Já não aguento mais! Tudo o que faço está errado para ti Como como, como me visto Nada te agrada! gritei, a voz já rouca de tanto discutir.
Tu não sabes fazer nada! Nem dinheiro a sério consegues ganhar! Aqui em casa nunca ajudas com nada soluçava Filipa, e filhos, nem vê-los murmurou quase sem se ouvir.
Bolacha, a nossa gata branca e ruiva, com já uns dez anos, deitada em cima do guarda-fatos, assistia calada a mais uma tragédia lá de casa. Sabia e sentia que eu e Filipa gostávamos muito um do outro Por isso não percebia porque dizíamos coisas tão amargas, que nos magoavam a todos.
A Filipa, lavada em lágrimas, correu para o quarto, e eu fiquei a fumar cigarro atrás de cigarro na sala.
A Bolacha, percebendo que estávamos por um fio, pensou: Tem de haver felicidade nesta casa e a felicidade são crianças tenho de arranjar crianças para cá. Ela própria não podia ter filhos já fora esterilizada há muitos anos, e a Filipa, os médicos diziam que podia, mas nunca acontecia.
Na manhã seguinte, assim que saímos para o trabalho, Bolacha saiu pela janela pela primeira vez e foi visitar a vizinha Patanisca para conversar.
Para que é que querem filhos?! resmungou Patanisca, Olha cá em casa, os mais pequenos só fazem asneiras sujam-me o focinho com batom, apertam-me tanto que até fico sem ar!
Bolacha suspirou: Nós queremos crianças a sério Mas onde conseguir?
Hmmm Olha, a Fofinha da rua teve uma ninhada cinco, se quiseres podes escolher disse Patanisca, pensativa.
Bolacha, arriscando-se, saltou de varanda em varanda até chegar à rua. Nervosa, enfiou-se entre as grades do rés-do-chão e chamou em voz baixa:
Fofinha, podes vir cá um instante?
Lá do fundo da cave, ouviram-se miados aflitos.
Cuidadosa e a olhar para todo o lado, Bolacha rastejou até lá. No chão, entre pedras, deparou-se com cinco gatinhos recém-nascidos, todos diferentes, a esfregarem os narizes no ar e a chamarem pela mãe. Ao cheirá-los, percebeu que Fofinha não estava por perto há dias pelo menos três e os pequenos estavam a morrer de fome
Quase a chorar, Bolacha pegou, com todo o cuidado, em cada gatinho e os levou até à entrada do prédio.
Lá ficou deitada ao lado deles, tentando aquietar o grupo que miava de fome, sempre de olho no final da rua dali devíamos aparecer eu e Filipa, de regresso do trabalho.
Sem uma palavra, eu e Filipa vimos a nossa gata Bolacha estendida ao pé do portão, coisa nunca vista, rodeada por cinco gatinhos que tentavam mamar nela.
Mas o que é isto!? perguntei, perplexo.
É um milagre murmurou Filipa. Pegámos na Bolacha e nos gatinhos e corremos para casa.
Enquanto observávamos a Bolacha ronronar baixinho, rodeada pela ninhada improvisada dentro de uma caixa, perguntei:
E agora, o que fazemos com eles?
Eu trato deles, alimento-os com biberão Quando crescerem, arranjamos família para todos falo com as amigas respondeu a Filipa, em voz baixa.
Três meses depois, Filipa, ainda surpreendida com tudo, acariciava a pequena matilha felina e repetia, como que para si própria: Isto não acontece todos os dias não acontece mesmo
Depois vieram as lágrimas de alegria, rodámos pela casa aos risos, eu levantei-a nos braços, e falámos ao mesmo tempo, um sem deixar o outro terminar
Construir esta casa valeu a pena!
Agora sim, espaço para os miúdos brincarem ao ar livre!
E os gatinhos podem correr aqui?
Claro, há espaço para todos!
Amo-te!
E eu adoro-te ainda mais!
A Bolacha, sábia, limpou uma lágrima com a pata afinal, a vida pode mesmo recomeçar, basta nunca perder a esperança.







