Morava aqui perto, na nossa aldeia junto ao rio, uma rapariga chamada Leonor. Discreta, reservada, quase passava despercebida. Sabem como é – há pessoas que mal se notam, como se estivessem e não estivessem. Olhar sempre no chão, trança fina, cabelo loiro-acinzentado, lenço antigo na cabeça. Trabalhava nos CTT, a separar cartas e a entregar reformas aos vizinhos.

Na nossa aldeia vizinha, Vila Salgueiral, mesmo à beira do rio, havia uma rapariga só. Chamava-se Eugénia. Discreta, apagada. Sabem, há pessoas assim parece que estão, mas quase ninguém repara nelas. Olhos sempre no chão, trança fina, loiro-cinzento, lenço velho a tapar-lhe a cabeça. Trabalhava nos Correios, a separar cartas e a entregar reformas.

Ninguém ligava à Eugénia. Os rapazes cá da terra, esses, são como galos: gostam de raparigas alegres, faladoras, com voz alta e jeito arrojado. Mas a Eugénia…

Naquela Primavera, meteram um novo mecânico na cooperativa agrícola. Chama-se António. Alto, largo de ombros, cabelo preto como o carvão, olhar malandro. E ainda por cima tocador de acordeão. Quando se punha a tocar à porta do salão, à tardinha, todos os corações das raparigas batiam mais forte. Até o da Eugénia. A ponto de quase lhe turvar o juízo.

Mas que esperança teria ela, pálida e simples, com um rapaz assim? À volta do António dançavam as mais bonitas, qual lianas em volta de um tronco forte, e ela só de longe os espreitava, suspirando tão fundo que até me doía vê-la.

Malta, foi então que coisas estranhas começaram a acontecer na aldeia.

A Eugénia começou a receber cartas. Viam da cidade. Os envelopes lindos, papel grosso, letra larga, firme, claramente de homem. Como trabalhava nos Correios, era a primeira a vê-las, mas segredo nenhum se esconde na aldeia a chefe dos Correios, tia Nazaré, mulher de língua afiada, logo espalhou:

A nossa Eugénia arranjou namoro! Um citadino e escreve-lhe quase todos os dias! Aposto que vai pedir-lhe em casamento!

A Eugénia andava misteriosa, as faces vermelhas, os olhos brilhantes. Até ficou mais bonita. Endireitou as costas e entrelaçou a trança com uma fita de cetim. Caminhava pela rua com o envelope na mão, como quem carrega uma medalha.

O António reparou nela. Começou a olhar-lhe de longe para perto. Os homens são assim: quando percebem que aquela mulher faz falta a alguém, logo se interessam mais.

A pobre Eugénia afundava-se cada vez mais naquele feitiço. Sentava-se nos degraus dos Correios a ler as cartas, sorrindo para os seus segredos. E toda a aldeia sussurrava: Vê lá se não tem sorte, a feiota

A reviravolta veio como uma trovoada em pleno céu azul. E foi terrível.

Era festa, muita gente à porta do salão. Tocava acordeão, a juventude dançava. Eugénia apareceu, linda, num vestido novo de chita, mala a tiracolo.

Chegaram lá os irmãos Bastos, já tocados do vinho, decidiram brincar, puxaram-lhe a bolsa. A alça era velha e rasgou-se. A mala caiu no chão, abriu-se, espalhando tudo o que era dela, inclusive o maço das tais cartas, atado com uma fita.

O mais novo dos Bastos, Manuel, apanhou o maço e gritou:

Eh, pessoal, vamos lá ver o que o namorado da capital escreve à nossa santinha!

A Eugénia atirou-se para ele, branca como cal.

Não faças isso! Dá-me!

Mas o Manuel era ágil, esquivou-se, tirou uma carta do envelope e começou a ler em voz alta, claro, para todo o largo ouvir.

Minha querida Eugénia! Os teus olhos, quais lagos profundos

O povo calou-se a ouvir. Era bonita a carta. Mas depois o Manuel ficou confuso, rodou o papel, tirou outro da pilha um, todo riscado e escrito de um lado ao outro. Levou-o à luz do candeeiro da porta, semicerrando os olhos.

Ó pessoal! Esperem lá! Olhem para isto!

Abanou o papel acima da cabeça:

Está tudo riscado! Primeiro escreve: Olá, minha doce Eugénia, depois corta com força e por baixo: Olá, amor meu. E volta a riscar! Isto é uma espécie de rascunho! Ela escrevia e corrigia, para ficar mais bonito! Inventava tudo!

Começou ali uma risota tamanha que parecia o vento a varrer as folhas dos salgueiros.

Anda a escrever cartas a si mesma!

Que gracinha! Arranjou noivo inventado!

A Eugénia ficou no meio daquele círculo, as mãos na cara, os ombros a tremer. Que vergonha, vontade de desaparecer dali para fora. Eu, novinha, fiquei sem saber o que fazer.

De repente, a música calou-se.

O António, que estava sentado no alpendre com o acordeão, pousou o instrumento. Levantou-se, desceu devagar. O povo abriu caminho no rosto dele via-se um peso, tão sério como pedra.

Aproximou-se do Manuel. Sem dizer palavra, tirou-lhe as cartas da mão. O Manuel nem reagiu, ficou só com a cara vazia.

O António recolheu os envelopes do chão, sacudiu o pó. Aproximou-se da Eugénia. Ela continuava de cara tapada.

Com cuidado, tomou-a pelo braço, mas firme, e falou alto, para todos ouvirem:

Que gozam, hein? Nunca viram gente de verdade?

Depois voltou-se para ela, e murmurou baixinho:

Anda, Eugénia. Deixa que te acompanhe a casa. Já é noite.

E lá foram. Atravessaram a multidão, agora silenciosa e estranhamente envergonhada. Ele seguia direito, cabeça levantada, uma das mãos na mala e a outra no braço dela.

Desde esse dia, nasceu ali alguma coisa entre eles. Não logo, claro. A Eugénia demorou a olhar as pessoas nos olhos. Mas o António não desistiu. Ia buscá-la todos os dias, acompanhava-a ao trabalho. Meio ano depois casaram-se.

Viveram como um só coração. O António era um companheiro de corpo e alma. A Eugénia ganhou coragem, tornou-se uma senhora cheia de vida, deu-lhe três filhos. E nunca, nunca mais ninguém na aldeia mencionou aquela noite. Bastava o António olhar para os mexeriqueiros, que as línguas colavam ao céu-da-boca.

Passaram muitos anos. O António partiu há três, coração fraco. A Eugénia, coitada, ficou tão sozinha, murchou sem ele. Vou visitá-la muitas vezes, medir-lhe a tensão e beber um chá.

Um dia, estávamos na casa dela, chuva no telhado, o lume a estalar. A Eugénia mexia nas gavetas do velho aparador. Tirou um baú pequeno, todo trabalhado o António fizera-o para ela.

Abre a caixa, e ali dentro as tais cartas. Amarelas, nos envelopes antigos.

Ouve, Rita, diz-me ela, com voz trêmula. Sempre pensei que ele tivesse deitado fora estas cartas. Ou queimado. Tive muita vergonha de as pedir. Passei a vida a carregar esta mentira.

Pegou o envelope de cima, e em baixo uma folha de papel quadriculado, branca ainda, escrita há pouco, talvez um mês antes dele morrer.

A Eugénia pôs os óculos, leu, as lágrimas a correrem pelas rugas.

Estendeu-me: Lê tu, Rita. Os meus olhos já não aguentam.

Li, decifrei a letra atabalhoada:

Eugéniazinha, encontrei a caixa, fui mudar de sítio. Perdoa-me, velha tola, por nunca ter falado disso. Vi sempre o quanto te pesava aquela noite, e não quis fazer-te sofrer mais. Agora penso que devia ter falado, para te aliviar o coração. Logo nessa noite percebi que foste tu a escrever, conhecia a letra dos recibos. E sabes porque não zombei? Porque me doeu o peito todo. Pensei: quanta solidão tem alguém para criar palavras de amor para si própria? E como pôde ninguém ver tamanha alma? Ainda bem que escreveste, Eugénia. Se não fosse isso, talvez nunca tivesse aberto os olhos para a minha felicidade. Tu sempre foste a mais bela do mundo para mim. Teu António.

Ali ficámos, a chorar como crianças. Cheirava a chá de camomila, a maçãs secas e àquela tristeza doce de quem conheceu o amor maior daqueles que quase já não se vê.

Assim é, meus queridos. Ela mentiu por desespero, só queria ser vista. Ele viu não a mentira, mas a dor escondida. E aqueceu-lhe o coração para a vida toda.

Agora olho para aquela caixa e penso: não julguem quem faz disparates por amor. Quem sabe quanta sede de carinho leva alguém a isso?

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