Festa em Família — Entrada Livre para Todos

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Ora bolas Sónia apanhou com cuidado um pedaço de uma travessa de faiança de Alcobaça partida, e, sem coragem para atirar fora, pousou-o no parapeito da janela. Desculpa, tia Lídia murmurou ela para o vazio.
O apartamento cheirava a champô, espumante e, por alguma razão, a tangerinas, embora ninguém se lembrasse de ter descascado tangerinas na véspera. No tapete atrás do sofá jaziam ainda uma coroa plástica com purpurinas. Na gaveta debaixo da mesinha de centro, Sónia encontrou um lenço de seda atado com as palavras Despedida de Solteira dos Sonhos.

Mesmo debaixo do radiador, repousava timidamente uma luva de borracha cor-de-rosa, antiga e sozinha, com um laço já desfeito. Tinha um ar de quem tentou fugir à noite anterior mas ficou presa pelo caminho.

Sónia, de robe amarrotado e com o cinto já sem pêlo, percorria a sala com o saco do lixo na mão. A cada passo, os papéis das rebuçados estalavam suaves debaixo dos pés.

No parapeito da janela destacava-se um copo de vinho, com uma poça rubi já seca no fundo. Na jarra, em vez de flores, espreitavam três palhinhas plásticas com estrelas brilhantes. Na parede, uma grinalda de corações de papel, dos quais se via claramente que um tinha sido mordido.

Na cozinha, esperava outro campo de batalha.

Sobre a mesa, meio bolo de camadas ocupava o seu trono. O creme já derretia como boneco de neve ao sol e nas laterais viam-se as velas enviesadas com os números 3 e 8, ainda que a celebração não fosse nenhum aniversário, mas sim um simples encontro de amigas.

Na banca, copos de vidro com marcas de batom envergonhado, pratinhos com restos ressequidos de hummus. Sobre uma cadeira, estendida preguiçosamente, estava uma baralho de cartas de adivinhação, metade para cima, metade para baixo, como se uma profecia tivesse falhado

***

Sónia pegou, sem pensar, numa carta o rei de ouros fitou-a com altivez cansada. Na véspera, as mulheres tinham adivinhado casamentos, mudanças e estrangeiros misteriosos naquelas cartas. Cochichavam e logo depois riam alto, afogando os presságios em vinho frisante.

Ela baixou-se para apanhar uma purpurina do chão e, sem querer, puxou do sofá algo macio e rendado era uma meia de liga alheia, troféu das danças em cima do banco. Sónia abanou a cabeça e seguiu para o quarto, onde ao menos havia algum sossego.

O quarto até parecia arrumado, salvo três almofadas no chão e o edredão empurrado em forma de caracol gigante. Ao alisar a almofada do seu lado, sentiu um envelope de papel cor-de-rosa cuidadosamente dobrado.

O coração estremeceu.

Seria mais um bilhete esquecido do Artur do bar para alguma das amigas da Lídia? Mas o traço era conhecido: letras grandes e tombadas, cada o caraterístico, desenhado como uma bolinha.

És a melhor anfitriã do mundo! Lídia

O olhar de Sónia ficou no ponto de exclamação parecia tremer um pouco. Sorriu de lado. Melhor anfitriã com a travessa da tia Lídia partida e purpurinas no duche, que faziam de cada duche da manhã um fogo-de-artifício.

Quantas vezes já prometi a mim mesma nunca mais resmungou, sentando-se à beira da cama.

***

Senti um murmúrio húmido debaixo dos pés.

Sónia estremeceu, afastou o chinelo e descobriu no interior uma tangerina intacta, com a casca a brilhar levemente. Atada com um elástico, uma lasca de papel: para que a vida seja doce.

Na véspera, tinham-se rido deste brinde. Agora, a tangerina parecia uma ironia.

O telemóvel vibrava na mesa de cabeceira. No ecrã lia-se: Lídia (nosso furacão).

Pois claro, murmurou Sónia para a sala vazia e atendeu, ajeitando a voz. Estou?

Sóniaa! o barulho de festa ainda vinha forte, como se as amigas não tivessem ido embora, mas mudado de sítio. És uma deusa, juro! Estão todas radiantes! A Mari ainda não foi embora, estamos a contar como assustaste o espírito do roupeiro!

Ao fundo, ouviram-se gargalhadas e alguém gritou: Diz à Sónia que só lá vou ter filhos em casa dela! e novo alvoroço geral.

Obrigada, Sónia, murmurou Lídia, desta vez mais calma. Tu sabes Contigo, sentimo-nos em casa.

Sónia olhou a tangerina no chinelo.

Pois em casa

Deixo-te, rainha dos farnéis! e ficou o silêncio.

***

Sónia tirou os óculos, pousando-os junto ao bilhete da Lídia. No espelho do roupeiro, viu uma mulher de cinquenta anos, exausta, de olhos verdes jovens e cabelo apanhado a correr, donde espreitava uma purpurina. Solitária, teimosa, enrolada.

O telemóvel voltou a tocar, desta vez em videochamada. Teresa filha.

Sónia respirou fundo, ajeitou os cabelos, ignorando a purpurina.

Sim, filha? Atendeu, vendo Teresa de franjas despenteadas com a caneca de café.

Mãe! Teresa semicerrava os olhos Eu logo vi, voltaste a pôr purpurinas na gata?

Em mim, corrigiu Sónia. A gata fugiu, desde as danças com cartas ontem. Deve estar no cesto da roupa suja outra vez

E contou mais umas peripécias.

Mãe, Teresa sorriu, mas rapidamente ficou séria. Estás a ouvir-te? Gata escondida, faiança partida, tangerinas nos chinelos Não consegues mesmo dizer não à Lídia?

Sónia sentiu o tom carinhoso mas impaciente de Teresa, como dois pêndulos.

Sabes que ela Está a passar uma fase difícil defendeu-se Sónia, por hábito. Tu sabes.

E tu, mãe? Não te cansas? Quando foi a última vez que descansaste sem teres convidados?

Olhou para a luva cor-de-rosa junto ao radiador, para o bilhete, para a casa vazia a transbordar de ecos dos risos de ontem.

Não sei respondeu honestamente. Talvez eu também esteja enfiada debaixo do armário, com a gata.

Teresa riu baixinho.

Gosto muito de ti, mãe. Mas pensa nisso: da próxima vez, porque não só as duas, chá, sem cartomancia nem purpurinas?

A imagem congelou, depois voltou. Um segundo de silêncio, carregado de não-ditos.

Logo se vê, disse Sónia.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, o logo se vê soou não como um claro, Lídia, mas como início de outra coisa.

***

A primeira vez que Lídia apareceu sem motivo foi em início de primavera, quando lá fora ainda fazia frio mas as hastes verdes já espreitavam no parapeito de Sónia.

Sónia, abre, venho em paz! ouviu-se a voz animada antes sequer de tocar à campainha. E com bolo!

Sónia abriu a porta e Lídia entrou de rompante, embrulhada em aroma a perfume doce e ar fresco. Nas mãos, uma travessa enorme com algo douradinho.

Bolo de couve, como a avó fazia, lembras-te? E, sem tirar os sapatos, Lídia já ia para a cozinha. Meu Deus, que entrada de revista!

Sónia sorriu, ajeitando o seu cachecol no cabide. O apartamento de dois quartos num bairro de Lisboa era o seu orgulho sereno. Papel de parede a condizer com as cortinas, manta feita pela mãe no sofá, cozinha de armários brancos e bancadas de madeira. O parapeito da janela atulhado de vasos floridos.

Que casa tão acolhedora! diziam sempre. Para Sónia, não era só palavras.

Anda, tira o casaco disse ela, pegando na travessa. Credo, pesa!

Como a minha vida gracejou Lídia, olhando divertida Olha, pensei a minha casa é um quarto de meter dó, a cozinha só tem meia dúzia de metros, e o vizinho de cima está sempre aos berros E tu

Rodopiou na sala, onde Sónia tinha uma mesa redonda e o sofá largo junto à janela.

Aqui respira-se! Lídia abriu os braços. É quase pecado estar aqui sozinha. Que tal uns serões? Só nós e levo duas amigas para te apresentar. Vão adorar, juro!

As palavras pecado estar só chegaram a Sónia como picada sem querer.

Veio-lhe à memória as noites longas, sentada sozinha no sofá, a fazer tricot sem ver televisão, enquanto Teresa estava fora e os parentes só se lembravam dela em festas religiosas.

Serões? hesitou. Bem olha, tenho bolo piscou o olho, tentando soar leve.

Lídia ergueu as sobrancelhas.

Aceitas mesmo? Trouxe o bolo como suborno, achava que ia ter de te convencer! Pronto! Sábado pode ser?

Sónia meteu o bolo no forno para aquecer um pouco. Sábado parecia distante, coisa de sonho.

Combinado disse. Depois cozinho qualquer coisa.

Sónia, és um doce! Lídia abraçou-a, quase a fazer estalar as costelas. Não somos quase irmãs?

O quase soou estranho, mas Sónia engoliu, a pensar no bolo que ia sair do forno.

***

A Páscoa esse ano também se celebrou em casa da Sónia. A iniciativa, claro, partiu da Lídia.

Na casa da Sónia é que é a sério dizia ela. Os folares parecem de catálogo, os ovos parecem de revista. E a gata fiscaliza tudo!

Na verdade, a gata, Malhada, era um bicho cansado, mas fiscal soava melhor.

Lídia apareceu acompanhada de três amigas.

Sónia, habituada a jantares familiares sossegados, ficou nervosa ao ver, de repente, a entrar pela entrada uma ruiva barulhenta de gabardina amarela, uma morena alta de cabedal e uma baixinha de riso estridente.

A Paula, a Carla, a Marta, anunciou Lídia. E esta é a Sónia, o coração das festas.

Sónia despachava casacos, oferecia chinelos, mentalmente a ver há cadeiras para todas, dois folares, onze ovos. Saladas e aspic para dar firmeza.

Pouco depois, já era pouco. Ao fim de uma hora, Lídia interrompe a discussão sobre glaciado de folares para pegar no telemóvel:

Esqueci-me: a Ana e a Inês estão por perto! Mando-lhes mensagem. Sónia, não te importas? Trazem os próprios ovos!

Sónia abriu a boca, mas o forno apitou. Por instinto mergulhou a verificar os folares. Quando regressou, o telemóvel de Lídia estava à vista e, sorrindo, anunciou:

E pronto, daqui a pouco chegam!

***

A festa tornou-se feira.

Discutiam receitas de avós e quem tinha melhor forno a lenha. Para provar, Paula, a ruiva, atirou com uma colher de glacé de chocolate, que caiu em arco sobre a toalha branca de Sónia, pintando tudo de salpicos castanhos.

Eh pá, desculpa! Paula ficou encavacada. Dizem que é sorte?

Lídia explodiu a rir, todas imitaram. Sónia apanhou o guardanapo, limpou, sem resultado.

Não faz mal disse ela. Lava-se.

Nesse instante, apanhou o olhar de Lídia quente e grato. Como se Sónia tivesse salvo não só uma toalha, mas um mundo.

Ao fim da tarde, o parapeito estava coberto de ovos coloridos, uma coroa de papel crepe pendurada, sapatos esquecidos sob a mesa. Lídia, com cálice de vinho do Porto, brindou:

Meninas! Declaro oficialmente: na Sónia, é sempre um verdadeiro arraial!

Risadas calorosas. E Sónia, corada, sentiu o arranjo cuidar-lhe o peito. Afinal, a sua cozinha e o sofá eram palco de algo maior que ela.

***

Em pequena, porém, era o oposto. A verdadeira festa era sempre na casa da Lídia.

Lídia era a alma das ruas livre, faladora, um encanto travesso.

No largo do bairro, todos se juntavam à sua porta. Ela fazia desfiles com o roupão da mãe ou fundava clubes secretos debaixo das escadas. Até as velhas lhe chamavam: a nossa artista.

Sónia era a miúda recatada e invisível. Chegava sempre a horas, devolvia livros intactos à biblioteca, enxugava o calçado até brilhar.

Sónia, filha, toma conta da Lídia, vê se ela aprende um pouco de ti, pedia tia Lídia, a mãe da outra.

Na adolescência, afastaram-se. Lídia experimentou a noite cedo, Sónia foi estudar contabilidade. Só se viam nos jantares de família.

Depois morreu a tia Lídia. O funeral trouxe cansaços e mágoas esquerdas. Sentaram-se as duas na cozinha até às três, lavando o amargo com chá doce.

É como se a casa tivesse morrido com a mãe disse Lídia, olhos na caneca. Não entendo como funciona sem ela.

Sónia, já órfã há quatro anos, respondeu:

Funciona diferente. Não melhor nem pior. Só diferente.

Depois disso, ligaram mais. Primeiro por questões burocráticas, depois porque sim.

Com o tempo, Lídia arrastou Sónia para a sua vida tempestuosa.

Então, vivemos em paralelo? Esquece! Eu vou aí, tu vens cá!

Só que Sónia raramente ia. O cansaço, o trabalho, Teresa, sempre havia um motivo. Mas Lídia aparecia cada vez mais.

***

O em casa da Sónia tornou-se lei universal.

Ó meninas, claro que é na Sónia dizia Lídia, a folhear a agenda. A minha casa é uma caixa de fósforos. A da Sónia é um sonho!

E Ano Novo? perguntavam.

Na Sónia! A grinalda, a salada de bacalhau com azeitonas!

Páscoa? Na Sónia.

Aniversário da Marta? Claro, na Sónia, cabe lá tudo.

Encontro só para petiscar? Em mais lado qualquer? Só mesmo na Sónia

De início, até agradou a Sónia.

A sua casa, arrumada, era o centro de algo. Gostava de inventar receitas, escolher guardanapos, ouvir elogios aos pratos. Chamavam-lhe:

Sónia, isto é de revista!

Mas foi-se tornando sufocante. Já não era só Lídia a trazer gente.

Sónia, olá! É a Paula, estivemos aí ontem. Eu e a Carla pensámos passar para conversar, a Lídia não pode, está no cabeleireiro. Estás em casa?

Um dia, à terceira campainha da semana, soube logo de quem se tratava.

Era Esperança, amiga da Lídia dos tempos antigos quando Sónia sofrera com ela. Acusara Sónia injustamente de mexericos e fizera um escândalo público. Depois disso, nunca mais falaram.

Ah, olá Esperança hesitou A Lídia disse que era aqui a festa, vim mais cedo para ajudar

Sónia sentiu a velha vergonha acender-se. Quase disse: A Lídia enganou-se, não espero ninguém. Mas cedeu:

Entre, quer chá?

A toalha apertou-se-lhe instintivamente nas mãos.

***

A sua primeira rebelião foi ingénua.

Queres estragar a festa? Compra bolacha ruim disse para si própria.

Normalmente, Sónia iria à padaria comprar biscoitos artesanais de leite. Dessa vez, comprou dos de supermercado, da embalagem azul, que se esfarelam antes do chá.

Vão ver que nem tudo aqui é de revista, resmungou

Claro que a festa correu às mil maravilhas. As amigas abocanharam as bolachas más entre notícias boas. Trouxeram queijo, azeitonas, Lídia o seu famoso tomate à algarvia.

A Marta, a rir, pendurou os colares de plástico na porta, esquecendo-os. No dia seguinte, Sónia encontrou-os ali, prontos para irem para o saco das perdidas. Voltou a soar a campainha.

Sónia! Lídia entrou a rir Olha! Até nas portas a festa se nota.

Sónia ia ripostar não é festa nenhuma, é desarrumo! Mas o entusiasmo era tal, que limitou-se a suspirar:

Uma festa

E a festa recusava-se a ir embora

***

Especial foi a ceia de cartomancia, essa que Lídia batizou como noite mágica.

Hoje vamos ler o futuro, meninas! anunciou ao grupo de WhatsApp, incluindo Sónia silenciosamente. Sónia, és o nosso oráculo. Em tua casa até o bule fala.

Sónia olhou para o seu bule velho, coberto de calcário. Oráculo

Uma das convidadas, Paula, trouxe baralho de Tarot, vela gorda no copo, espeque de prata, espelho trabalhado.

Não é só serão, proclamou. É sessão espírita. Vamos falar com os espíritos.

Sónia riu, nervosa.

Espíritos? Só o do arroz, aqui

Sónia, relaxa, é uma brincadeira! atalhou Lídia.

Apagaram as luzes, acenderam velas. A sala virou um teatro dourado. Malhada, a gata, arregalou-se no parapeito, pêlo eriçado.

Paula espalhou cartas, colocou o espelho de modo a refletir os rostos.

Vamos interpelar o universo! sussurrou.

Sónia, sentada na ponta do sofá, era espectadora da própria casa. Via a luz dançar nas faces dos outros. E pensou como todos aqueles desejos amor, dinheiro, viagens lhe pareciam sempre tão distantes.

Como que em resposta, a luz piscou. Uma lâmpada, depois outra, depois de repente tudo às escuras.

Ai! alguém gritou.

Um sinal! sussurrou Paula, entre risinhos e pânico.

Sónia sacou do telemóvel para fazer de lanterna, quando um vulto escuro passou por entre as pernas: a gata, assustada, correu pela sala até ao quarto, e escondeu-se no cesto do roupeiro.

Isto é sinal que os espíritos estão apertados aqui disse Sónia, rouca.

A luz voltou dali a pouco: tinham ligado uma máquina de soldar no prédio. Mas a gata não saiu do armário durante um dia; só se ouvia um miau baixinho e arranhões ao longe.

Quando finalmente saiu, ofendida e empoeirada, Sónia fez-lhe festas e murmurou:

Vamos esconder-nos juntas, Malhada?

A gata bufou, refugiando-se na cozinha, onde restavam ainda purpurinas.

***

Sónia demorou a decidir-se.

Sentada à mesa, fixava o campo vazio de uma nova mensagem no telemóvel o cursor a piscar como tique nervoso.

Os dedos escreviam: Lídia, para a próxima festa faz em tua casa. Apagou logo.

Tentou outros:

Lídia, já não aguento mais assim

Lídia, que tal pausares as festas aqui?

Estou exausta de tanta gente, a sério.

Tudo parecia demasiado doce, ou demasiado duro. Ouvia Lídia no ouvido: És tão boa amiga, Sempre generosa contigo, Para ti nada custa.

Respirou fundo, pousou o telemóvel e foi até ao espelho. A lâmpada bailava sombras nas rugas. Pegou na escova, mas em vez de se pentear, murmurou à sua imagem:

Lídia, da próxima vez festeja em tua casa.

A voz tremia. Franziu o sobrolho, a recordar Teresa: Tens direito.

Endireitou-se, abriu os ombros como quem vai ao palco.

Lídia disse, olhos nos olhos do espelho Só gostava de alternar. Gosto destes serões, mas cansei de ser sempre aqui. Para a próxima, em tuas paredes.

Logo a voz roçou um pedido de desculpa.

Sem mas corrigiu-se. Não sou tribunal nem pronto-socorro.

Voltando ao telemóvel, escreveu devagar:

Lídia, estou mesmo cansada. A próxima, fazes em tua casa, está bem? Eu preciso descansar.

O dedo pairou sobre Enviar. Senti um nó medo de perder, de magoar. E ouvir: Pronto, bem me parecia, és mesmo secante.

Enviou. Arrumou o telemóvel.

Agora é falar sussurrou. Cara a cara.

Diante do espelho, ensaiou várias vezes:

Lídia, não quero sempre multidões

Lídia, gosto muito de ti, mas não sou albergue para todos

Lídia, precisamos de pôr limites.

Cada vez que dizia limites, a voz perdia força. No espelho, não via nenhuma matriarca, só uma mulher a aprender a dizer não.

Mas entre o terceiro e o quinto ensaio surgiu algo novo no olhar não zanga, nem exaustão: determinação.

Vá lá disse ao reflexo matinal. Vou a tua casa. Não à minha. À tua.

***

Sónia foi à casa da Lídia sem avisar.

Se ela pode aparecer com bolo e amigas, também posso ser eu a visitante, pensava.

O prédio, antigo, sem elevador, cheirava a mofo e tabaco. Antes achava histórico, agora só via humidade.

O terceiro andar cheirava a sopa passada e spray barato.

A porta da Lídia era inconfundível coroa de louro de plástico torta, placa de madeira: Aqui mora um milagre. Um dia achara graça; hoje, parecia-lhe triste.

Bateu. Nada. Carregou na campainha. Só ao fim de minutos ouviu a voz rouca:

Quem é?

Sou eu, Sónia.

Seguiu-se longa luta com o trinco. A porta abriu-se só a medo.

Lídia olhou, meio escondida. Trazia fato de treino velho, um só pé de meia calçada. Cabelo preso à pressa, olhos inchados.

Sónia? o espanto real. Assim, sem avisar?

Tu avisas para vires a minha casa? devolveu Sónia.

Lídia piscou, mas lá recuou, deixando passar.

A casa atordoava não pelo mobiliário, mas pelo vazio.

No corredor, nenhum tapete bem-vindo, sapateira ou arrumação. Vassoura encostada, sapatos ao monte, nódoa seca de café no chão.

A sala tinha um só sofá tecido verde já cinza coberto de roupa misturada, como onda acabada de rebentar. No chão, garrafas de vinho vazias, duas latas energéticas, revista sem capa. Computador aberto na cadeira, cinzeiro a abarrotar.

Duas canecas caídas sob a mesa. Uma, vazia de tanto tempo, a outra com borra de café e cinzas por cima.

Café bêbedo, dizia Teresa em criança. Quando a caneca ficava esquecida, porque o dono estava a viver coisas mais importantes do que arrumar.

No parapeito, nada de flores. Só copos de plástico, um pacote de batatas fritas, e um limão seco, abandonado perto do radiador.

Sónia sentiu-se virar do avesso.

Não era desleixo. Era uma vida a desfazer-se, sem ninguém para a remediar.

***

Não olhes assim, cortou Lídia, apanhando-lhe o olhar. Ainda não limpei depois de pronto

Depois de quê? perguntou Sónia suavemente.

Depois da mãe, depois do trabalho, de tudo acenou na direcção das garrafas. Depois da vida.

Entrou na minúscula cozinha. Mesa, cadeira, frigorífico velho coberto de ímanes partidos, banca entupida de pratos, frigideira com batata frita já cinza. Um saco de lixo no canto.

Queria ligar-te, confessou Lídia, ajeitando o bule gorduroso. Mas enfim

Sónia permaneceu de pé, apertando a mala ao peito, imagens da sua própria casa a correr na mente cozinha limpa, toalha decorada, bolos, purpurinas, risos. E este mundo à parte, onde o riso ficava em casas alheias, e aqui só restava lixo e silêncio.

Compreendeu, com uma lucidez involuntária, que o seu lar era mais que um sítio prático: era o único refúgio onde Lídia podia esconder-se do seu quartinho.

Vieste porquê? Lídia voltou-se Fazer uma revista?

Por necessidade, disse Sónia. E, talvez, sim. Faz parte.

***

Pensei que estivesses zangada, Lídia sentou-se de repente Achei mesmo.

Olhos brilhavam, não de alegria, mas a reter as lágrimas.

Estou confessou Sónia. Estou mesmo farta disto tudo. Ontem foi a gota de água.

Pousou a mala, decidida.

Mas também quero a voz ia falhar, fez força. Quero entender.

Lídia limpou os olhos, mágoa.

Entender o quê? conseguiu perguntar.

Porque é que aqui Sónia gesticulou está assim. E porque tudo como em casa se passa na minha.

Lídia riu secamente.

Porque na tua é que é uma casa. Aqui olhou em volta é cenário barato.

Respirou fundo e as palavras atiraram-se, sem fuga.

Aqui, não sinto lar, Sónia. Desde que a mãe morreu, e aquilo que tivemos de dividir, isto não é meu. É emprestado. Tenho coisas, mas não tenho casa. Compreendes?

Sónia calou-se, lembrando os primeiros meses após a mãe morrer, quando só depois de mudar móveis e cortinas conseguiu relaxar.

Em tua casa prosseguiu Lídia tudo está no sítio: manta direita, chávenas limpas, gata a dormir ao sol. Tu conheces cada recanto. Pareces dona da tua vida.

Soluçou.

Lá, em tua casa, não me sinto assustada. Nem sozinha.

Sónia sentiu compaixão, empatia reconheceu-se.

E achava mesmo que gostavas, com tanta animação Não queria ver isto acenou para as canecas no chão. Só me atraía para o teu mundo, a única pista do antes da mãe.

Sónia engoliu em seco.

Então sussurrou, sem dares por isso, o meu lar virou continuação da tua desordem?

Lídia cobriu o rosto.

Tenho um medo doido de estar só, Sónia Sério! À noite, oiço a voz da mãe, as críticas, o fazes tudo mal. Encho a casa de vozes para calar a dela. Corro para o teu lar, porque lá finalmente sinto abrigo.

Sónia sentou-se, as frases ensaiadas sumiram. Restou apenas o essencial.

Lídia, disse, firme tenho pena por estares tão só. Fico até grata que o meu lar te aqueça. Mas

Assentou as mãos na mesa, para segurar.

Não posso ser o colchão permanente de todas essas fugas.

Lídia desviou o olhar. Sónia soltou o ar devagar.

Vamos tentar diferente disse então.

***

Diferente como? Lídia, nariz na toalha.

Por exemplo, Sónia olhou à volta não ser tudo em casa da Sónia.

Lançou um olhar à caneca caída, ao sofá cheio, ao lixo no canto.

Para começar sugeriu um lar não é só lugar de festa. Tem de ser sítio sem vergonha perante nós próprias.

Lídia sorriu, meio triste.

Vergonha de mim, já eu tenho há muito.

Então que se corrija isso aqui, Sónia levantou-se. Se continuarmos a arrastar toda a tua gente para minha casa, isto nunca deixará de ser vazio e sujo. E para mim é pesado.

Firmou-se na cadeira, a olhar nos olhos.

Proponho o seguinte disse Sónia. Serões por turnos. Uma vez em minha casa, outra em tua casa. Mas sem multidão. Companhias pequenas. E só uma vez por mês.

A sério que queres trazer gente a isto? Lídia abanava a mão pelo entorno.

Proponho deixar de usar o meu lar como o único palco para festas contrapôs Sónia. E fazer do teu casa digna disso.

Olhou-a suavemente.

E propor começar por nós. Só nós.

Lídia franziu as sobrancelhas.

Como assim?

Sónia arregaçou as mangas.

Assim: pegamos neste lixo, lavamos as chávenas, limpamos a mesa e fritamos umas filhós. Só nós, sem amigas, sem purpurinas.

Filhós? Lídia sorriu, brilhando. Prefiro sonhos.

Sonhos, então, aceitou Sónia.

***

Começaram.

Primeiro, atrapalhadas. Sónia achou um saco novo, atou o velho e deitou à porta. Lídia, sem jeito, recolheu as canecas. Sónia ligou a água, procurou a esponja.

Também não nasci com casa limpa, explicou. Foi a mãe que ensinou. Tu só aprendeste outro modo de sobreviver.

Lídia só lavava, sem palavra, como quem vai à oral.

A cozinha cheirou a azeite quente. Ao virar-se, Sónia viu na outra a miúda dos desfiles do bairro agora, com mãos trémulas, mas já menos perdida.

Já sentadas, lambendo filhós ainda a fumegar com doce, bateram à porta.

Agora quem será? Lídia sobressaltou-se.

Sónia espreitou: sorriu.

A nossa disse.

À porta, Teresa. Mochila às costas e saco na mão.

Vim pelo cheiro, desculpou-se. Mãe, mandei mensagem, não respondeste. Resolvi subir.

Lídia, embaraçada, ajeitou-se.

Entra Sónia convidou Estamos na estreia do novo formato.

Teresa olhou casa, mesa, Lídia, mãe. Sombra de surpresa, depois aprovação.

Eh pah disse divertida Também já há purpurinas na casa da tia Lídia.

Purpurinas?! Lídia não percebeu.

Olha para a lâmpada indicou Teresa.

E ali, presa, brilhava uma estrela solta da festa, decerto vinda de alguma roupa.

Sónia riu-se.

Pronto declarou. Agora as purpurinas existem nas duas casas.

O importante, Teresa piscou o olho é estarem de acordo.

Sónia sentiu no peito qualquer coisa desabrochar. Ainda estava zangada, ainda receava serões de sempre. Mas agora tinha escolha. E Lídia, também.

Sentaram-se as três à volta da mesa pequena, repartindo sonhos ainda quentes, rindo quando o açúcar pintava a face da Lídia.

Nesse riso já não se ouvia a mágoa vaga de ver o próprio lar invadido. Era, enfim, a primeira festa simples, honesta. Sem rainhas do farnel ou melhor anfitriã do mundo. Só Sónia, Lídia e Teresa.

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