— És filha de quem, menina? ..— Deixa que te levo para casa, vais aquecer-te. Peguei-a ao colo e tro…

De quem és tu, miúda? Vá lá, deixa-me levar-te a casa, vais aquecer-te. Peguei nela ao colo. Levei-a para casa, os vizinhos logo apareceram notícias correm mais depressa que o comboio na aldeia. Ó Maria, onde é que a foste arranjar? E o que vais fazer com ela? Ó Maria, perdeste completamente o juízo? Como é que vais sustentar uma criança?

O soalho rangeu debaixo do meu pé já decidi mil vezes que preciso consertar aquilo, mas as mãos nunca me chegam para tudo. Sentei-me à mesa, tirei o meu velho diário. As folhas amarelas, mais parecidas com castanhas caídas no outono, mas a tinta mantém os devaneios de outros tempos. Lá fora, o vento açoita, um choupo bate com a ramada no vidro, como quem quer entrar para o chá.

Que barulho é esse, ó árvore? brinco eu. Tem paciência, logo vem a primavera.

Falar com árvores… Sim, capaz de parecer ridículo, mas a quem vive sozinho tudo à volta ganha animação própria. Depois daquela fase terrível, fiquei viúva o meu António morreu. Ainda guardo a última carta dele, já amarelada, dobrada e desdobrada mil vezes. Escrevia que estava quase a voltar, que me amava, que íamos ser felizes Passou uma semana e já se sabe.

Filhos não vieram, talvez tenha sido sorte nesses anos não havia batatas nem para as formigas. O presidente do rancho, Sr. João da Silva, puxava-me pelo braço:

Não te preocupes, Maria. Ainda és nova, arranjas outro marido.

Mais casamento não me apanha, João, respondia eu. Só se ama uma vez, chega.

Trabalhava no campo do nascer ao pôr do sol. O chefe da equipa, o senhor Manuel, gritava:

Maria da Cunha, vai lá para casa, já está tarde!

Ainda tenho força nas mãos, Manuel. E enquanto há trabalho, não envelhece a alma.

A minha casa era modesta uma cabra chamada Matilde, teimosa que nem eu. Cinco galinhas, que me acordavam com mais pontualidade do que qualquer despertador. A vizinha Clotilde, sempre pronta para a piada:

Ó Maria, tu és um peru? As tuas galinhas põem-se a cacarejar antes de nascer o sol!

A horta, com batatas, cenouras e beterrabas. Tudo da terra. No outono enchiam-se frascos picles, tomates em calda, cogumelos avinagrados. No inverno, abria-se um frasco e era como se o verão entrasse pela porta.

Aquele dia está gravado na memória. Março trouxe um tempo húmido, molhado. De manhã chuviscou, à tarde gelou. Fui ao pinhal buscar lenha a lareira não acende sozinha. Depois das tempestades, há sempre troncos caídos. Encho o braço, caminho para casa e ao passar a ponte velha ouço choro. Primeiro pensei é o vento a fazer das suas. Mas não: era mesmo choro de criança.

Desci rente à ponte e vi uma menina pequenina, toda enlameada, vestidinho molhado e rasgado, olhos assustados. Quando me viu, gelou: só tremia, uma folha ao vento.

De quem és tu, miúda? perguntei baixinho, para não assustar.

Calada, só piscava. Os lábios azulados do frio, dedos inchados.

Estás gelada, murmurei. Vá, vem comigo para casa, vais aquecer-te.

Peguei-a ao colo leve, como se fosse feita de vento. Enfiei-a no meu xaile, embrulhei-a no peito. E pensava que mãe deixa uma filha debaixo da ponte? Não me cabe na cabeça.

Deixei a lenha já não importava. Pelo caminho, a menina calada, mas agarrada ao meu pescoço com os dedos frios.

Cheguei a casa, mal pouso a criança, já a Clotilde espreita pela janela:

Ó Maria, onde raio a foste buscar?

Debaixo da ponte, respondi. Parecia abandonada.

Ai, meu Deus Clotilde correu as mãos pelo avental. E agora, o que vais fazer com ela?

Fica comigo, disse eu sem hesitar.

Perdeste o juízo, Maria? Dona Amélia, velha do bairro, irrompe porta adentro. Como vais alimentar uma criança?

Deus há de ajudar, atalhei.

Primeiro tratei de acender a lareira, puxar água quente. Ela cheia de nódoas, uma magreza de cortar o coração. Dei-lhe banho morno, vesti-lhe uma camisola minha roupa de criança não havia.

Queres comer? perguntei.

Ligeira aprovação de cabeça.

Abri um tupperware do meu caldo de véspera, cortei pão. Devora o prato, mas com cuidado nota-se que foi criada a pão e carinho, não ao vento.

Como te chamas?

Nada. Talvez assustada, ou não sabia falar.

Deitei-a na minha cama, eu fiquei no banco da cozinha. Acordei várias vezes foi difícil descansar. Ela dormia enroscada, pequena e vulnerável.

Dia seguinte, fui logo à Junta reportar o achado. O presidente, Sr. Duarte, desabafou:

Não há queixa de desaparecimento. Talvez algum citadino a tenha abandonado

E agora?

Pela lei vai para o lar de crianças. Vou telefonar à Câmara.

Senti um aperto:

Sr. Duarte, dê-me tempo talvez sejam encontrados os pais. Por enquanto fica comigo.

Maria da Cunha, pensa bem

Já está pensado.

Dei-lhe o nome de Leonor homenagem à minha mãe. Os pais nunca apareceram, graças a Deus já estava ligada aquela miúda como se fosse do meu sangue.

Bom, ao princípio foi um desafio. Não dizia nada, só olhava à volta como se procurasse um buraco para se esconder. Acordava aos gritos, a tremer. Eu enlaçava-a, passava a mão pelo cabelo:

Já passou, filha, já passou. Agora está tudo bem.

De vestidos velhos, fiz-lhe roupa. Tingidos de azul, verde, vermelho uma pintura, parecia um arco-íris. Clotilde, quando viu aquilo, bateu palmas:

Ó Maria, tens mãos de ouro! Pensei que só sabias pegar na enxada.

Aprendi a ser costureira e ama, em época de vacas magras, respondi, orgulhosa e divertida.

Mas não eram todos compreensivos. Especialmente Dona Amélia ao ver-nos, benzia-se:

Isso não vai dar bom resultado, Maria. Uma enjeitada em casa só traz azar! A mãe era certamente perdida, por isso a largou. Quem sai aos seus

Calada, Amélia! atalhei logo. Não somos ninguém para julgar. Agora, esta menina é minha, ponto final.

O presidente do rancho também torcia o nariz:

Maria da Cunha, pensa no lar de crianças. Alimentam, vestem, tudo certinho.

E quem é que lhe dá amor, hein? Lá já há órfãos demais.

Acabou por voltar atrás, até começou a mandar leite e sacos de arroz.

A Leonor foi desabrochando. Primeiro só dizia palavras soltas, depois frases inteiras. Lembro-me do dia em que se riu pela primeira vez foi quando caí do banco ao pendurar cortinas. Ela soltou uma gargalhada cristalina, destas que cura qualquer dor nas costas.

Começou a ajudar na horta. Dava-lhe uma mini-enxada ela toda orgulhosa, imitava-me. Mais pisava os canteiros do que arrancava ervas, mas eu não ralhava. Fosse como fosse, era sinal de vida a voltar.

Depois a desgraça: Leonor caiu de cama com febre. Vermelha que parecia um tomate, a delirar. Corri ao nosso enfermeiro, Sr. Alberto:

Pelo amor de Deus, ajude-nos!

Que medicamentos, Maria? Para toda a aldeia tenho três comprimidos de aspirina. Talvez para a semana venha mais.

Para a semana? gritei. Ela nem chega ao fim do dia!

Lá fui para a cidade, nove quilómetros a pé na lama. Sapatos destruídos, pés em sangue, mas cheguei. Um médico novo, Dr. Ricardo, olhou para mim só faltava fazer o sinal da cruz.

Espere aqui.

Trouxe os medicamentos, explicou direitinho:

Não precisa pagar, disse, só trate bem a menina.

Três dias ao lado da cama. Rezava, trocava panos molhados. Ao quarto dia, Leonor abriu lentamente os olhos e murmurou:

Mãe, quero água.

Mãe Disse pela primeira vez. Lá chorei, mas ela limpa-me as lágrimas:

Mãe, estás triste? Dói?

Não dói nada, filha. É alegria, é da alegria.

Depois daquela doença renasceu meiga, faladora. Foi para a escola, a professora não cabia em si:

Uma aluna fantástica, aprende tudo num instante!

Os vizinhos também foram aceitando. Até Dona Amélia, finalmente, mudou de rumo começou a trazer bolos. Ficou fã da Leonor depois de a miúda lhe acender a lareira no gélido janeiro. A velha ficou de cama, Leonor quis ajudar:

Mãe, vamos a casa da Amélia? Ela está com frio sozinha.

Tornaram-se amigas a refilona e a minha menina. Amélia contava-lhe histórias, ensinava-lhe a tricotar e nunca mais falou de sangue ruim ou abandono.

O tempo avançou. Leonor já tinha nove anos quando falou sobre a ponte. Era um serão calmo, eu a remendar meias, ela a embalar a boneca de trapos.

Mãe, lembras-te quando me encontraste?

Meu coração tremeu, mas mantive a pose.

Lembro.

Eu também lembro um bocadinho. Estava muito frio, e muito medo. Havia uma mulher que chorava e depois foi-se embora.

Deixei cair as agulhas. Ela continuou:

Não me lembro do rosto dela. Só da cor do lenço: azul. Ela dizia Desculpa, desculpa

Leonor

Não fiques triste, mãe. Só me ocorre às vezes. Sabes o quê? sorriu. Ainda bem que me achaste.

Abracei-a sem largar, com um nó na garganta. Tantas vezes perguntei quem seria? O que teria levado aquela mulher a abandonar uma filha? Talvez fome, talvez marido bêbado Não sou eu quem julga.

Aquela noite não dormi bem. Pensei a vida troca-nos as voltas. Achava que era condenada à solidão e afinal estava só a ser preparada para aquecer uma criança perdida.

Daí em diante Leonor quis saber do passado. Eu não escondia nada, só explicava com cuidado:

Sabes, filha, às vezes acontecem coisas demasiado pesadas. Talvez a tua mãe tivesse muito sofrimento, e foi obrigada a decidir.

E tu farias isso? perguntava ela nos olhos.

Nunca, garanti. Tu és o meu sol, a minha sorte.

Os anos passaram num instante. Na escola Leonor era primeira da turma. Corria para casa:

Mãe, mãe! Li um poema na aula, a professora Teresa disse que tenho jeito!

A Teresa, professora dela, falava comigo:

Maria da Cunha, a menina tem de continuar a estudar. Tem talento para línguas e letras. Já viu as redações dela?

Vai estudar para onde? Dinheiro nem para sardinhas

Eu ajudo-a, sem cobrar nada. Era um pecado desperdiçar talento assim.

E Teresa começou a orientá-la. Juntavam-se em casa à noite, mergulhadas nos livros. Eu levava chá e doce de ameixa, ouvia discussões sobre Camões, Pessoa e Eça de Queirós. O meu coração enchia, a minha miúda absorvia tudo.

No nono ano, Leonor apaixonou-se por um rapaz novo, filho de gente vinda para aldeia. Um drama, escrevia versos e escondia-os debaixo da almofada. Fingi que não via, mas senti o primeiro amor é sempre mais salgado que bacalhau.

Quando acabou a escola, leonor candidatou-se para filologia portuguesa. Dei-lhe tudo o que tinha de poupanças. Até vendi a cabra Matilde uma pena, mas foi o que era preciso.

Não faças isso, mãe, protestava Leonor. Como vais viver sem cabra?

Há batatas, há galinhas. O importante és tu.

Quando chegou a carta de aceitação, foi uma festa. O presidente veio felicitar:

És uma campeã, Maria! Educastes a filha, agora temos estudante cá da terra.

No dia de partida, esperei com ela na paragem de autocarro. Abraçou-me, chorou.

Escrevo todas as semanas, mãe. E venho nas férias.

Claro que escreves, ri, mas por dentro partia-se o peito.

O autocarro levou-a e eu fiquei ali, no meio da poeira. Clotilde juntou-se a mim, pôs a mão no meu ombro:

Vamos, Maria. Ainda há batatas por mondar.

Sabes, Clotilde, sou feliz. Os outros têm filhos de sangue, eu tenho filha de Deus.

Ela cumpriu a promessa escrevia sempre. Cada carta era uma romaria. Lia e relia, páginas decoradas. Escrevia sobre estudos, amizades, Lisboa. Mas nas entrelinhas sentia-se: saudades do lar.

No segundo ano conheceu o Diogo estudante de História. Mencionava-o en passant, mas mãe é mãe, percebe logo. Veio apresentá-lo no verão.

Rapaz trabalhador, prático. Ajudou-me com o telhado e a vedação. Fez amigos com o bairro inteiro. À noite, sentávamos na varanda, ele contava histórias ficava tudo suspenso. Dava para ver que amava a Leonor, não largava os olhos dela.

Quando Leonor vinha nas férias a aldeia reunia-se para ver que beleza de rapariga. Dona Amélia, agora já bem velhinha, benzia-se:

Ó meu Deus, e eu que fui contra quando a trouxeste! Perdoa a velha, Maria. Olha que bênção cresce aqui!

Leonor tornou-se professora, dá aulas numa escola de cidade. Ensina miúdos como a professora Teresa a ensinava. Casou com Diogo, vivem pacificados. Deram-me uma neta Mariana, que veio com o meu nome.

Mariana é igual à Leonor em pequena, só mais atrevida. Quando vêm visitar, descanso não há quer explorar, meter-se em todo o lado. E eu, deixo, feliz: casa sem riso de criança é como igreja sem sino.

Ora cá estou, escrevo no meu caderno, e lá fora o vento assobia. O soalho range, o choupo bate. Mas este silêncio não pesa; é paz gratidão por cada dia, cada sorriso da Leonor, pela sorte que me levou à ponte velha naquela noite.

Na mesa, a fotografia: Leonor, Diogo, Mariana. Ao lado, o velho xaile azul aquele em que embrulhei a miúda numa noite chuvosa. Guardo como um talismã. Às vezes afago, parece que o calor dos dias antigos regressa.

Ontem recebi carta Leonor vai ser mãe de novo. Esperam um rapaz. Diogo já lhe chama António, homenagem ao meu marido. Assim se faz família, assim se preserva memória.

A ponte antiga foi demolida, há uma nova, de cimento: firme. Já não passo por lá, mas quando cruzo, paro sempre. E penso: basta um dia, uma coincidência, um choro infantil numa noite de março, para mudar uma vida inteira.

Dizem que o destino nos ensina sobre solidão para valorizarmos quem nos rodeia. Eu creio o contrário prepara-nos para encontrar aqueles que mais precisam de nós. Seja sangue ou não, apenas importa o que o coração ordena. O meu não falhou, naquela noite debaixo da ponte velha.

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— És filha de quem, menina? ..— Deixa que te levo para casa, vais aquecer-te. Peguei-a ao colo e tro…