Maria chorava junto ao túmulo da sua amiga Olena. Já se passaram quarenta dias e ainda não há uma única flor sobre a campa…

Mariazinha chorava baixinho junto à campa da sua amiga Leonor. Já lá iam quarenta dias, e nem uma florzinha no túmulo Suspirou, endireitou-se e foi para casa, tão devagar como se esperasse que o tempo parasse. A certa altura, um senhor aproximou-se dela.

Quer uma boleia? perguntou ele, sorrindo. Isto até à paragem ainda é uma caminhada. Vamos lá, não custa nada. Quem ficou aí?

Uma amiga disse, meio entre dentes.

A minha mãe respondeu o homem, quase num sussurro.

E para onde quer ir? perguntou ele, com gentileza.

Basta deixar-me na paragem, não se incomode.

Olhe que tenho o dia livre, levo-a até onde quiser. Nem pense nisso retorquiu ele, com ar decidido.

Ele deixou-a mesmo à porta do prédio. Pelo caminho, Mariazinha acabou por desabafar sobre o seu dia a dia Dois dias depois, o tal senhor, Paulo, já estava à espera de Mariazinha, à entrada do prédio, com assunto insolito

***

A amizade entre Mariazinha e Leonor vinha do tempo em que ainda brincavam ao berlinde no jardim de infância da aldeia.

Quando cresceram, iam vestidas iguais e até trocavam roupa parecia que estavam sempre em liquidação permanente.

Durante o secundário, inseparáveis. Depois, foram estudar juntas para o Porto. Mariazinha para Medicina, Leonor para Professora.

Encontros semanais, chás e meias de leite pela Baixa. Apaixonaram-se ao mesmo tempo.

Mariazinha por um rapaz de aldeia, Leonor por um citadino de sotaque afinado.

Leonor casou assim num instante, como quem tinha medo que o partido lhe fugisse por entre os dedos.

Ao fim de um ano, já era mãe de uma menina. Só que os sogros não digeriram bem a escolha do filho: esperavam outra classe para a nora.

Às vezes, Mariazinha ficava com a filha de Leonor para os jovens pais passearem ela também queria sair, mas era daquelas que promete e cumpre. Ficava sempre.

Uma noite, o jovem casal saiu e nunca mais voltou. Só na manhã seguinte, Mariazinha soube: acidente de carro, fim na berma de uma estrada qualquer…

Do funeral lembra-se pouco. Só do peso da criança ao colo e do vazio. E agora?

Os sogros recusaram aceitar a neta. Se já ignoravam em vida, na morte nem se fala não é da nossa família.

A mãe de Leonor, já sozinha, com mais três filhos pequenos, pouco podia fazer.

Restava o colégio de acolhimento. A menina tinha acabado de fazer um ano.

Mariazinha já não sabia viver sem a pequenina. Os primeiros passos, as primeiras palavras tudo com ela.

Entretanto, trabalhava num hospital e arrendava um quarto a uma avó sozinha a Dona Efigénia no centro do Porto.

Mas quem é que lhe ia confiar uma criança? Solteira, sem família a ajudar

Foi inevitável. Levaram a menina para o lar. Era saudável, depressa lhe arranjariam novos pais.

Mariazinha chorava banhos de lágrimas pela pequena Inês.

Ó Miguel, preciso de te propor uma coisa disse um dia ao namorado de então. Casa comigo, sim? Eu sozinha não consigo ficar com a menina

O quê?! Nem penses! Não vou meter-me nisso! indignou-se ele.

Só quero mesmo adotar a Inês. Depois podes ir à tua vida, dou-te o divórcio

Não, estragava-me a vida! Procura outro pateta qualquer!

Assim foi. Chorou mais um bocado no cemitério, junto da Leonor. Quarenta dias e nem uma flor.

Já o túmulo do marido de Leonor estava tapadinho de flores, parecia final da primavera.

Leonorzinha, prometo que a tua filha vai ter tudo o que merece, só preciso de uma mãozinha aqui de cima!

No regresso, à saída do cemitério dos Prazeres, encontrou Paulo.

Quer boleia? Isto até à paragem é um inferno nas pernas. Eu não me importo, nem tenho mais nada. E quem ficou ali? Desculpe intrometer-me.

Amiga

A minha mãe Já percebeu, não é? E vai para onde?

Basta soltar-me na paragem, não gosto de incomodar.

Olhe que estou sozinho. Mãe já cá não está, mulher também se foi Estava a chorar! Aconteceu algo grave? Lembro-me de a ver no funeral há dias. Era o casal, não era? Quarenta dias hoje?

Sim.

Também é o dia da minha mãe Posso perguntar qual é a sua preocupação?

Mariazinha contou-lhe tudo no caminho.

Pronto, já chegámos. Obrigada por me ouvir e dar boleia…

Dois dias depois, Paulo esperava-a no prédio com uma proposta inesperada.

***

Assim que a viu:

Mariazinha, tenho pensado. Estou disponível. Caso consigo já amanhã, se for preciso!

Ela ficou plantada no chão, a olhar para ele:

E não tem medo?

Medo de quê?

O meu namorado fugiu só porque lhe pedi para assinar uns papéis para adoptar a pequena.

Eu ajudo. Mas diz-me onde vais viver com a miúda.

Se a Dona Efigénia não me correr porta fora, fico ali. Se não, arranjo outra casa.

Então nada disso. Vem morar comigo. Amanhã começamos o processo. Rápido e sem mas. Tenho casa grande, sobra espaço para todos.

Ela engasgou-se:

Casa?! Mesmo uma casa, casa?

Claro. A minha mãe sempre quis uma casa, estávamos fartos de apartamento.

Também não gosto de prédios. Sempre vivi na aldeia…

Em poucos dias, Paulo tratou de tudo. Casaram em segredo, adoptaram a Inês oficialmente, e a família mudou-se para a vivenda do Paulo.

Obrigada. Agora faço o resto sozinha.

Fica à vontade. A casa é toda vossa. Estou por perto, mas não me meto.

Talvez fosse melhor eu arranjar um T1, vivermos nós as duas

Mulher minha viver noutra casa? Nem pensar. Vai-se habituando.

Paulo nunca forçou nada, mas estava sempre por perto seja a levar o caixote do lixo à rua, seja a montar móveis do IKEA, seja a dar papas à Inês. Mariazinha fazia tudo por ela própria, mas, sem dar por isso, foi-se apaixonando.

Mãe, porque é que gostas de mim? perguntou Inês, já mais crescida.

Porque tu és tu. És minha filha, só por isso já adoro!

Mariazinha agradecia todos os dias ao Paulo. O homem tratava delas como família de verdade, sempre bem-disposto, até a Inês chamava-lhe papá.

Paulo via nela a mulher perfeita, só que aquele casamento era só para inglês ver

Um dia achou que já era hora de mudar isso. Ao terceiro aniversário da Inês, ajoelhou-se e pediu Mariazinha em casamento.

Mas já somos casados

Pois, mas quero ser família a sério.

Também quero!

E foi assim que se tornaram uma família de verdade, com duas datas de casamento com dois anos de diferença.

Hoje, a Inês tem um irmão e uma irmã mais novos.

Esta história começou há muitos anos. Todos os filhos já são adultos. Inês sabe onde estão os pais biológicos.

Agora, as campas estão sempre floridas. Maria e Paulo continuam a ser os pais de verdade daquela pequena.

Hoje, Inês já é avó. Maria e Paulo, uns bisavós orgulhosos. Uma família grande e feliz, cheia de surpresas e flores nos lugares certos!

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Maria chorava junto ao túmulo da sua amiga Olena. Já se passaram quarenta dias e ainda não há uma única flor sobre a campa…