E tu só lhe dás dois mil euros por mês!
Leonor, deixámos-lhe o apartamento.
Ela nem faz ideia.
Ficaram sentados ao sol até à hora do almoço. E para o almoço, canja de galinha, deliciosa, com pedaços de carne e batatas esmagadas.
Era assim que fazia canja para a Maria e o Miguel, quando eram pequenos Leonor suspirou ao recordar.
Agora, são estranhos que nos cozinham murmurou Manuel, magoado.
Talvez, meu Manuel, esse seja o nosso destino. Um dia partiremos e ninguém há-de chorar por nós.
Leonor, chega de tristeza. Vamos descansar um pouco.
Manuel, é verdade o que se diz:
“Velhos e crianças são iguais.”
Sopa passada, sesta, lanche à tarde. A rotina repete-se.
Manuel adormeceu, mas logo acordou, inquieto. O tempo mudava? Entrou na cozinha. Sobre a mesa, dois copos de sumo preparados por Ivone.
Pegou neles e, cuidadosamente, levou-os ao quarto da esposa. Ela olhava pela janela, absorta.
Leonor, estás triste? sorriu ele. Bebe o teu sumo.
Ela bebeu um pequeno gole.
Também não consegues dormir?
O tempo está pesado.
Desde manhã ando assim Sinto que já me resta pouco tempo, Manuel. Se eu partir primeiro, cuida de mim com carinho.
Como podes dizer uma coisa dessas? Como vou viver sem ti?
Um de nós vai primeiro, é a vida.
Não digas isso! Vamos apanhar ar à varanda.
Lá ficaram até ao entardecer. Ivone trouxe queijadas. Comeram e sentaram-se a ver televisão. Todos os serões assistiam juntos, mas agora os filmes novos já nem acompanhavam. Preferiam ver antigas comédias, ou desenhos animados.
Aquela noite só um desenho animado viram. Leonor ergueu-se do sofá:
Vou para a cama. Sinto-me exausta.
Eu também vou.
Deixa-me olhar-te bem! pediu ela de repente.
Para quê?
Só quero olhar.
Fixaram-se um no outro, talvez recordando a juventude em que tudo ainda estava por viver.
Anda, acompanho-te ao quarto.
Leonor deu o braço ao marido e avançaram devagarinho.
Ele aconchegou-a nos cobertores e saiu.
O coração doía-lhe. Não conseguia dormir.
Sentiu que não pregara olho, mas o visor marcava duas da manhã. Levantou-se e foi ao quarto da esposa.
Estava de olhos abertos:
Leonor!
Agarrou-lhe a mão.
Leonor, fala comigo! Le-o-nor!
De repente, faltou-lhe o ar. Cambaleou até ao seu quarto, deixou sobre a mesa os documentos preparados.
Voltou ao lado dela, ficou longos minutos a contemplar-lhe o rosto. Deitou-se junto, fechou os olhos.
Sonhou com a sua Leonor, jovem e bonita, como há setenta e cinco anos. Ela avançava para uma luz distante. Ele correu e segurou-lhe a mão.
De manhã, Ivone entrou no quarto. Encontrou-os lado a lado, os rostos tranquilos, sorrindo em paz.
Chorando, ligou para o INEM.
O médico chegou, olhou-os e abanou a cabeça.
Foram juntos. Devem ter-se amado muito
Levaram-nos. Ivone ficou sentada à mesa, esgotada. Só então viu os documentos e o testamento em seu nome.
Deixou cair a cabeça nos braços e chorou, desolada…







