Riam-se do casaco gasto dela, até descobrirem a verdade
Em tempos idos, numa era em que os nomes das marcas e o brilho dos logótipos pareciam decidir o valor das pessoas, esquecia-se tantas vezes aquilo que realmente importa: o ser humano em si. Recordo-me bem daquela noite num elegante evento de beneficência realizado a portas fechadas no Ritz de Lisboa, um dos hotéis mais reputados da cidade.
O Salão Dourado resplandecia com o fulgor dos diamantes e das joias. Beatriz, envolta num vistoso vestido dourado, conversava animadamente com o seu acompanhante, Rodrigo, enquanto este degustava um copo de vinho do Porto de uma reserva rara. Entre risos e comentários dirigidos aos outros convidados, de repente, o seu divertimento cessou quando uma jovem chamada Matilde atravessou a porta. Chegara com um simples casaco bege, marcado pelo tempo e uns sapatos lisos, comuns e sem qualquer fausto.
Beatriz não disfarçou o desdém e logo se colocou no caminho de Matilde, analisando-lhe as roupas com olhos críticos e franzindo o nariz. Rodrigo, inclinando-se ao seu ouvido, não hesitou em comentar, num meio-tom completamente audível:
Será que esqueceram de avisar as empregadas onde é a entrada de serviço?
Beatriz então deu um passo mais à frente, com uma sobranceria escarnecedora:
Querida, a sopa para os necessitados serve-se a três ruas daqui. Vais estragar o encanto desta noite!
Matilde manteve-se serena. Fitava Beatriz nos olhos, sem desviar o olhar, e no seu silêncio havia mais nobreza do que em todo o brilho da sala.
Nesse instante, um senhor de idade, de fato impecável, dirigiu-se a passo rápido na direção delas era o Dr. Fernandes, diretor da fundação. Sem lançar sequer uma mirada a Beatriz ou Rodrigo, parou junto de Matilde e, com profunda deferência, inclinou a cabeça:
Dona Matilde Almeida! Pedimos desculpa, o seu avião particular chegou antes do esperado. O contrato da aquisição do grupo está preparado para a sua assinatura.
Por um momento, todo o salão ficou suspenso no tempo. O rosto de Beatriz perdeu toda a cor, a boca entreabriu-se, sem palavras, e o copo do seu precioso vinho do Porto escorregou-lhe dos dedos, partindo-se com estrondo no mármore.
Desfecho
Matilde, sempre tranquila, recebeu a caneta do assistente e, sem sequer tirar o velho casaco, rubricou o documento com uma assinatura firme.
Virou-se então para Beatriz, que mal conseguia suster-se nas pernas, e disse num tom baixo, mas gelado:
Aliás, Beatriz, a festa já não é tua. Acabo de adquirir este edifício e a empresa do teu marido. E a tua estética já não se adequa ao futuro. Segurança, por favor, acompanhem estes senhores até à saída.
Rodrigo e Beatriz ficaram imóveis, descrentes, enquanto os seguranças, com educação mas firmeza, os acompanhavam para fora do salão.
Moral: Nunca desprezes alguém pelo vestir. Por trás de um casaco velho pode estar quem, amanhã, terá o poder de decidir o teu destino.







