Felicidade à Portuguesa: O Sabor da Liberdade

Felicidade Livre

Ó David, espera aí! Vá lá, pára um bocadinho…

O David abrandou o passo e voltou-se.

Atrás dele, pelo carreiro de terra batida que levava ao chalé de dois andares feito de tijolo, vinha apressadamente Leonor, uma rapariga de dezasseis anos, com umas botas altas, uma saia, um casaco curto branco e um lenço de lã atado na cabeça. Uns caracóis castanhos escuros escapavam-se-lhe do lenço, um tom que lhe realçava ainda mais os olhos verdes com matiz de avelã, sempre tão brilhantes que parecia estar prestes a chorar. Isso dava-lhe um ar indefeso, delicado, e fazia-me sempre querer protegê-la.

A Leonor escorregava aqui e ali, trepidava, mas nunca abrandava o passo.

Leonor, não corras! Está escorregadio! gritou-lhe o David, mesmo com autoridade. Aliás, não precisas de correr. Mas olha Fica-te bem correr. Esses teus olhos estão ainda mais vivos, e as bochechas vermelhas! Estás bonita! Já há muito que não te via assim. Já estás a recuperar!

A Leonor sorriu ao aproximar-se, e o David estendeu-lhe a mão. Ela agarrou-a e piscou-lhe o olho.

Que é que querias, afinal? perguntou ele, olhando em volta e inclinando-se para lhe dar um beijo rápido na bochecha. A tua mãe já me proibiu de andar contigo e ameaçou dar-me um belo raspanete disse com um suspiro.

A Leonor baixou os olhos, tristinha, e ficou a mexer no gancho da mochila. Mas passado pouco tempo, abriu de novo o sorriso.

David, eles estão sempre a exagerar! Não te vão fazer nada Anda comigo hoje ao cinema, pode ser? pediu em sussurro. Já comprei os bilhetes. Olha!

Tirou a luva, abriu a mão, e lá estavam os dois papéis.

O David pegou-lhe na mão delicada, bonita, como mão de pianista, reparando no calor daquela pele.

Cinema? Olha que não sei… Tenho umas coisas para fazer fingiu franzir o sobrolho. A Leonor rapidamente puxou a mão e voltou a esconder numa luva. Pronto, convenceste-me, vamos sim, assentiu, fingindo estar aborrecido, e perguntou: E que filme é esse? Mais uma história de amor?

Não, é de guerra. O João foi ver e disse que é muito giro! Leonor abanou a cabeça. Mas eu sozinha tenho medo, as minhas amigas não querem ir

João? Ele diz sempre isso Vai com ele que ele está sempre disponível! O David levantou a cabeça, orgulhoso. Se lhe dás ouvidos

O João era colega da turma de Leonor, miúdo inteligente, de óculos, sempre a estudar. Nunca jogava futebol, não fazia disparates, só queria saber de livros, clubes de ciências e andava sempre atrás da Leonor. Isso irritava-me, mas nunca o vi como competidor a sério, era demasiado passivo. A Leonor gostava era de tipos vivos e interessantes, como eu.

O problema é que agora, com aquela história do coração dela, já não posso pôr os pés na casa dos Pais dela, e o João ao contrário, é sempre o menino bonito. A mãe da Leonor, a Dona Rosa, até lhe põe tapetes vermelhos.

Eu não quero ninguém! aborreceu-se a Leonor. Se te convidei, é porque é a ti que quero comigo. Então vais ou não vais?

Corou, olhou para mim à espera.

Soube-me bem aquela certeza dela e acenei que sim.

Está bem, eu vou. Ela tem medo resmunguei. E eu? Pronto, está bem, assustem lá o David! Depois ainda grito à noite, a minha avó assusta-se!

Pisquei-lhe o olho, Leonor riu-se e acenou:

Ai, tu não tens medo de nada! Então pronto, às seis e cinquenta vejo-te na porta do cinema. Agora tenho de ir. A mãe está na cozinha a cortar couves, aquilo está num caos. Vou ajudar.

A Leonor deu meia volta com cuidado e lá foi para casa.

Vivíamos na mesma rua ali em Leiria, era só dois portões a separar as nossas casas. Crescemos juntos: eu e ela a correr atrás de pardais, a trepar às ameixoeiras mesmo com a mãe a ralhar, a comer as frutas mesmo verdes só por desafio e depois a disputar quem atirava mais longe o caroço. Fomos juntos para a escola, só que eu era dois anos mais velho. As amigas dela diziam que tive muita sorte, que a Leonor era um anjo e eu estava sempre ali para a ajudar, mas ela achava estranho esse espanto. Para ela, eu sempre lá estive, como se fosse natural.

Dois invernos atrás, fomos andar de ski improvisado mais trenó que ski. De repente, a Leonor sentiu-se mal, rodou a cabeça, tudo ficou preto, e caiu, partindo a perna. Aquela dor apanhou-a desprevenida. Sempre foi medrosa com dores, só tirar-lhe um espinho do dedo já era um teatro. Agora era uma perna partida sorte que lá estava eu. Eu sempre estava quando ela precisava, porque, quando a Leonor gritava, a rua toda ouvia.

Enquanto levava a Leonor para casa, a perna inchava tanto que até tive de cortar a bota dela. Ela apertava-me tanto o ombro que até marcas deixou. Mas aguentei, disso ela podia sempre contar.

Chegou a ambulância e a levaram ao hospital, descobriram que o pior não era a perna era o coração dela. Apareceu na ficha médica um rol de doenças escritas em latim. Ficou internada, meses, depois mandaram-na para casa.

Passou a primavera, o sol já aquecia, e a Leonor só agora começava a reviver.

Foi duro. A perna demorou a soldar, coçava e doía. A Leonor ficou rabugenta com a mãe, chorava por tudo. Mas quando eu aparecia, tudo mudava: tinha sempre outro plano ora mapas pelo mundo, ora viagens imaginadas, ora construíamos qualquer coisa juntos ou fazíamos desenhos no jornal da parede A Leonor ria, esquecia as dores, sentia-se viva.

Quando tirarem esse gesso, dizia-lhe , levo-te para andar por onde quiseres. Onde gostavas de ir?

Ela encolhia os ombros.

Só queria brincar no quintal, a mãe não deixa. Diz sempre que preciso de repouso, que o coração é um perigo. Acho que já nem sei andar

Tretas! respondia eu, animando-a. O meu avô António, lá em Óbidos, veio da guerra quase aleijado da perna, mas um médico arranjou-o e nunca mais se queixou. A ciência avança, Leonor! Não fiques triste. Mexe-te, isso passa!

Enchia-a de ânimo, pegava na boneca dela e fugia pelo quarto só para a fazer andar, mesmo que fosse de canadianas.

Leonor, a tua idade já não é para bonecas! brincava eu. Pareces a Dona Augusta da mercearia, só sabes queixar-te das maleitas! Anda lá, ânimo! Ainda vamos dançar muito por aí!

Leonor! Vai já deitar-te! David, por amor de Deus, não a canses! entrava a Dona Rosa a correr. Sabes que ela não pode nervosismos! Vai-te embora!

Oh Tia Rosa, se a deixa sempre presa aqui vai secar, apodrece! Precisa de viver, como os outros, alegre, com energia!

Quem decide isso sou eu! Vai para casa, David. O João vem já ajudá-la nos trabalhos. E abanava a cabeça, cansada.

Quando me apanhou sozinha no patamar, apertou-me o casaco ao pescoço e encostou-me à parede.

Ouve bem, rapazinho! Não andes a meter ideias na cabeça da minha filha! A Leonor tem uma doença grave, não pode ter filhos sequer, não aguenta o parto. Os médicos disseram. Não chores isso a ela, que a menina só sonha com família grande. Pensa bem, sim? E desaparece. Não falhes. Não venhas mais cá.

Só cheguei a perceber bem depois; ela era mesmo considerada inválida, que susto O medo de a perder atravessou-me na cabeça como eletricidade: E se ela morresse hoje?

A minha avó Francisca, que estava à porta, só pensou que eu tinha ficado doido quando me viu despejar uma caneca de água gelada pelas costas.

David! O que fazes? Vais-te constipar! gritou a correr buscar manteiga e toalha.

Suspirei fundo e deixei o pânico esfriar.

Ela não pode morrer já! Tem a vida toda pela frente. Não vou deixar que não seja assim! prometi a mim mesmo.

A avó Francisca só abanava a cabeça, sem perceber o que eu resmungava.

David, anda cá, são horas de dormir, meu netinho. Já deves estar cansado! murmurou.

Vou sim, desculpa se te acordei. Só bebo um chá. Dorme bem, avó. Dorme.

Vivíamos só os dois desde que os meus pais tinham desaparecido ninguém sabia ao certo se morreram, se foram embora. A avó contava pouco, muito solto.

Viam a Leonor de vez em quando para Lisboa para consultas. A Dona Rosa levava sempre compotas, foi tudo da nossa horta, só para impulsionar algum milagre dos médicos. Mas milagres, nada.

Não sabemos tratar isto ainda dizia o médico. Talvez no futuro! Mas até lá precisa de muito, muito repouso. Não se aflija, há muitos assim, levam a sua vida.

Claro, claro, repouso, repetia a mãe. O João também lê muito, diz que é preciso cuidado. Já pôs a Leonor a ler e tudo, vê-lo sempre tão atento ao que ela faz…

Mãe! corava a Leonor, odiava que falasse demais.

Olhe que é um bom rapaz, Leonor, aproveite dizia o médico, sorrindo. Pode dar um bom marido

O médico foi-se, sonhando com a mulher a fazer-lhe panquecas ao jantar. Apetecia-lhe algo doce, quente.

E a Leonor passou a temer cada passo a mais, sempre debaixo do olhar atento da mãe: não apanhes frio, não corras, não te canses!

No cinema estava abafado e cheirava a tabaco. A Leonor, a segurar bem na minha mão, viu o filme, mas deixou-se ir nas lágrimas baixinho, escondendo-se no meu ombro.

Leonor, não chores! Vai correr tudo bem! segredava-lhe, fazendo-lhe festas no cabelo.

Mas os outros mandavam-nos calar.

David, sinto-me mal. Vamos sair, sussurrou ela.

Vamos, claro!

Atravessámos o corredor, a porta abriu-se, a claridade do átrio quase nos cegou.

Senta-te. Trago-te água! ordenei.

A senhora da bilheteira ia olhando de lado, a abanar a cabeça.

Tão nova já assim? São casados ao menos? Onde vamos parar

Deve ter achado que a Leonor estava grávida.

Ainda não somos, mas vamos ser! interrompi, de repente.

O quê? Leonor ficou em estado de choque. As pernas pareciam ceder. Disseste só a brincar, não disseste?

Puxou-me pelo braço, olhou-me nos olhos.

Eu não brinco com essas coisas! disse sério. Queria falar mais tarde, mas assim fica dito: eu vou para a tropa. Quando voltar, casamos. Prometi que te mostrava o mundo, não foi? Bem, pinguins pelo menos verás! Prometo!

Acenou levemente, sem ar.

Temos é de acreditar que és capaz de sarar. Eu vou arranjar os melhores médicos, vamos viajar, vais ser mãe eu prometo! falava quase a gritar. Queria beijá-la ali, mas a bilheteira de olhos fixos não me largava, intimidava.

Bebe a água e já saímos, está bem? puxei-a para a rua, mas ela ficou parada.

Não me deixam ter filhos? conseguiu perguntar, fitando-me de frente.

Eu hesitei. Dona Rosa tinha pedido que eu não contasse, mas escapou-se-me

Agora não vale a pena pensar nisso Veremos Anda, vamos caminhar!

A Leonor ouviu, acenou em silêncio, deixou-me ajudá-la com o casaco, mas saiu a olhar para o chão. Sentia-se menos mulher, incompleta. Como seria a vida, afinal?

Adivinhando-lhe a tristeza, eu pensei numa surpresa. Levei-a até ao meu amigo Filipe, que nos emprestou a sua mota para dar uma volta. A Leonor vestiu um capacete, sentei-a à minha frente e lá fomos, devagarinho. Senti que ela se animava, esquecia tudo enquanto acelerávamos pela estrada. O vento, o cheiro a gasolina e as minhas mãos apertando a sua cintura afastaram todas as preocupações. Naquele instante, existíamos só nós, a estrada, a vida.

…Nessa noite tiveram de chamar o médico ao correr para casa da Leonor. Ele deu-lhe uma injecção e depois, cumprimentando na entrada, não resistiu:

Deviam ter mais cuidado com esta menina! E o exame na escola aí à porta! Tão nervosa…

Tentou justificar-se, mas a mãe não engoliu a história do filme.

Foste com o David, não foste? perguntou a mãe, já sozinha com ela.

Fui. O David diz-me sempre a verdade! Tudo! Até que não posso ter filhos

A Leonor chorou ainda mais.

Quando vir o David, aleijo-o! prometeu-lhe o pai, punhos cerrados.

Não toques nele, pai! Ele é o melhor, não compares ao João!

Vai dormir! roncou o pai, apagando a luz.

Depois daquilo, a mãe não me queria nem ver à porta. A culpa era minha, dizia ela. Mas eu não desistia!

Eu vou ser feliz com ela, ouviram? Vou curá-la, hão-de ver! Para quê fechá-la, sufocá-la? Daqui a pouco está seca, um pau de varas! Deixem-na viver! Tentei despedir-me antes de ir para a tropa, mas não me deixaram entrar. Quase parti a porta de tanta raiva.

O pai saiu com uma caçadeira na mão.

Vai-me disparar, tio Francisco? Faça isso, já que ninguém precisa de mim, a não ser a avó. Digam à Leonor que fui, não a aborreçam!

Aproximei-me, peito feito. A arma encostou-se, mas ele baixou-a.

És teimoso. Talvez aprendas algo lá na tropa. Vai-te. A Leonor está a dormir, não vou acordar a menina.

Ambos acharam que todos os males vinham de eu gostar dela: fui eu que lhe mostrei os skis, eu que a animei, tudo culpa minha! Pronto, mais vale desaparecer

A mãe, passada, só esperava que eu nunca voltasse.

Voltei quatro anos depois. Ninguém contou à Leonor, mas fui colocado numa missão em Moçambique, fiquei desaparecido. A avó morreu, nunca mais me viu. Às cartas que a Leonor escrevia nunca deram resposta.

Não tens resposta, Leonor? perguntava a senhora da estação de correios, em Santa Marta Se calhar não quer, essas coisas passam

…Cheguei a casa, parecia tudo igual, mas era diferente. Paredes manchadas da chuva, cheirava a humidade, os objetos da minha avó tudo como ela deixara. Sentei-me à mesa, fechei os olhos. Nada batia certo. Ou era eu que mudara?

Fui à casa dos pais da Leonor. Vi a Dona Rosa a estender roupa.

Dona Rosa! Ainda igual, hein! atirei, largando o cigarro.

Pensava que tinha passado uma vida.

Quem? Quem está aí? ela franzia os olhos.

Sou eu, David. Posso entrar?

Entrei e só queria ver a janela do quarto da Leonor. Mas estava fechada, sem flores.

Ela já não cá está, David. E tu voltaste? murmurou. A Leonor foi para o Porto. O João entrou na universidade de lá. Foram todos.

Que tem o João a ver?

Ora, casaram. Disse-lhe que tinhas morrido. Não quis ficar aqui. O João trata da família. Escreveu dizendo que ela também entrou na universidade e tudo Quando enterraram a tua avó, a Leonor ficou para baixo, outra vez. Mas o João ajudou. Olha, David, ela pousou-me a mão no ombro, não vás atrás. Deixa-os ser felizes à maneira deles…

Ela olhou-me, quase a suplicar.

A Leonor nunca gostou do João! ri-me amargo.

Isso era antes. Sem ti ela mudou. Com ele sente-se segura. David, não apareças.

Saí, batendo a porta sem resposta. Ela foi-se embora, e o marido dela lia no sofá, hábito que o João lhes pegou.

No dia seguinte fui ao cemitério. Antes de ir embora, tirei o crucifixo do pescoço e deixei-o na campa da avó.

Perdoa, avó Francisca…

E fui-me embora.

…Tornei-me uma pessoa dura, decida. Não aceitava um não. Atirava-me de cabeça, arriscava, lutava pelo que procurava. Negócios, alguns menos limpos, dinheiro, buscas. Mas no fundo, procurava era oportunidades.

Em oito anos de desenrascanço, já tinha lojas, transportes, uma mão em tudo. Conheci, por fim, médicos de topo.

Porque é que te interessam tanto assuntos de coração? perguntou-me o Dr. Cruz do Hospital de São José. Tens alguém?

Tenho. É uma amiga de infância. Teve um problema desde os dezasseis.

Preciso de relatórios recentes, não coisa de dez anos. Assim não vale…

Acenei. Faria tudo para conseguir.

Em casa, a Irene, minha companheira, acordou ao ouvir-me sair de madrugada.

Onde vais agora? perguntou, ajeitando o roupão.

Negócios. Dois ou três dias, não sabes quando volto. beijei-a rápido. Não levas ninguém para casa, está bem?

Ela sorriu, fingindo submissa:

Sim, senhor. Queres pequeno-almoço, que fiz sopa?

Não dá tempo, desculpa.

Sai, ela ouviu-me a descer as escadas. Sabia que não havia romance. Companheirismo, cada um tinha o que precisava. Estranho, mas funcionava.

…No restaurante, frente ao Dr. Júlio, negociava:

Os processos dos doentes é confidencialidade máxima. Quer máquinas, falamos. Mas fichas? Isso não!

Tranquilo, Júlio. Quanto queres? sorri. A Leonor foi sempre minha amiga. O marido controla a vida toda dela, ela nem vive! Só existe. Ajude-me. Isto é negócio limpo. Eu pago. Vais poder pagar a faculdade do teu filho.

No fim, claro, aceitou. Entregou-me o dossier, já preparado. Subornou-se, sabia que ele queria era dinheiro.

Com o dossier, finalmente podia agir.

…A Leonor caminhava pelo bairro, perdida nos seus pensamentos, organizando tarefas, sempre a cumprir ordens do João.

Um motociclo passou, uma rapariga feliz a agarrar-se ao rapaz. A Leonor sorriu, lembrando-se de nós a correr de mota, livres.

Leonor! ouviu. Leonor, olá!

Virei-me para ela, convidei-a para se sentar comigo num banco de jardim.

David és mesmo tu! e tocava-me no ombro, no peito, no rosto com lágrimas. A avó Francisca dizia que não vinhas

Abracei-a, forte e meigo. Sempre fui o seu porto de abrigo.

Vamos beber um café? sugeri depois.

Ela acenou.

Mas mais vale ires lá em casa, já lá estão o João e o nosso filho, Vasco. Conhece-o

Não posso, é um assunto só teu. Vamos ali ao refeitório…

Sentados lado a lado, hesitei e depois atirei:

Leonor, quero levar-te comigo. Precisas de autorização, mas já tratei disso.

Levar? espantou-se.

Arranjei-te uma operação com um médico em Barcelona. Vais sarar, voltares a ser tu!

O João só quer o meu bem, não penses mal dele… interrompeu-me.

Sei tudo. Mas agora interessa é tu… Eu já tratei de tudo, só faltas tu.

Nunca me senti tão ansioso.

De repente, apareceu o João.

Leonor, Vasco está à tua espera. E tu David? Olha que surpresa

Ficou frio e puxou-a.

O David queria falar comigo, João

A Leonor começou a tremer, logo o João sacou dos comprimidos, preocupado. Fomos todos para casa.

Na mesa, tentava ser diplomático. O João, sempre calmo.

Estás casado, David? perguntou entre bocados de pão.

Não. Vim só para ajudar a Leonor. Arranjei-lhe tratamento. Pode voltar a ter vida…

Leonor, serve chá ao Vasco ele mandou quando ela foi à cozinha.

Ficou só comigo.

Não vais levar ninguém. Se a Leonor viveu comigo tudo este tempo, é porque sou eu que sei o que é melhor. Tu onde estavas quando dei banho ao nosso filho, mudava os lençóis à Leonor no hospital? Ela é minha e baixou a voz. Não quero cá heróis. Vai ajudar-te a ti.

Isso é orgulho, João Ela tem direito a viver! Não é um troféu!

Mas a Leonor apareceu, abraçou-me devagar.

David, eu fico aqui. Tenho medo. O Vasco é pequeno. Fico contente assim. sussurrou.

Encheu-se de coragem, sorriu para nós: Tomam chá? Tenho doces. E tu, David, depois vais para casa, está bem?

Saí, sem me despedir, a pensar como é possível alguém recusar uma nova vida? Vendi tanto, lutei tanto por ela E ela escolhe ficar. É a vida.

Cheguei a casa já tarde. A Irene, à minha espera, de robe, sorrindo.

Fiz sopa, queres provar?

Abracei-a forte.

Estava com medo que não voltasses, que ficasses com ela

A Irene chorou, mas eu senti uma leveza nova. Parecia que a tonelada de culpa saía de mim. Não devia nada a ninguém. Podia casar com a Irene, viver, ter filhos. Ser feliz à minha maneira.

E é só isto permitir-se, finalmente, ser feliz.

A Irene via-me comer a sopa com apetite. Sorriu. Porque agora, ali, começava a nossa pequena família. Sabíamos, os dois, que a felicidade está, afinal, onde a deixamos entrar.

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Felicidade à Portuguesa: O Sabor da Liberdade