23 de março
– Oh, Matildinha! Vieste mesmo na hora certa! Já nem sei o que fazer!
Matilde pousou o saco pesado das compras no banco do jardim e suspirou.
– O que se passa, senhora Verónica?
Calma, Matilde! Lembra-te: educação e mais educação. É assim que se lida com os idosos! Mesmo os mais complicados.
E sobre a fama de Verónica Matias em todo o bairro, não há quem não conheça. Procurar alguém mais polémico seria um desperdício de tempo.
Porque senhora?
Porque as discussões de Verónica eram sempre carregadas de polidez, mas tinha o dom de levar qualquer um ao desespero.
– Querida, não está propriamente certa.
– Não sou sua querida!
– Que desgraça! No meu tempo ser amável era virtude, agora… Enfim, geração perdida! Mas, por favor, apanhe o que o seu cão deixou por aqui.
– E se não apanhar?
– Então, minha cara, todo o bairro vai saber de si!
Quem levava estas ameaças à ligeira e achava que eram só palavras, logo aprendia pela prática: Verónica não brincava. No dia seguinte, os faltosos já estavam na sua tabela da vergonha.
Chamava assim a tudo quanto era poste, árvore ou quadros de anúncios públicos onde colava folhas impressas, com fotos do infrator e sempre a mesma frase: Destas pessoas não nos orgulhamos!. Seguia-se a descrição da má ação a que tinham sido apanhados. E assim iam recados pela vila numa quantidade tal que o vizinho, que lhe ensinara a mexer na impressora, já se sentia responsável. Papel não faltava; com boa reforma e ajuda dos filhos, Verónica comprava aos montes. E já que considerava missão manter a ordem nas ruas, as pequenas multas que por vezes apanhava em tribunal em nada a amedrontavam. Aparecia em cada sessão com um sorriso cortes e pedia desculpas pelo incómodo. Já ninguém a via como um insecto chato, mas antes como inevitável: uns achavam-na castigo, outros achavam-na um bem.
Por vezes até lhe agradeciam. Como daquela vez em que, graças à sua insistência, canalizaram toda a rede de águas pluviais do bairro. Foram dez anos de luta e enfrentamento de burocratas, mas saiu vitoriosa e deixou de ser vista apenas como uma velha refilona. Quem tinha carro, já não andava a navegar na água depois de cada chuvada, cumprimentava a correr a senhora Verónica com o pensamento: “Será que um dia apareço eu nos papelinhos dela?” Cada um fazia o seu exame de consciência.
Recebiam recado dela donos de cães, mães distraídas a quem uma esplanada e uma imperial interessavam mais do que as crianças, pais que fugiam às responsabilidades, bebedolas ruidosos ou discretos, gente que não sabia viver em comunidade e achava que o mundo era só deles.
Havia muitos descontentes, claro. Uma noite, Verónica acabou encostada num beco, ao voltar de casa da irmã adoentada. Bateram-lhe um pouco, mas depressa alguém assustou os agressores. Aquilo só a motivou: Se chegara a aborrecer tanto, é porque estava no caminho certo!
Os hematomas passaram, mas a perna ficou torta e a dor lembrava-lhe a mudança do tempo.
– Mas ao menos sei quando pegar no guarda-chuva! Vê lá se não é uma maravilha!
Os culpados foram rapidamente apanhados e castigados. Afinal, no tribunal toda a gente já conhecia Verónica Matias.
Fez-se de relações úteis: três polícias de bairro e um investigador, a quem recorria quando sozinha não chegava.
– Ó Zézinho, és-me tão necessário! ligava Verónica ao polícia.
E o Zézinho, bigode farto e ar assustador, já não era só vizinho, era também admirador. Afinal, esta mulher franzina, brava mas sempre educada, conquistara em poucos meses toda a família de Zé inclusive a mãe, a quem Zé sempre temera. E tudo porque Verónica foi a única que lhe explicou:
– Minha senhora, de ir todos os dias à casa do rapaz, não tira proveito nem ele nem a senhora.
– Eu sou uma mãe extraordinária!
– Não duvido! Mas se tão bem educou o seu filho, já não precisa enxugar-lhe o nariz! Deus me livre que homem feito continue com ranhos de criança!
A partir daí, as visitas maternas rarearam e a família de Zé respirou de alívio. O nível de gratidão a Verónica nem se mede.
Matilde, assistente social há alguns anos, conhecia bem as histórias de Verónica e dos seus contactos. Por isso, estranhou tanto vê-la chorar no banco da entrada.
– Porque está a chorar?
– Matildinha… a tua protegida, a dona Graça…
– O que foi?! Matilde olhou as janelas familiares.
– O Zé lá está agora. A Graça já cá não está…
Matilde sentou-se atordoada, quase falhando o banco.
Que dia!
Logo de manhã uma rotura deixou água a jorrar junto de casa e os miúdos chegaram atrasados à escola. Depois, uma discussão acesa com o marido. Amos Sávio, que Matilde amava e apreciava como raros são: não bebe, não fuma, adora os filhos, trabalha bem… Dizem as amigas, já nem há homens assim! Mas Matilde é quem vive com ele. Às vezes perde a cabeça, como hoje, e nem o problema era grande coisa. A lâmpada do corredor, a tal que pedira desde segunda-feira… Devia tê-la trocado ela. Foi só teimosia.
A idade, talvez? Só a estupidez mesmo! Para quê zangar-se por tão pouco? Tanta chatice à toa. Uma pessoa está cá hoje e amanhã… desaparece.
Ontem mesmo, dona Graça pediu ração, hoje…
Matilde chorou, primeiro em soluços, depois aos gritos, sem conseguir controlar-se.
– Ó querida… Não fique assim! Tome, limpe-se!
O lenço alvo caiu-lhe nas mãos; ainda ensopado, Matilde achou-o igualzinho ao que Graça lhe dera no Natal.
– Para si, Matildinha! Pequena lembrança e eterna gratidão!
– Que maravilha, isto é bordado?
– É sim, com as suas iniciais.
– Tão bonito! É pecado usá-lo como lenço!
– É só um lenço, lamento não poder dar-lhe coisa mais valiosa. Bem sabe o dinheiro que se tem.
– A minha avó sempre dizia: o melhor presente é quando alguém se lembra de nós.
– Mulher sábia. Ainda está viva?
– Já não. Perdi todos os meus.
– Que pena! Mas veja, não lamentei por ter família. Isso é sorte! Eu, nem marido, nem filhos… E com muitos familiares que sempre me quiseram regular a vida. Irmãs, irmão, tios, pais… Todos cheios de boas intenções, mas acabei sozinha. Ora não gostavam das minhas escolhas, ora achavam-me incapaz… Acabei só.
– Mas isso…
– Não, não me culpo só aos outros. Mas veja, Matilde… A solidão é terrível! O ser humano foi feito para viver em comunidade. Eu, se não fossem os meus gatos, já nem sabia porque vivia. Só estou cá a gastar oxigénio, já me disseram.
– Está a falar de si?
– De mim mesma. E para minha família sobrava-me um papel: dar a minha casa a uma sobrinha que ia para a universidade. Disseram-me: A senhora vai viver com a irmã, mas não por muito, porque já lhe reservaram lugar num lar. Entende?
– Não entendo, nem quero entender! Os familiares servem para apoiar, não para decidir por nós!
– Achei justo dividir a casa entre os sobrinhos. Pelo menos isso seria igual. Mas imagine os gatos Eles até já se preparavam para os mandar para o lixo, quem precisa destas coisas?.
– Não, senhora! Isso não vai acontecer!
– Tu não os conheces…
– Nem quero. Olhe, sabe o que mais?
– O quê?
– Deixe-me os seus gatos em testamento!
– Mas como?
– Ora, gatos são bens! Deixe-os para mim. Se lhe acontecer algo, ficam comigo, em segurança! Façamos um bem por testamento. Eles merecem!
– Ó Matilde, és um anjo! Que ideia surpreendente! Mas é um fardo…
– Qual fardo! Como é que dizem? Casa sem gato, é casa triste. dizia Matilde enquanto se defendia dos miados de Vasco e das mordidinhas de Tó.
O Vasco já era velho companheiro de Graça, Tó chegara mais recentemente, recolhido por Verónica à porta do supermercado:
– Graça, tu é que sabes destas coisas! Eu tenho alergia, mas não posso deixar esta criaturinha! Vê bem, tão pequeno…
– Só por ser o último, Verónica. Já tenho o Vasco, que também foi oferta. Mas outro não consigo aguentar.
E assim o Tó ficou. Só que, semanas antes da reviravolta, Graça percebeu: Tó não era bem Tó.
– Então, Tó, que fizeste? observava os gatinhos que Tó deixara na cama dela. Ou será antes, Tózinha?… Que lindas crias!
O Vasco mostrou, afinal, instintos paternais irrepreensíveis, para espanto de todos.
Quando Matilde ia à casa de Graça, via o ninho da família felina e ria:
– Tanta ciência, e não conseguimos distinguir um gato fêmea de um macho! Como não deu conta da barriga da Tózinha?
– Achei-a só gordinha! Mas o que faço agora com os filhotes?
– Não se preocupe, ajudo-lhe. O meu quintal ainda tem espaço. Se necessário, a Verónica ajuda-nos!
E agora, que Matilde recordou isto, levantou-se apressada do banco.
– E os bichanos? Estão sem comer…
Matilde levou a sua herança nesse mesmo dia. O Zé não reclamou, ajudou a trazer a cesta e ainda lhe pediu:
– Guarda-me um gatinho. Os miúdos já pedem há muito, e a minha mãe nunca quis animais lá em casa. Agora pode ser…
– Escolhe o teu. Matilde mostrou a ninhada.
– Aquele ali, alaranjado.
– Assim que crescer, é teu!
– Obrigado!
– Ajudar agora com… papelada. Os familiares apareceram?
– Claro! Disseram que não têm tempo, oriente-se.
Matilde quase deixou cair a cesta. Mas que desfeita!
– Não deixo que assim fique! Tomo conta de tudo. Para mim, a dona Graça não era indiferente.
– Ora, conhecia-a há pouco…
– Engana-se! Foram cinco anos de amizade. Às vezes basta um dia para se ganhar um amigo, e uma vida inteira não basta para se afeiçoar à família. Não deixarei que a dona Graça fique sem um funeral digno!
O Zé sorriu, tocou-lhe no ombro:
– Agora fez-me lembrar a dona Verónica. Mas não se preocupe, eu ajudo.
– Obrigada… Matilde agradeceu, já menos tensa.
Fechou a cancela e ficou um pouco no caminho a ver o jardim. A casa, herdada dos pais, servia gerações, abrigava, unia. Matilde não entendia como se podia não amar quem nos rodeia, esquecer velhos e crianças…
Subiu à varanda, abriu a porta e quase voltou a chorar.
Era cheiro de bolo, barulho das crianças na cozinha. Sávio veio a correr.
– Matilde, que cara é essa? Olha, já troquei a lâmpada e arranjei a torneira! As tuas tulipas vão agradecer, vais regá-las à vontade. Não chores, vá!
– Não choro… e cada vez mais chorava, mas agora entre risos.
– O que trazes aí? Sávio pegou na cesta. Bem pesada isto…
– Os gatos abraçou-se ao marido.
– Como é?
– Vê os meninos correram, gritos de alegria, e Sávio teve de lhes ralhar.
– Calma, querem assustar os gatinhos?
Os gatos adaptaram-se depressa. O Vasco chegou a caçar ratos no quintal, presenteando a nova dona. Mas nunca esqueceu Graça; Verónica via-o, por vezes, empoleirado num plátano defronte à casa antiga, miando em silêncio pela sua velha amiga. Os vizinhos sabiam que era saudade.
Às vezes ficava minutos, outras, horas. Voltava tarde para casa, Matilde resmungava:
– Noitadas hoje? Eu amanhã trabalho!
Vasco, em agradecimento, roçava-lhe nas pernas, rondava a casa, inspeccionava crianças e Sávio, e só então se enrolava ao pé da Tózinha para dormir.
Graça teve funeral digníssimo. Matilde ficou impressionada com as pessoas que vieram despedir-se.
– Quem são estes?
– Alunos. Foram muitos anos de explicações. Preparou-os para a universidade, ganhava bem, até perder a visão. Mas a lembrança dela ficou. Era uma grande pessoa
– Eu sei
Nove dias. Quarenta
Matilde madrugava para abrir a porta ao gato, reflectia sobre o tempo, sobre a vida que passa Já percebia porque os nervos estavam de rastos, porque o enjoo matinal. Guardava segredo, mas essa esperança enchia-lhe a vida.
Via a Tózinha, acariciava os filhotes, sussurrava:
– Em breve serei também mãe outra vez Assusta, dá receio, tantos anos a olhar só pelos meus Será que me lembro como é?
A gata ronronava tão alto que até Vasco vinha espreitar. Matilde sorria.
– Estou bem rodeada, conseguiremos superar!
No dia em que ia contar ao marido a novidade, o impensável.
Vasco não aparecia há dois dias. Inédito. Matilde temeu. Foi a casa de Graça, questionou Verónica e Zé, nada.
– Vai dormir, Matilde. Ele aparece!
– Não consigo, vai chover! E se apanha frio?
– Os gatos voltam sempre. Com fome, aparecem!
– Quando voltar é só para não mais sair! Fico aflita
Adormeceu no sofá, sem dar conta de Vasco regressar.
Mas não voltou normalmente. Ficou à porta, a miar tão alto que nem parecia real. Mas a casa era enorme, paredes grossas, e o frio obrigou a fechar tudo. Só Tózinha sentiu, levantou a cabeça e, ouvindo o miado, despertou de vez. Saltou da cama, correu para Matilde e arranhou-lhe a perna.
– Ai! Que te deu, Tózinha?
Subitamente desperta, Matilde ouviu os miados, sentiu cheiro de fumo.
– Sávio! Meninos! Fogo!
Pegou no filho pequeno, empurrou o mais velho para Sávio, agarrou a cesta dos gatos.
Foram os vizinhos que chamaram os bombeiros. Chegaram a tempo de evitar o pior. Enquanto os bombeiros trabalhavam, Vasco trouxe Tózinha, juntando toda a família felina aos donos.
– Pronto! Podem regressar! O cheiro vai incomodar, mas a casa está sã! Acordaram mesmo a tempo!
Matilde, a apertar a gata ao peito:
– Obrigada
As crianças puderam agradecer aos bombeiros, Sávio abraçou a mulher.
– E então? Estás bem?
– Sim
– Mesmo? pousou a mão na barriga de Matilde, que corou.
– Sabes!?
– Claro que sim, mulher! Somos três já, quase quatro! Conhecemo-nos, não? Esses nervos, esse enjoo
– Tenho medo
– Disparate! Tens-me a mim, os miúdos, gatos a rodos! Conseguimos vencer tudo, e a casa ficou salva!
– É verdade.
Matilde entregou a gata ao marido, gatos às crianças, e, antes de entrar, olhou o céu.
– Obrigada, dona Graça, pelo seu bem Obrigada.
Hoje percebo que o bem fica. Por mais que custe, é dando e ajudando que encontramos família, mesmo onde parecia não haver. E são os gestos simples, como acolher um animal ou ouvir um velho, que fazem o mundo rodar para melhor.







