Morava aqui perto, na nossa aldeia de Olival, mesmo junto ao rio, uma rapariga sozinha. Era a Beatriz. Muito discreta, quase não dava por ela. Sabem como é, há pessoas assim – estão ali, mas parece que não estão. Olhar sempre no chão, trança fininha, castanho-acinzentada, lenço velho na cabeça. Trabalhava nos CTT, a separar cartas e a entregar reformas.

Lá na nossa aldeia de Freixieiro, mesmo colada ao rio Minho, vivia uma rapariga Benedita. Tímida, quase invisível. Sabem essas pessoas que parecem estar e não estar? Os olhos sempre postos no chão, uma trança fininha, cor de trigo com cinza, lenço puído atado à cabeça. Trabalhava nos Correios, a separar cartas e a distribuir as reformas pelos velhotes.

E ninguém olhava realmente para a Benedita. Os moços da aldeia, eles gostavam era de alegria barulhenta, raparigas espevitadas, riso aberto como sinos e olhos que piscassem sol. Mas a Benedita

Naquela primavera chegou ao nosso lagar um mecânico novo, Álvaro. Alto, peito largo, cabelo preto como azeviche e um brilho de esperteza no olhar. E para além disso, tocava concertina. Mal se punha à porta do salão da coletividade e mergulhava o fole, os corações das raparigas saltavam. E o da Benedita também. Tão forte lhe bateu, que lhe embaçou até a razão.

Mas que podia ela, discreta e cinzenta, frente a um galo assim? À volta dele era só flores e sorrisos dourados, enquanto a Benedita ficava à distância, suspirando até fazer doer o peito de quem a via.

Foi então, queridos meus, que as coisas começaram a ficar estranhas por Freixieiro.

Começaram a chegar cartas à Benedita. Vindas de Lisboa. Sobrescritos bonitos, papel robusto, escrita larga, segura, de homem. Como ela própria trabalhava nos Correios, era sempre a primeira a vê-los; mas segredo em terra pequena é como areia na peneira a Rosária, a nossa chefe dos Correios, língua afiada que só vista, logo espalhou:

Então a Benedita anda em namoro! Da cidade, ainda por cima! Qualquer dia já a levam daí para casar!

A Benedita andava misteriosa, bochechas coradas, olhos brilhantes. Até parecia mais formosa; endireitou as costas, atou uma fita de cetim à trança. Caminhava pela praça com a carta nas mãos como quem leva um troféu.

E o Álvaro começou a reparar. Homem que é homem, basta ver a atenção de outro para achar também graça. Foi aí que a Benedita, pobre, foi mergulhando mais fundo nesse poço. Ficava sentada no degrau dos Correios, lendo as cartas, sorrindo para dentro. Os habitantes da aldeia sussurravam: Olha a sortuda!

Até que um dia caiu sobre nós um vendaval, naquele fim de tarde claro de festa.

Era festa de São João, a povoação cheia. Tocava-se concertina, a juventude dançava. A Benedita apareceu, fina, de vestido novo, mala a tiracolo, sorriso por trás das mãos. Foram então dois irmãos marotos, os Sotero, já com vinho a mais, meter-se com ela. Puxaram-lhe a mala, o fecho rebentou, caiu tudo em cascata e lá vieram as cartas, atadas por fita.

O mais velho, João, agarrou o molho, riu alto:

Ora vamos ler o que escreve o lisboeta à nossa santinha!

A Benedita, branca como cal, agarrou-se à mala:

Deixa! Dá cá isso!

Mas onde é que ela o apanhava. O João, matreiro, desdobrou uma carta e começou a recitar, alto e claro:

«Minha Beneditinha! Os teus olhos são lagos limpos…»

O povo calou-se a escutar. Palavras bonitas, doces, toda a gente a suspirar. Mas o João tropeçou na leitura, achou uma folha amachucada, rabiscada de alto a baixo. Chegou-a à luz pendurada na entrada da coletividade:

Eh, pessoal! Isto é de morrer a rir!

Sacudiu o papel no ar:

Aqui está tudo riscado! Primeiro escreveu: «Querida Benedita» e depois cortou. Por baixo: «Meu amor», outra vez riscado! Isto é rascunho, pessoal! Ela própria escreveu, apagou, tentou outra vez! É conversa consigo mesma!

A gargalhada que veio depois abanou até as videiras nos muros.

Namora com o espelho!
Inventou um pretendente!

E a Benedita ali ficou, meio ajoelhada, com a cara enterrada nas mãos, trémula, engolindo o nó da vergonha. Era daquelas vergonhas que fazem querer varrer-se dali para o outro lado do Douro. Tive pena, não soube ajudar, só abri e fechei a boca à procura do que dizer.

E então, tudo parou. O fole calou.

O Álvaro, que estava no topo das escadas, pousou a concertina. Desceu devagar, rosto duro como granito. A gente abriu-lhe caminho havia ali peso no passo dele.

Foi direto ao João, agarrou as cartas, sem uma palavra. Nem o outro piou, limpou logo o sorriso dos lábios.

O Álvaro recolheu os sobrescritos, tirou o pó. Aproximou-se da Benedita. Ela tremia, as mãos ainda na cara.

Então ele pegou-lhe no braço, delicado mas firme, e anunciou para todos ouvirem:

Que risota é essa, machos? Nunca viram gente?

Virou-se para ela, baixinho:

Anda, Benedita. Deixa-te conduzir. Está já a anoitecer.

E lá seguiram, devagarinho, atravessando a multidão que ficou calada, desconfortável, cada um a coçar a vergonha pelo que fez. Ele, com a mala dela numa mão, as cartas seguras, a outra a ampará-la pelo cotovelo.

Daí, na verdade, nasceu tudo. Não logo ela continuou com medo, olhos no chão. Mas o Álvaro não a largou, ia buscá-la ao trabalho, sentava-se ao seu lado à missa. Casaram passados seis meses.

Viveram felizes, partilhando tristeza e alegria. O Álvaro cuidou dela como o maior tesouro. A Benedita floresceu, tornou-se senhora da casa, deu-lhe três rapazes. E nunca ninguém tornou a mencionar a história das cartas. O Álvaro sabia olhar de maneira a colar as línguas dos mexeriqueiros ao céu da boca.

Passaram muitos anos. O Álvaro foi-se há três anos coração, de repente. A Benedita, Dona Benedita agora, foi ficando cada vez mais pequenina sem ele. Visito-a, às vezes, medimos a tensão e tomamos chá de erva-luísa.

Numa dessas tardes, em Outubro, chuva a fustigar o telhado, o lume a estalar, a Benedita vai ao velho aparador e saca de uma caixa de madeira, entalhada por mão de homem o Álvaro, quando eram namorados.

Abre e lá dentro as tais cartas. Amareladas, trémulas, nos envelopes gastos.

Sabes, Laurinda diz-me ela, voz a tremer pensei que ele as tinha deitado fora. Sempre me envergonhei tanto daquele disparate, nunca lhe perguntei. Passei a vida com vergonha.

Tira do fundo um papel quadriculado, branco e limpo, parecia ainda cheirar a tinta. Devia ter pouco tempo.

Põe os óculos, tenta ler; as lágrimas correm-lhe pelas rugas.

Lê, Laurinda, que já não vejo nada.

Eu pego, leio com dificuldade aquela letra grande e torta:

«Minha Benedita.
Apanhei esta caixa e guardei-a outra vez. Perdoa o velho burro, sempre calado. Vi como te doía aquela vergonha, não quis reabrir ferida. Mas agora vejo devia ter-te dito há anos, para te aliviar o peito. Naquele dia percebi logo que eras tu mesma a escrever. Reconheci o teu traço, conhecia-te de ver nos recibos dos Correios. Sabes porque nunca te ri? Porque me partiu o coração imaginar que só uma alma mesmo só inventa palavras para si. E quão cegos fomos, todos, para não ver tua bondade. Obrigado por aquelas cartas, Benedita. Sem elas, nunca tinha reparado na minha sorte. Para mim, sempre foste a mulher mais bonita da aldeia. Teu Álvaro.»

Ficámos ali, a chorar abraçadas, com cheiro a chá, maçã seca e uma tristeza doce, antiga, como já pouco se encontra.

É assim, minhas queridas: ela mentiu porque doía ser esquecida. Ele viu não a mentira, mas a ferida por trás. E aqueceu-a. Por toda a vida.

Olho agora para a caixa talhada e penso: não julguem depressa quem faz disparates por amor. Ninguém sabe que fome de ternura empurra cada um.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Morava aqui perto, na nossa aldeia de Olival, mesmo junto ao rio, uma rapariga sozinha. Era a Beatriz. Muito discreta, quase não dava por ela. Sabem como é, há pessoas assim – estão ali, mas parece que não estão. Olhar sempre no chão, trança fininha, castanho-acinzentada, lenço velho na cabeça. Trabalhava nos CTT, a separar cartas e a entregar reformas.