Lina era má. Muito má, coitada, de tão má que era a Lina. Todos tentavam convencer a mulher de que e…

Celina era má.
Muito má, coitada dela, de tão má que era a Celina.
Toda a gente tentava fazer perceber à mulher que ela era mesmo má.
Má, e ainda por cima infeliz.
Claro, não tem marido, o filho já crescido, vive sozinho agora.
Celina está só, ninguém lhe liga.
Na segunda-feira apareceu no trabalho, todas se vangloriavam do que tinham feito durante o fim de semana umas esfregaram a casa de cima a baixo, outras cuidaram do quintal, outras tantas andaram a fazer compotas.
E a Celina calada, pois o que podia ela dizer? Não tem homem, o filho já cresceu, vida vazia, lá ficou calada, quase como se se escondesse atrás de um pano de pó.
Saiu mais cedo do trabalho, como faz duas vezes por mês, já todas sabem balançam a cabeça com o olhar reprovador, pois sabem bem onde ela vai: encontrar-se com os amantes que toda a gente lhe atribui.
A certeza é de pedra: Celina tem montes de amantes, claro que sim, sendo ela tão má.
Celina é mesmo muito má.
Elas, essas sim, excelentes mulheres, casadas e ocupadas com os seus deveres; Celina, a ovelha negra.
Celina, diz-lhe a mãe, porque és tu assim, minha filha?
Assim como, mãe?
Desarranjadinha, sem ninho… Bem podias arranjar um homem, olha que não te fazia nenhum mal, filha.
Ainda vais a tempo de ter outro filho, há tantas mulheres agora a terem filhos depois dos quarenta.
Mas mãe, para quê um homem qualquer? E outro filho dum qualquer desses homens? Olha, mãe, o meu António chega-me e sobra-me. E esse tal homem, para quê? E o que é que eu fazia com ele? Eu já tenho o Duarte.
Celina! a mãe exclama, aflita, O Duarte não é teu homem!
Como não, mãe? Claro que sim, é meu sim senhor, ri-se Celina, convida-me para jantar uma vez por semana, traz-me prendas, ajuda-me a pagar férias, não me chateia com problemas, não me manda limpar as vidraças ou lavar-lhe cuecas, não me exige jantar feito nem se estica no sofá a entupir-me a sala.
Bênção dos céus.
Bênção… para a pobre da mulher dele, toda essa bênção!
Queres tu que fosse eu a levar com isso tudo? Olha, dispenso. Tenho quarenta e poucos anos, mãe, já fui casada duas vezes, lembra-te duas! Fugi da tal felicidade a correr, quase sem sapatos.
O meu primeiro marido, o pai do António se não te esqueceste tu mesma empurraste-me para o casamento logo aos dezoito, porque era mais velho, mais sério, mais responsável, dizia que me adorava, e tinha bons rendimentos, não era?
Foram cinco anos. Cinco anos enclausurada: não podia estudar, não podia sair com as amigas, nem tomar conta do António podia bem és nova, vais fazer asneira, olha menina, só trabalhinho para o marido e para a sogra.
Ah, claro, cobriam-me de ouro, pois claro.
E depois fazia-me sair de casa como um bichinho bem domado, uma vez por mês, para mostrar a todos: olhem ali, minha esposa jovem aqui, veja como é correta, não como as vossas bonecas.
Ele, claro, desforrava-se nas tais bonecas sempre que podia
E quando fugi, e pedi o divórcio, foi graças à avó, que me ajudou. Ele queria tudo de volta, até as cuecas
A segunda vez foi por amor, lembras-te, mãe? Estudava de dia, sonhando recuperar tudo o que não tive, e trabalhava à noite para não pesar em ti e no pai
Celina! Como dizes isso? Alguma vez eu te neguei comida, ou carinho, a ti ou ao neto?
Tu não, mãe… Mas havia quem não fosse tu. Havia quem temesse que eu me sentasse ao teu colo forte e lá ficasse de vez, com o filho a reboque.
De quem falas tu?
Do pai, mãe. E do mano Gregório. Um a fazer muito pouco da vida, para quê esforçar-se havendo a mãe sempre pronta. Tu, a arranjares tempo entre dois trabalhos, apanhaste o comboio para cuidar dos teus filhotes; um sempre no sofá, outro ao computador
Cozinhas, limpas, lavas
Por amor, mergulhei eu no segundo casamento. Sem amor já tinha vivido antes.
Mudou-me alguma coisa?
Nem por isso. Trabalhos e preocupações a dobrar.
Celina: era Angelica, virou Celina Todos-Devem-lhe-Alguma-Coisa.
Marido no sofá, Celina a trabalhar fora, a correr para o infantário, porque o filho é meu nem penses em chatear o homem, não é do sangue dele, e, mesmo que fosse, trabalho de mulher, homem cansa-se.
Vim a correr das compras, sacos, criança, nunca tive carro, para quê? O marido precisava mais, não ia ele apanhar autocarro para trabalhar! Todas as mulheres vivem assim, estás cansada de quê? E o jantar, quem faz?
Tratei de tudo jantar, roupa lavada e passada, e ainda me pediam para amimar o marido, porque senão, vê lá, ia-se embora, coitadinho
Faltava dinheiro? Então o teu filho é que sofre. Se ele fosse meu, meu próprio herdeiro, talvez mexesse um dedo. Senão, paciência vai arranjar outro pateta que aguente contigo e o teu rebento.
Pois, a mim não me arranjam assim tão facilmente
O carro era meu, mas dinheiro para o arranjar não dava eu! Ele já disse: somos uma família!.
Comparava tudo olha o que tu ganhas a fazer tão pouco, e eu tanto que faço.
Vê lá tu a sorte.
Dizes que vais embora?
Anda, vai, com filho e tudo ninguém te quer, ahah.
Foi assim, mãe, casei com quem ganhava mais do que eu e com quem ganhava menos foi igual.
Toda a gente ficou satisfeita, menos eu.
Celina, toda a gente aguenta assim, filha.
Pois mãe, podem continuar… Eu não vou, não quero.
O que fizeste ao sábado então?
Olha, o Gregório com a Teresa, largaram cá a Leonor e o Vasco para irem fazer as deles, fui passear com os miúdos, fiz umas panquecas, limpei um bocado, aspirei, lavei o chão, pus roupa a lavar, à noite deitei os pequenos, dei de jantar ao teu pai, passei a ferro, depois fui eu para a cama quase à uma.
De manhã os miúdos acordaram cedo, ainda queriam panquecas avó faz panquecas, fiz, depois o Gregório e a Teresa voltaram e então assei um frango, fiz saladas, pizzas, jantámos, limpei, caí para o lado no sofá às onze da noite. O teu pai acordou-me de noite para ir para a cama
Mãe, achas que eu me lembro de te largar o António assim? Nunca te enfiei o meu filho a correr porta fora, pois não?
Tu sempre foste despachada, não davas trabalho
E sabes o que fiz eu no outro fim de semana? Olha, o António ligou-me à sexta, se eu podia ficar com o Tobias uns dias, queriam ir ao Gerês.
Claro que fiquei, e porquê não?
O Tobias, mãe, é o gato da Mariana, namorada do António, talvez se te desses menos ao Gregório e à família… Enfim, deixaram-me o gato e trouxeram pizza.
Enfardei pizza à noite, preguiçosamente a devorar séries, sem pressas não tinha que acordar com as galinhas no sábado.
Acordei, dei de comer ao Tobias, fiz café para mim, limpei o pó, pus roupa na máquina, até te liguei, queria convidar-te para irmos ao museu ou tomar café.
O pai atendeu, disseste que tinhas as mãos molhadas, ele tratou logo de me chamar desocupada, que a mãe anda de roda dos sobrinhos e eu, feito madama, a passear por museus.
Ia ficar ofendida, mas depois deixei, para quê? Ele tem sempre razão
Fui ao museu estava lá a exposição do teu pintor favorito, lembro-me quanto gostavas dele.
Fui sentar-me num café, fui às lojas, lembrei-me do Tobias, voltei para casa, dormia que era um regalo.
Mais tarde, já não me apetecia sair, estendi-me no sofá, vi mais uma série.
Domingo dormi até às onze com o Tobias, tentei ligar para irmos no cacilheiro no Tejo, mas atendeu a Teresa com a boca cheia tu ocupada certamente a lavar loiça ou a arrumar mesa.
O Duarte ligou à noite a convidar-me para jantar fora, fui, por que havia de recusar?
Sou livre, e não lhe faço perguntas, nem lhe suporto problemas, nem ele a mim.
Foi um serão ótimo, dormi feliz, segunda acordei descansada e fui trabalhar leve.
Tentei ter encontros com solteiros, mãe.
Um horror.
Ou então aparecem miúdos à procura de mãe, ou divorciados com vários filhos e histórias tristes de guerra.
Olhas-me assim, mãe? É o mundo mudou.
Um deles veio logo com as condições: tinha de aceitar os filhos dele, claro, pois todas as mulheres têm amor inato a crianças, qualquer criança.
E tinha de sustentar os filhos e pagar à ex-mulher, porque é sempre a mãe dos filhos.
E viveríamos do meu ordenado, ele ficava com o resto para o hobby pesca.
Em pagamento, traria peixe fresco para me dar de comer.
Quando lhe perguntei se ajudava o meu filho, ficou ofendido o António tem pai, não?.
Faz sentido, não faz? Pois, exatamente. Por isso foi recusado. O António tem pai e tem mãe: eu.
Agora sou má, egoísta, mesquinha, ladina Queria pendurar o meu filho nas costas de um santo homem e viver descansada!
Por isso, mãe, apareceu o Duarte.
Pois é, sou má aos olhos de vocês todos, mas olha que eu não tenho vergonha.
Fico triste, isso sim, por seres tu a viver assim, por isso tento arrancar-te de casa, como hoje até menti que precisava de ajuda, para te afastar um bocadinho do fogão e do Gregório.
Mãe, eu estou bem, mas agora vamos cuidar de nós, descansar, estar juntas, só tu e eu.
Tu estás louca, Celina, e o teu pai?
Que tem o pai? Está doente?
Não, mas… o almoço
Não acredito que tu não deixaste já o almoço feito.
Tem que se aquecer, e depois, o Gregório
Mãe! Já me estou a magoar, juro Sei que sou má, mas deixa-me ser boa por um dia, vamos lá passear, mãe por favor
Na segunda-feira, as colegas partilhavam histórias de como descansaram a trabalhar no fim de semana.
Celina sorria de lado, com aquele sorriso maroto todos sabem bem que ela é má, e ela passa no corredor de andar dançado com aquele sorriso de quem sabe algo só do seu sonho.
Toda a gente sabe, claro, os pensamentos que se fazem dentro da Celina só podem ser mausÀ saída, Celina e a mãe apanharam sol nos ombros e riram-se, sem homens nem panelas nem culpas por perto. A manhã pareceu-lhes vasta e luminosa, o rio ali ao lado quase azul de tão limpo. Celina apertou o braço da mãe e, baixinho, murmurou:

Somos más, mãe. Más, porque queremos viver.

A mãe, a custo, deixou escapar um sorriso cansado, e por fim aceitou o braço da filha. Caminharam para longe das vozes e das obrigações, e nesse instante só nesse Celina soube, com uma alegria serena, que ser má afinal era a melhor coisa do mundo.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Lina era má. Muito má, coitada, de tão má que era a Lina. Todos tentavam convencer a mulher de que e…