9 de março
Filha, estás bem? E o menino? Já pensaste num nome? Não tem nome, mãe. Que sejam os novos pais a escolher como quiserem Vou deixá-lo, mãe Vou mesmo Ninguém precisa de nós, somos só nós as duas neste mundo inteiro.
Leonor, querem que te tragam o bebé para amamentar?
Não, já disse. Vou assinar a renúncia.
A enfermeira abanou a cabeça e saiu. Leonor virou-se para a parede e desatou a chorar. As outras mães no quarto trocaram olhares e continuaram a dar de mamar aos seus bebés.
Leonor chegou ao hospital durante a noite, tudo correu depressa. O menino nasceu com três quilos e meio, saudável, bonito. Quando olhou para ele, a recém-mãe chorou, mas não foi de alegria.
Então, está tudo bem, porque choras? É um rapaz forte que tens ali. Querias era uma menina, não? Não faz mal, da próxima vez pode ser.
Vou deixá-lo Não o vou levar para casa.
Mas porquê? Tens tempo para pensar, afinal é teu filho, não tens pena?
Maria, a companheira de quarto, estava sentada no corredor ao lado do marido, a contar como a filha deles fazia caretas engraçadas com o nariz. Riam os dois, contentes. Entrou uma mulher com um saco na mão, pediu para chamarem Leonor.
Maria foi ao quarto e trouxe Leonor.
Filha, como estás? E o menino? Já tens nome para ele?
Não tem nome. Que sejam os novos pais a escolher. Vou deixá-lo, mãe Ninguém precisa de nós, somos só nós neste mundo.
Leonor tapou o rosto com as mãos e chorou. Maria sentiu-se pouco à vontade, despediu-se do marido e voltou para o quarto.
Não estás sozinha, filha. Eu estou aqui contigo. O Miguel nunca prestou Aquela amante dele disse-lhe que o filho não era dele, que tu andaste com outro, e ele acreditou. Mais tarde ou mais cedo, vai arrepender-se. Olha, trouxe-te aqui uns petiscos, come para teres leite. E chama ao menino Simão.
Leonor entrou no quarto e escondeu o saco na gaveta. No corredor ouviam-se vozes de bebés. Leonor saiu.
Este é o meu?
É sim.
Deixe-me alimentá-lo, por favor.
A enfermeira trouxe-lhe o bebé, que chorava com o rosto todo vermelho. Vá, não chores mais A mamã vai dar-te de comer.
Leonor, ainda sem jeito, tentou orientar o bebé. Maria aproximou-se e ajudou-a. O menino acalmou-se, tudo correu bem. Leonor até sorriu como era engraçado aquele pequenino, tão esforçado.
A partir daí, todos os dias traziam Simão à mãe para cada refeição. Leonor já gostava de observar-lhe o narizinho redondo, as sobrancelhas franzidas.
Leonor, foi a tua mãe que esteve cá? Pareceu-me uma senhora simpática.
Não, é a minha sogra. Minha mãe morreu quando eu era miúda, o meu pai era ausente, foi uma tia que me criou. Depois casei-me e fui viver com o marido. Tudo corria bem, até ele arranjar outra.
Saiu de casa, não quis saber mais de mim. Eu fiquei perdida, e foi aí que começaram as dores do parto.
E agora, o que vais fazer com o bebé?
A sogra quer que eu fique lá em casa com ela. Está sozinha, o filho fugiu, o marido já partiu há anos. É boa pessoa, sempre me tratou bem.
Então vai, pelo menos ficas com apoio e companhia. Talvez o teu marido reconsidere e volte.
Leonor aceitou. Dona Augusta ajudava em tudo, era uma avó extremosa.
Quando Simão fez um mês, apareceu o pai. Leonor estava fora, tinha ido ao supermercado.
Mãe, vou com a Matilde para França, arranjaram-nos trabalho lá. Vim só avisar e pedir algum dinheiro.
Não tens vergonha? Abandonaste a tua mulher grávida, quase deixava o menino no hospital. O teu pai se cá estivesse já te tinha puxado as orelhas. Não te dou dinheiro é para o neto, trabalharás para o teu.
Simão começou a chorar, Dona Augusta foi logo ao berço.
Nem ao teu filho queres olhar? É igual a ti.
Não é meu filho A Leonor esteve com outro, não quero saber.
És tolo, Miguel. Vai a tua vida, e aprende alguma coisa.
Dona Augusta reformou-se, e no trabalho ficou Leonor. Simão entrou para a creche. Viviam as três em harmonia.
Augusta, a tua nora não pensa em ir embora? Nunca vi tal coisa, sogra e nora a viverem juntas e o filho fora de casa!
Prefiro a Leonor ao meu próprio filho. O meu neto é tudo. Vivo por eles, Maria. E tu desculpa a língua.
Maria abanou a cabeça. Não percebia aquela família o seu filhinho sempre fora a sua prioridade, mesmo sendo um vadio. Talvez fosse o destino deles.
Augusta reparou que Leonor andava mais vaidosa e saia muito à noite.
Leonor, e como se chama ele?
Quem, senhora?
O rapaz a quem vais andando a correr Conta-me, filha.
Oh, só damos uns passeios Ele veio visitar família, conhecemo-nos por acaso.
E já sabe tudo sobre o Simão?
Claro que sabe.
Então traz cá a casa se for boa pessoa, não vejo razão para esconder.
O novo amigo, chamado António, trouxe um cesto de frutas e um bolo feito pela tia. Ao Simão, deu um carro de brincar e uma bola.
Passaram uma noite animada, António contou histórias engraçadas, Leonor fartou-se de rir, e até Augusta desatou em gargalhadas. No final, Leonor quis saber:
Então, gostou dele? É boa pessoa?
Muito simpático, educado, respeitador e nota-se que gosta de ti. Não percas a oportunidade.
Um mês depois, António veio pedir a mão de Leonor a Augusta.
Fique tranquila connosco, vamos viver para o Porto, tenho lá casa. Amo a Leonor, o Simão é como se fosse meu filho. Dá-nos a tua bênção.
Augusta acompanhou Leonor, António e Simão à estação. Foram para a cidade, prometeram visitar e telefonar Ficou sozinha em casa, sentia-se vazia.
Ao fim de um ano apareceu o filho, Miguel, com um rapazinho o seu filho, mal tratado.
Ó Miguel, que figura é essa? A tua mulher não lhe lava a roupa, ou quê?
Já não há mulher, mãe Foi-se com outro mais abonado, gastámos o que tínhamos, não me resta nada. Lembrei-me que ainda tinha mãe e casa.
Agora é que te lembras Durante anos, nem perguntaste se eu estava viva.
E a tal filha, era mentira Só disse isso para separar-me da família, e eu caí na conversa. Agora queria conhecer o meu filho. Onde está ele?
Perdeste o teu lugar. Leonor casou com um homem bom, está feliz. Simão foi registado por ele, legalmente não é teu filho. Agora, vou juntar as minhas coisas e mudar-me para casa deles, Leonor teve uma menina, quero ajudar e conhecer a neta. Ficas tu a tomar conta de casa, percebeste?
Augusta viajava de comboio e pensava como a vida podia dar voltas inesperadas. Que sorte é ter alguém com quem contar, alguém a quem ajudar e apoiar foi o que salvou a Leonor, enfim quem sabe o que teria sido das nossas vidas, se não fosse a minha mão no momento certo.
Hoje aprendi que às vezes a vida faz-nos perder para, mais à frente, mostrar que o importante é amar e ser útil a alguém. No final, tudo se resume a estarmos juntos de quem precisa de nós.






