Eu não o podia abandonar, mãe murmurou o Afonso. Percebes? Não conseguia.
Afonso tinha catorze anos e sentia que o mundo inteiro estava contra ele. Mais precisamente, parecia que ninguém o compreendia.
Mais uma vez este rapaz problemático! resmungava tia Lurdes do terceiro andar, apressando-se para o outro lado do pátio. Criado só pela mãe. Eis o resultado!
Afonso seguia em frente, mãos nos bolsos das calças de ganga rasgadas, fingindo que não ouvia. Apesar de ouvir.
A mãe trabalhava sempre até tarde. Na mesa da cozinha, havia um bilhete: “Os panados estão no frigorífico, aquece-os”. E silêncio. Sempre o silêncio.
Agora mesmo, voltava da escola, onde os professores lhe tinham dado mais uma conversa sobre o seu comportamento. Como se ele não soubesse que era um problema para todos. Sabia. Mas e depois?
Ó rapaz! chamou o sr. Manuel, vizinho do rés-do-chão. Já viste aquele cão coxo por aqui? Deviam enxotá-lo.
Afonso parou. Observou.
Ao lado dos contentores do lixo, lá estava deitado um cão. Não era cachorro era um cão adulto, castanho-avermelhado com manchas brancas. Estava imóvel, mas os olhos seguiam quem passava. Olhos inteligentes. E tristes.
Alguém que o enxote! concordou tia Lurdes. Deve estar doente!
Afonso aproximou-se. O cão não se mexeu, só abanou ligeiramente a cauda. Na pata de trás, estava uma ferida feia, nódoa de sangue seco.
Porque é que estás aí parado? atirou o sr. Manuel, irritado. Pega num pau, enxota-o!
Foi então que algo em Afonso se revoltou.
Nem pensem em tocá-lo! disse de repente, protegendo o cão com o corpo. Ele não fez mal a ninguém!
Ora essa! admirou-se o sr. Manuel. Agora queres ser defensor?
E sou! Afonso agachou-se ao lado do cão, estendendo-lhe a mão com cuidado. O animal farejou-lhe os dedos e lambeu-lhe devagar a palma.
Algo quente cresceu no peito do rapaz. Pela primeira vez em muito tempo, alguém o tratava com gentileza.
Anda, sussurrou para o cão. Vem comigo.
Em casa, Afonso fez uma caminha ao cão com velhos casacos num canto do quarto. A mãe só voltava à noite ninguém o iria repreender ou enxotar o “bicho”.
A ferida parecia grave. Afonso foi à internet procurar como socorrer animais. Lia, franzindo o sobrolho perante termos médicos, mas esforçando-se para memorizar cada passo.
Preciso limpar com água oxigenada, murmurava, mexendo na caixa dos medicamentos. Depois tratar com Betadine. Com cuidado, sem lhe fazer doer.
O cão ficou quieto e confiou-lhe a pata ferida. Olhou Afonso com gratidão como há muito ninguém olhava.
Como é que te chamas? Afonso ia terminando o curativo. És tão castanho Chamo-te Figo, pode ser?
O cão ladrara baixo, como se aceitasse.
Ao fim do dia, a mãe voltou. Afonso preparou-se para a discussão, mas ela limitou-se a examinar o Figo, tocando no penso.
Fizeste tu? perguntou em voz baixa.
Fui eu. Vi na internet como se fazia.
E o que lhe vais dar de comer?
Logo se vê.
A mãe olhou muito tempo para o filho. Depois para o cão, que lhe lambia a mão de confiança.
Amanhã vamos ao veterinário, decidiu ela. Ver a pata. E já tem nome?
Figo! respondeu Afonso, todo contente.
Pela primeira vez em meses, entre eles não havia muralha de incompreensão.
Acordou uma hora mais cedo que o habitual. Figo tentou levantar-se, choramingando de dor.
Fica descansado, tranquilizou-o Afonso. Vou buscar água, dou-te de comer.
Não havia ração em casa. Teve de lhe dar o último panado, pão embebido em leite. Figo comeu com vontade, mas devagar, lambendo até as migalhas.
Na escola, Afonso, pela primeira vez em muito tempo, não respondeu com arrogância aos professores. Só pensava Como estará o Figo? Doer-lhe-á? Sentir-se-á sozinho?
Hoje estás diferente, admirou-se a professora Júlia.
Afonso apenas esboçou um sorriso. Não quis contar iriam troçar.
Depois da escola, correu para casa, indiferente aos olhares dos vizinhos. Figo recebeu-o com festa já conseguia apoiar-se em três patas.
Queres dar uma volta, amigo? Afonso improvisou uma trela com uma corda. Devagarinho, sem esforçar a pata.
No pátio, aconteceu o inesperado. Tia Lurdes, ao vê-los, interrompeu-se no meio do pacote de sementes:
Agora até leva o cão para casa! Afonso! Estás maluco?
E que tem? respondeu o rapaz, calmo. Estou a cuidar dele. Vai ficar bom.
A cuidar?! Protestou a vizinha. E dinheiro para os remédios tens? Roubas à tua mãe?
Afonso apertou os punhos, mas não respondeu mal. Figo encostou-se à perna como se sentisse a tensão.
Não roubo nada. É o meu dinheiro. Juntei do lanche, disse baixo.
O sr. Manuel abanou a cabeça:
Sabes que pegaste numa vida, rapaz? Não é brinquedo. Tem que ser tratado, alimentado, passeado.
Os dias começaram a sorrir diferente. Cada manhã, a caminhada. Figo recuperava rápido, já corria, coxeando pouco. Afonso ensinava-lhe comandos pacientemente, uma e outra vez.
Senta! Muito bem! Dá a pata! Assim!
Os vizinhos olhavam de longe. Uns abanavam a cabeça, outros sorriam. Afonso só via os olhos fiéis do Figo.
E Afonso mudou. Não de repente aos poucos. Parou de ser bruto, ajudava em casa, até melhorava nas notas. Tinha um propósito. E era só o início.
Três semanas depois, aconteceu o que mais temia.
Voltava com Figo do passeio vespertino, quando do lado das garagens surgiu uma matilha. Cinco ou seis cães grandes agressivos, esfomeados, olhos luzindo no crepúsculo. O líder, enorme e preto, rosnava avançando.
Figo recuou instintivamente para trás de Afonso. Ainda doía a pata, não podia correr. Os outros perceberam a fraqueza.
Para trás! gritou Afonso, agitando a trela. Vão embora!
Mas a matilha cercava-os. O chefe rosnava mais alto, pronto para saltar.
Afonso! ouviu-se de cima um grito. Corre! Deixa o cão e foge!
Era tia Lurdes à janela. Outros vizinhos espreitavam atrás.
Rapaz, não heroízes! gritava o sr. Manuel. Ele manca, não escapa!
Afonso olhou para Figo. Ele tremia, mas não fugia. Encostado à perna, pronto para tudo.
O cão preto atacou primeiro. Afonso tentou tapar-se com o braço, mas sentiu os dentes a rasgar-lhe o casaco e a pele.
Ao mesmo tempo, Figo, sem se importar com a dor, venceu o medo e lançou-se para defender o dono. Mordeu a pata do líder, ficou pendurado.
Começou a luta. Afonso chutava, dava murros, tentava proteger Figo de todos os dentes. Levava dentadas e arranhões, mas não recuava.
Valha-me Deus! Que aflição! chorava tia Lurdes de cima. Manuel, faz qualquer coisa!
Sr. Manuel descia a correr, pegando numa vassoura, num pau no que aparecia.
Aguenta-te, rapaz! gritava ele. Já vou ajudar!
Afonso começava a cair sob a força da matilha quando ouviu uma voz conhecida:
Saiam daqui!
Era a mãe. Correu do prédio de balde na mão e lançou água para cima dos cães. A matilha fugiu, rosnando.
Manuel, ajuda! gritou ela.
O vizinho chegou com o pau, mais duas pessoas desceram. Os cães viraram costas e correram.
Afonso caiu no chão, agarrado ao Figo. Ambos sangravam, ambos tremiam. Mas vivos. Inteiros.
Filho, a mãe ajoelhou-se, examinando-lhe os ferimentos. Assustaste-me tanto.
Eu não o podia abandonar, mãe, sussurrou ele. Percebes? Não podia.
Percebo, respondeu ela suavemente.
Tia Lurdes desceu ao pátio, aproximou-se. Olhava para Afonso como se o visse pela primeira vez.
Rapaz, balbuciou. Podias ter morrido. Por causa de um cão.
Não foi “por um cão”, interrompeu Manuel. Foi por um amigo. Percebe a diferença, Lurdes?
Ela acenou, com lágrimas a correr-lhe pela face.
Vamos para casa, disse a mãe. É preciso tratar das feridas. Do Figo também.
Afonso levantou-se com dificuldade, pegou no cão ao colo. Figo choramingava, mas abanava a cauda feliz por estar com o dono.
Esperem, Manuel deteve-os. Amanhã vão ao veterinário?
Vamos.
Eu levo-vos. De carro. E pago o tratamento afinal o cão é herói.
Afonso olhou admirado para o vizinho.
Obrigado, Sr. Manuel. Mas posso pagar.
Não discutas. Trabalhas depois e pagas. Por agora e bateu-lhe no ombro. Agora estamos todos orgulhosos de ti. Não é, pessoal?
Os vizinhos acenaram em silêncio.
Passou um mês. Uma noite típica de outubro, Afonso voltava da clínica veterinária, onde ajudava voluntários aos fins-de-semana. Figo corria ao lado, quase sem coxear.
Afonso! chamou tia Lurdes. Espera!
O rapaz estava pronto para mais um sermão. Mas a vizinha estendeu-lhe um saco de ração.
Para o Figo, disse num tom tímido. É boa ração, cara. Cuida tão bem dele.
Obrigado, tia Lurdes, Afonso respondeu sincero. Mas já temos. Agora trabalho na clínica, a Dra. Ana Maria paga-me.
Fica com ela. Precisas para o futuro.
Em casa, a mãe preparava o jantar. Vendo o filho, sorriu:
E então, como vai a clínica? A Dra. Ana Maria está contente contigo?
Diz que tenho jeito para os bichos. Até penso em seguir veterinária, a sério.
E os estudos?
Bem. Até o prof. Oliveira me elogiou em física. Diz que fiquei mais atento.
A mãe acenou. Nesse mês, o filho mudara tanto. Não era rude, ajudava, cumprimentava vizinhos. Tinha um objetivo. Um sonho.
Sabes, disse ela, amanhã o Manuel vem cá. Quer propor-te um trabalho. O amigo dele tem uma quinta, precisa de ajudante.
Afonso iluminou-se:
A sério? Posso levar o Figo?
Claro. Agora ele quase parece cão de trabalho.
Ao fim do dia, Afonso estava no pátio com Figo. Treinava um novo comando “guardar”. O cão fazia tudo, sempre atento ao dono.
Sr. Manuel sentou-se ao lado no banco.
Amanhã vais mesmo à quinta?
Vou. Com o Figo.
Então deita-te cedo. Vai ser puxado.
Quando Manuel se foi, Afonso ainda ficou mais um pouco no pátio. Figo encostou o focinho aos joelhos dele, suspirando de felicidade.
Encontraram-se um ao outro. E nunca mais voltariam a estar sós.
No final, Afonso percebeu: as verdadeiras amizades nascem quando temos coragem de cuidar, de proteger e de confiar, mesmo quando todos duvidam. E isso, mais que qualquer nota ou elogio, é o que realmente nos faz crescer.







