Filho, eu não quero que te divorcies por minha causa! Leva-me para um lar de idosos!

Filho, eu não quero que te separes por minha causa! Leva-me para um lar de idosos!

Já passaram muitos anos desde aquele tempo, em que trouxe minha mãe para viver connosco. Ela já não era propriamente jovem, tinha 83 anos. Desde que o meu pai partiu, a solidão na aldeia tornou-se demasiado pesada para ela. Os meus filhos, esses, já tinham seguido o seu caminho e viviam longe. Eu e a minha mulher ficámos sozinhos no nosso modesto T2 em Lisboa, e achei que acolher a minha mãe não seria grande incómodo.

Ao início, a Teresa não disse nada, mas ao fim de uns dias a presença da minha mãe começou a incomodá-la. Lembro-me bem das discussões veladas à hora das refeições.

Olha, deixa-a comer depois de nós, sim? pediu-me certa noite Teresa.

Mas porquê?

É que não me sinto bem quando vejo como ela mastiga, já sem dentes Perco logo o apetite. Acho desagradável.

Teresa, todos nós havemos de envelhecer um dia!

Não é o mesmo.

E a impaciência da Teresa não ficava só pelo que via à mesa. Incomodava-se com os problemas de saúde da minha mãe, com o cheiro dos medicamentos, ou com o seu ressonar alto durante a noite, fruto dos anos. Aos poucos, foi proibindo a minha mãe de ir à cozinha, e quase de sair do quarto. Até que, um dia, disse-me diretamente:

Vê lá, eu não contava que ela ficasse cá tanto tempo. Já não aguento, Miguel.

Mas O que é que queres que faça?

Leva-a de volta para a aldeia!

Teresa, ela não se desenrasca sozinha!

Olha que toda a gente faz assim! Porque tenho eu de viver nesta casa sentindo-me uma estranha, a aturar barulhos e cheiros?

Senti-me completamente perdido. Uns dias depois, ao chegar a casa mais cedo, encontrei a minha mãe sentada no corredor, já com a mala feita.

Ó mãe, o que está aqui a fazer?

Filho, leva-me antes para um lar. Não quero ser motivo de discórdia entre ti e a Teresa

Mãe, porquê? Não há necessidade disso!

Não quero que o teu casamento acabe por minha causa.

Ainda hoje me lembro daquela tarde, da expressão resignada da minha mãe. Continuou a pedir-me para levá-la, mas eu fiquei sem saber o que fazer. Viver sabendo que ela estaria abandonada num lar apertava-me o peito. Teria sido melhor largar tudo, ir morar com ela na aldeia e recomeçar a vida? Nunca encontrei resposta. São escolhas difíceis, sempre marcadas pelo peso da família e do tempo.

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