LIDINHA
Manuel Vasconcelos olhou com desagrado para as calças e para a camisa amarrotadas que tinha tirado do armário, acabando por atirá-las impacientemente para cima da cadeira. Como é que se pode ir a lado nenhum vestido assim?! As calças, coitadas, já não conheciam vincos, brilhavam de tão gastas e, para piorar, desde que perdera uns bons cinco quilos, pendiam-lhe do corpo como um saco. A camisa, outrora azul, ganhara uma cor indefinida, os punhos estavam desfiados e o colarinho, desmilinguido uma vergonha! A Lidinha nunca o deixaria sair nem à mercearia da aldeia assim vestido E ele agora ia à universidade, lecionar para senhores professores.
Nunca ligara muito à roupa, mas sempre parecera composto e elegante, quase até vaidoso. Nada disto agora! Antes, nem reparava quando Lidinha lhe punha camisas novas no armário, arranjava fatos, casacos, gravatas, boinas ou sapatos. Era só meter a mão no roupeiro ou dizer à Lidinha que amanhã precisava de estar bem vestido… Ai, Lidinha, Lidinha, que partida me pregaste! Quem diria que acabarias por me trair assim? E pensava-se ainda tão nova, quase dez anos mais jovem, nunca um grande achaque, e agora, de repente Desta última vez, uma ligeira febre durante três dias, uma tosse irritante… Só foi ao médico para tratar do boletim de saúde, antes de começar o ano letivo na escola, senão tinha-se ficado pelas mezinhas dela.
Foi ao centro de saúde da freguesia com as outras professoras; deveria ser só para despachar o papel, mas dali saiu direta para o hospital e tudo se precipitou como um pesadelo. No fim do ano, já cá não estava. O Manuel sabia, de cabeça, que não era culpa da clínica, mas passou a odiá-la como se tivesse sido ela a roubar-lha. Parecia-lhe coisa de criança, mas, se tudo começou ali, também ali estava a raiz do desgosto.
Conheceram-se quando ele dava, nos tempos de mestrado, aulas de Cálculo Integral aos caloiros da Faculdade de Ciências em Lisboa, e Lidinha, estudante de primeiro ano, fazia parte da turma. Nunca lhe tinham agradado raparigas discretas preferia as vistosas, decididas, meio espalhafatosas. Mas ela uma menina, com bochechas encarnadas pelo frio, sardas vivas até em fevereiro e uns dedinhos pequeninos, roídos e manchados de tinta. E foi por esses dedos que Manuel se deixou conquistar.
Achou tanta graça que, num ápice, já a acompanhava até casa, passou a visitar a avó dela e até fazer folares na cozinha dos pais, e depois disso só lhe restava casar. Quarenta anos passaram assim: Lidinha duplicou de tamanho, cortou as tranças, passou a fumar dois maços por dia e chegou a ser diretora-adjunta de uma boa escola de matemática, mas para Manuel, os dedos eram sempre os de menina, e o coração, esse, não suportava outra presença.
A verdade é que não viveram um conto de fadas. Ao longo de quarenta anos, nem tudo foi pacífico: Manuel teve os seus deslizes, alguns insignificantes, dois bastante graves que o levaram até a sair de casa. Já Lidinha também não lhe ficou atrás; durante três anos, encontrava-se às escondidas com o diretor de uma fábrica que apadrinhava a escola dela. Entre tempestades, foram as duas filhas que mantiveram o barco de pé.
Também a justiça parecia faltar: de início, uma vida de quase-mendigos, a sobreviver num minúsculo apartamento; depois, a azáfama com as miúdas música, ballet, ginástica, escolas artísticas e mil doenças infantis. Agora, tinham uma casa enorme; as filhas seguiam vidas feitas, mostravam os netos só em ocasiões especiais e Lidinha resolveu partir sem avisar, sem uma linha de instruções para ele saber navegar.
Tão desprevenido estava Manuel, que só se deu conta do que lhe tinha acontecido semanas depois. No próprio funeral, comportou-se como se fosse uma celebração, e muitos dos presentes observaram que, se calhar, não sentira grande dor. Mas enganavam-se Só percebeu tudo quando a primavera chegou. E foi aí que descambou: caiu num torpor profundo, emagreceu mais ainda, e estar em casa sozinho era insuportável.
Juntar-se às filhas? Impossível: uma andava pelo mundo, ora a proteger golfinhos, ora a seguir bandos de aves; a outra, enterrada na vida doméstica e na filha, e o pai não cabia nos seus planos. Manuel passou então a visitar amigos visitas que eram mais uma penitência: chegava cedo, comia avidamente, adormecia na cadeira e sentava-se em silêncio, à espera que o momento de ir para casa fosse socialmente aceitável, para amanhã repetir tudo.
Em casa, não cozinhava. Durante os quarenta anos ao lado de Lidinha, fora o chef de serviço Agora, sozinho, perdia a vontade. Envelheceu visivelmente, perdeu o viço, e os amigos entenderam que precisavam de o empurrar para uma nova vida. Urgia, diziam, arranjar-lhe companhia.
E foi assim que hoje, mais uma vez, ia ao teatro com uma tal D. Ana Constança. Em tempos, ainda ia ao teatro com Lidinha, só mesmo por causa dela. Para si, tudo aquilo era fingimento e aborrecimento, raramente se impressionava. Lidinha, essa, vivia cada espetáculo, guardava programas, e ainda depois lhe contava e recontava o que tinham visto juntos. E ele, só por a ver assim, nunca lhe recusava nada.
Agora, os amigos assumiam um papel de protetores e arrastavam-no para peças de teatro ao lado de senhoras que mal conhecia, caminhando devagar pelo empedrado húmido, trôpego dentro dos sapatos de domingo, três horas sentado em cadeiras empoeiradas, sufocando com perfumes alheios, sonhando sempre poder voltar para casa e enterrar o rosto na almofada que ele jurava ainda cheirar a Lidinha, ou talvez fosse só imaginação. Mas não queria magoar os amigos, e ia. Sabia, no fundo, que não era possível continuar eternamente sozinho, embora não conseguisse perceber para quê.
Nesse dia, Ana Constança, até era simpática e parecia mais nova do que Manuel imaginara. Tinha dezasseis anos a menos, era baixa, elegante, bem cuidada, conversadora e esclarecida. Ante ela, Manuel sentiu-se um velho cansado, mas a simpatia dela era evidente e a conversa fluía, já a pensar em próximos programas.
O espetáculo foi aceitável, pelo menos curto e sem intervalo. Depois, o costume seria um café para rematar, mas a sorte correu-lhe melhor: Ana confessou que vivia ali perto, tinha preparado um assado e um bolo, e ficaria feliz se ele aceitasse jantar em sua casa. Manuel ansiava tanto por um ambiente caseiro que nem fingiu recusar e aceitou com alegria.
Ana sabia receber: a casa, pequenina e arranjada, cheirava a canela e baunilha, e a dona, de fato de treino novo, parecia ainda mais jovem. Pôs-se a magicar à volta dos tachos, serviu-lhe iguarias feitas por ela e a conversa corria sem cerimónias. Manuel chegou a pensar que seria bom ficar ali para sempre, esquecer as noites de solidão e começar uma vida nova, leve, sem recordações pesadas.
Já era muito tarde quando voltou a casa, mas agora estava combinado: no dia seguinte iriam juntos visitar uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, depois comprariam roupa nova para ele e, no sábado, haveria almoço caseiro em casa de Ana. Ela até sugeriu ir à casa de campo no domingo, mas a filha pedira-lhe que buscasse a neta na escola e, por isso, o almoço com a neta ficou marcado para sábado.
No sábado, Manuel começou por ir à barbearia; saiu de lá rejuvenescido, vestiu a camisa nova e uns jeans de bombazina escura, comprou flores e um chocolate para a neta de Ana e dirigiu-se à casa dela. Já no prédio, o cheiro do pato assado e de doçaria invadiu-o de tal maneira que se apanhou a trautear uma música e a sorrir para o espelho do elevador antigo.
Ana recebeu-o com um calor que há muito não sentia e levou-o diretamente para a cozinha. E a tua neta? perguntou Manuel. Já a chamo, está amuada, não queria sair do quarto, ficou na cama, respondeu Ana.
Manuel põe as flores na jarra, abre a garrafa de vinho, corta pão e senta-se à mesa. Manuel Vasconcelos, conheça a minha neta, Lidinha! E então viu dois olhos límpidos, bochechas rosadas e sardas espalhadas pelo nariz. Lidinha olhava-o com desconfiança, mordiscando nervosamente o dedo polegar.
Que não me falte agora o ânimo, pensou Manuel Vasconcelos antes de sair para o corredor…







