Gatinho gelado com carinha peculiar surge à porta de supermercado em busca de ajuda

Um gatinho enregelado, de carinha nada simpática, surgiu certo dia à porta do pequeno supermercado do bairro, em Sintra. Parecia ter vindo sozinho, ou quem sabe alguém o tivesse largado ali, mas a triste realidade era evidente nos seus olhos. Miúdo, frágil, encolhia as patas pequeninas, tremendo de frio e humidade, enquanto tentava encontrar algum abrigo naquela noite chuvosa. O seu miado lânguido, miaaau, ecoava na calçada, mas ninguém parecia comovido: o focinho estava cheio de crostas, os olhos semi-cerrados, o pelo nas orelhas e no pescoço quase desaparecera. Era uma imagem de partir o coração.

Os funcionários do supermercado, gente de bom coração, começaram a deixar o gato entrar para se aquecer junto à zona das arcas frigoríficas. Aplicaram-lhe umas gotinhas contra os parasitas, já que os recursos eram poucos, mas infelizmente, a sua situação parecia não melhorar. Todos os dias, à hora certa, o pobre gato regressava ao supermercado, teimando em aproximar-se dos clientes e procurando o calor de um colo humano.

Com a chegada do inverno, as noites frias de novembro apertavam. Já a tremer com uns míseros -5 graus, aquele ser tão pequeno não iria resistir a um dezembro com temperaturas que facilmente chegam aos -10 ou -15 em algumas terras altas. A dona Odete, uma das funcionárias, lembrou-se de que, no verão passado, tínhamos acolhido um outro gato que fora abandonado nestas mesmas escadas do supermercado e decidiu voltar a pedir-nos ajuda.

Quando ali chegámos, a pequenina parecia saber que aquele instante era decisivo para o seu destino. Saltitava à nossa volta, encostava-se timidamente à transportadora e, num gesto doce, punha-se em pé sobre as patas traseiras, enrolando a cauda em volta das nossas mãos como se suplicasse: “leva-me daqui, dá-me uma nova vida”.

As primeiras fotos confirmaram o que suspeitávamos: a pequenina sofria de sarna. Por sorte, não estava numa fase avançada e o tratamento não seria demorado. Aplicámos-lhe de imediato o Stronghold e, numa semana, começaram a notar-se melhorias.

Segura entre mantinhas e com uma tigela sempre cheia ao lado, o pequeno animal finalmente relaxou. O seu ronronar era intenso, quase como um pequeno trator português a trabalhar, e pedia festinhas eternas. Nos primeiros dias, dormia e comia, repetidamente, num agradecimento silencioso àqueles que a salvaram.

Demos-lhe o nome de Luzia um nome só nosso, bem português, como a terra do fado e dos afetos. Ela fazia lembrar mesmo uma batatinha: toda pequenina, desengonçada, mas especial e cheia de charme próprio. O que era miséria foi dando lugar a uma doçura contagiante: com duas aplicações de remédio, revelou-se uma gatinha de olhos vivos e expressão encantadora.

O pelo nas orelhas e nas patas não voltou de um dia para o outro, mas sabíamos que era apenas questão de tempo. Luzia já está marcada para esterilização e a sua transformação em gata saudável, elegante e irresistivelmente carinhosa é certa. E assim, no silêncio quente de uma casa portuguesa, encontrou o seu final feliz.

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