Motociclista reencontra filha desaparecida após 31 anos, mas é ela quem o prende… Ela coloca-lhe as algemas, ele olha para a sua placa de identificação… E então, o pai não aguenta e diz uma frase que me deixou verdadeiramente emocionado…

A Estrada Nacional 125 numa tarde tardia parecia suspensa dentro de um silêncio espesso aquele silêncio quase dourado antes do sol se deixar afundar atrás das alfarrobeiras do sul. O céu brilhava com um âmbar quente, e a longa faixa de asfalto serpentava diante de Sebastião Andrade, um velho conhecido para cada curva. O ronco sereno da mota acompanhava-o há anos como se fosse o único som com poder de afastar os fantasmas adormecidos do passado.

De repente, luzes cortaram a realidade no retrovisor.

Vermelho. Azul. Intermitentes e teimosas impossíveis de ignorar.

Sebastião encostou na berma e desligou o motor. Respirou fundo; já adivinhava o motivo. O farolim traseiro. Outra vez. Tencionava consertá-lo de manhã, mas o tempo escorreu por entre os dedos. Uns hábitos mudam com a idade, outros são filhos da solidão que só os longos caminhos conhecem.

Acostumado à estrada mas nunca a encontros que fazem o coração saltar para fora do peito.

Sentou-se sem tirar o capacete, mãos no volante. Das pedras irregulares, aproximavam-se passos firmes, sensatos, profissionais.

Boa tarde, senhor.

A voz era tranquila. Feminina. Jovem, mas resoluta.

Sabe por que o mandei parar? perguntou a agente.

Sebastião abanou a cabeça devagar.

Suponho que seja por causa do farolim, murmurou, com a rouquidão de quem andou anos ao vento.

Exatamente. Por favor, os seus documentos.

Procurou devagar no bolso interno do blusão. Os dedos trémulos. Passou-lhe os papéis, só então levantando os olhos.

Ali dentro, algo estalou, todo aquele instante parou.

A agente estava a pouco mais de um palmo dele. O uniforme certinho, a postura estudada. O crachá baixava banhado pelos últimos raios solares. No dístico lia-se: Agente Leonor Cardoso.

Leonor.

O nome acertou-lhe mais fundo do que sirenes.

O peito apertou, a respiração engrenada. Podia jurar que era só imaginação, que as saudades nos traem com coincidências impossíveis. Mas o olhar não queria desviar-se.

Tinha os olhos da avó inconfundíveis: fundos, atentos, com a mesma doçura rarefeita que só se deixava mostrar quando pensava não ser observada.

E, logo abaixo da orelha esquerda, disfarçada se não fosse sabido onde olhar, a mesma pequena marca em forma de meia-lua.

Aquele olhar.
Aqueles gestos, quase parentes, antigos.

E o sinal que Sebastião procurava há muitos anos.

As pernas fraquejaram. Por instantes, estrada, mota e carro patrulha deslizaram para além dos contornos do consciente.

Trinta e um anos.

Trinta e um anos à procura deste pequeno sinal.

A agente leu de novo os documentos:

Sebastião Andrade Esta é a sua morada atual?

Sim, menina, respondeu por instinto.

Já quase ninguém lhe chamava pelo nome completo. Com os anos e as voltas, amigos e estranhos optaram pelo apelido: Sombra aparece, some-se, nunca por tempo bastante para criar raízes.

O rosto dela nada traía. Natural se a mãe desaparecera e mudara nomes, se a menina crescera com outro apelido, por que haveria Leonor de sentir fosse o que fosse ao ouvir “Andrade”?

E, contudo, Sebastião reconhecia gestos: o modo como apoiava o peso num só pé, a forma delicada de ajeitar o cabelo, a concentração minuciosa a percorrer papéis. Viu tais gestos em tempos atrás, numa menina sentada no chão entre lápis de cera desordenados.

Senhor, devolveu-o à estrada a voz dela. Preciso que saia da mota.

O tom era educado mas profissional: ali mandava o dever, não o passado.

Assentiu e desceu com lentidão. As articulações protestavam, mas não lhes ligou. A cabeça era agora uma confusão de memórias, a bater forte como o vento que sopra contra um muro de pedra.

Recordou a diminuta mão que segurava o seu dedo, promessas sussurradas ao ouvido: «Eu vou encontrar-te. Sempre.»

E a filha bebé nos braços, as promessas noturnas. E aquele dia sem regresso quando regressou a casa e encontrou só vazio. Nada de cartas, nada de rastos. Só a ausência, imóvel, como uma casa desabitada.

Procurou-a: papéis, chamadas, rumores soltos, conversas com estranhos. Depois, os fios perderam-se. A vida seguiu porque tem de se seguir. Só que a busca jamais acabou por dentro.

Por favor, coloque as mãos atrás das costas, anunciou Leonor Cardoso.

As palavras demoraram a assentar. Depois, o frio do metal nos pulsos.

Imóvel.

Ela fechava as algemas sem brusquidão tranquila, como manda o serviço.

Tem uma coima por pagar, há ordem para a levar à esquadra. explicou, imparcial.

Uma multa. Coisa pouca, talvez nem a soubesse existida. Ali, parecia irrelevante.

O importante era o surreal: a filha desaparecida diante dele cumprindo a função sem imaginar quem era ele.

Ela recuou um passo, prendeu-o no olhar. Por um instante, um traço de desalinho atravessou-lhe o rosto curiosidade, dúvida, talvez o inexplicável sabor do familiar.

Sebastião via nela tudo o que procurou e perdeu.
Para ela, era um estranho com qualquer coisa de inquietante.

Agente Cardoso, murmurou Sebastião.

Ela tornou-se vigilante, mas respondeu:

Sim?

Posso só fazer uma pergunta?

Pausou. Depois, acenou que sim. Rápido.

Alguma vez perguntou a si mesma de onde vem a pequena cicatriz sobre a sua sobrancelha?

A mão dela apertou mais firme na corrente das algemas.

Como disse, senhor?

Tinha três anos, prosseguiu, com ternura. Caiu de um triciclo vermelho no pátio. Chorou uns minutos e logo pediu um gelado, como se nada fosse.

O ar ficou mais denso.

Os olhos dela abriram-se pouco, só o suficiente para Sebastião perceber: acertara em cheio.

Como sabe disso? voz já sem tanta segurança.

Ao longe, um ou outro carro, mas tudo soava remoto, como de outra vida. O sol baixava ainda, arrastando sombras sobre o alcatrão.

Sebastião engoliu em seco.

Porque eu estava lá, disse. Fui eu que a levantei e levei para casa.

Ela fitava-o, tentando casar o que via com o que ouvia. Lá dentro, desalinho e algo mais fundo, difícil de arrumar em caixas.

Naquele breve instante, duas vidas que andaram lado a lado, sem se tocarem, colidiram. E para ambos começava agora uma estrada que nunca tinham pisado.

Um simples controlo na estrada se tornou, de um golpe surreal, num reencontro impossível. Sebastião ganhou uma oportunidade de tocar as respostas, Leonor de sentir, talvez pela primeira vez, que também lhe faltava um capítulo. O que se segue deixará de depender das sirenes e dos relatórios, mas da verdade que ali ficou a um passo maior do que a própria estrada.

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Motociclista reencontra filha desaparecida após 31 anos, mas é ela quem o prende… Ela coloca-lhe as algemas, ele olha para a sua placa de identificação… E então, o pai não aguenta e diz uma frase que me deixou verdadeiramente emocionado…