Marido tentou proibir a esposa de ter um filho

Dez anos de casamento achas muito ou pouco? Pois é, é esse o tempo que a Beatriz esteve com o Ricardo. Toda a gente dizia que eram o casal perfeito, mas depois a Bea engravidou.

Eles conheceram-se logo depois de acabarem a universidade. Nem tiveram um namoro muito longo bastaram uns meses, mudaram-se juntos para Lisboa e casaram-se. O Ricardo sempre deixou bem claro: não queria ter filhos. Durante anos, a Bea tomou a pílula, mas um dia aquilo falhou. Quando viu as duas risquinhas no teste de gravidez, congelou.

Não fazia ideia como havia de contar ao marido. Primeiro, sem dizer nada, foi sozinha ao ginecologista, fez todos os exames e uma ecografia, só para se assegurar de que o bebé estava bem. Só depois disso é que criou coragem para contar ao Ricardo. E ele ficou logo possesso. A Bea nunca o tinha visto tão furioso. Mandou-a abortar, sem rodeios, e disse-lhe logo na cara: se ela não o fizesse, pedia o divórcio.

A Bea, de coração apertado, mas firme, escolheu ter o filho. No dia seguinte, o Ricardo fez as malas e foi-se embora. Ela achava que ele tinha ido para casa dos pais ou ficado num hotel qualquer em Cascais, mas na verdade estava rondar e vigiar todos os passos dela. Esteve até à porta do consultório na ecografia e ouviu que não vinha só um, mas dois bebés. No hospital de Santa Maria, depois do parto, marcou uma conversa com os médicos e foi ver os gémeos. Admitiu que não teve coragem de entrar no quarto da Bea.

Um dia, uma enfermeira contou à Beatriz que o marido ia visitar os filhos em segredo. Ela ficou tranquila, mas manteve-se reservada. Até que o Ricardo apareceu em casa e desabafou:

Bea, desculpa. Preciso mesmo de te explicar. Eu era um puto de três anos quando fiquei só com a minha mãe. Ela estava grávida na altura, mas isso não impediu o meu pai de se ir embora. O parto foi demasiado cedo, foi horrível a minha mãe morreu. Cresci sozinho os meus irmãos gémeos também morreram, no dia seguinte à nossa mãe. Eu jurei a mim mesmo que nunca ia ser pai, nunca à custa disso.

A Bea chorou e abraçou o Ricardo com força. Só lhe apetecia protegê-lo daqueles fantasmas tristes. Reconciliaram-se, como se fosse natural, e voltaram a viver juntos. Mas agora já não eram só dois passaram a quatro.

Os anos foram passando, e o Ricardo e a Beatriz continuavam apaixonados, quase adolescentes, daqueles casais que toda a gente inveja. E a única coisa que faltava mesmo para completarem a felicidade deles eram os dois filhos gémeos.

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