Ele sofreu um grave acidente de carro em que ficou seriamente ferido nas duas pernas. E tudo acabou…

Ele apanhou uma grande carga num acidente de carro, daqueles que mudam a vida. As duas pernas ficaram feitas em cacos. Pronto, acabou O bom emprego, aquele escritório no coração de Lisboa, onde já se falava dele para diretor-geral e um belo salário em euros. Viagens para a Serra da Estrela com a mulher, jantares à volta da mesa com amigos aos fins de semana tudo isso ficou em suspenso.

Juntaram-lhe as pernas como conseguiram e mandaram-no para casa. O que mais se podia fazer? Só restava rezar e esperar sorte. Ele ainda tinha esperança, mas de noite, quando os gritos de dor não davam tréguas, só as injeções, duas por dia de manhã e à noite é que deixavam o corpo descansar uns minutos.

Durante meses nem se podia levantar da cama, o vidro era a única companhia. Deus dê saúde à mulher dele. Quando começou a arriscar pôr-se de pé, sempre apoiado nas canadianas, as dores voltaram, dez vezes mais fortes.

Sabes o que são injeções na barriga para evitar tromboses e escaras, depois de tanto tempo deitado? Olha, digo-te já: é viver sem conseguir espirrar, tossir ou ir à casa de banho como antes. Tens de ter nervos de aço.

Mas a verdade é que nem nervos, nem forças lhe restavam já.

O tempo foi passando e, devagarinho, aprendeu a caminhar outra vez. Mal, a tropeçar e quase a cair em cada passo, mas pelo menos era progresso.

Nessa altura, os amigos desapareceram ninguém ligava, ninguém perguntava. No trabalho, arranjaram logo outro para o lugar de diretor. E como é que isto tudo ia terminar, pensava ele.

Imagina o estado de espírito… Perspetivas sem futuro, só a mulher é que ficou, graças a Deus.

Quando finalmente saiu à rua, acompanhado e debaixo de olho da mulher, o sol pareceu-lhe uma brutalidade nos olhos e, de repente, desatou a chorar. Sentiu-se um peso, um aleijado sem valor, de canadianas, e era só isso que restava da sua vida.

A mulher afastou-se para lhe dar um bocadinho de espaço, e ele, devagar, tentou dar uns passos. Ia-se habituando à luz, ao cheiro diferente do vento do início da primavera, quando olha para baixo e… um gatinho cinzento aparece, aos miados exigentes.

Que queres tu? perguntou ele, sem perceber nada de animais.

O gato não largou, só queria comida.

Sofia, amor, traz aí um bife para o bicho pediu à mulher.

Quando ela chegou, ele pegou na comida, dobrou-se com todo o cuidado e deu ao gato. O felino ficou a observá-lo, curioso, e só então atacou o manjar.

No dia seguinte, mal ele se preparava para mais umas passadas dolorosas, esperavam-no já três gatos. Devem estar cá há séculos, pensou ele.

Vocês são doidos! e sorriu-se, porque, nesse breve momento, a dor largou-o.

A mulher resmungou, mas lá trouxe três almôndegas para dividir. Ele distribuiu tudo, centímetro a centímetro, a torcer de dores.

Mais um dia e apareceram cinco gatos e duas cadelinhas minúsculas. A mulher ralhou com ele, mas ele insistiu: foi ao mini-mercado da esquina comprar um quilo de salsichas, que dividiu por todos, como se fosse um banquete.

Depois de comerem, os animais correram à volta dele, já a puxá-lo para a brincadeira. Ele entre enervado e divertido, mas deu-se ao luxo de caminhar mais uns metros. As cadelas riam às gargalhadas ou, pelo menos, ladravam de felicidade.

Um dia apareceu a chuviscar, logo a mulher prometeu esconder-lhe as canadianas, mas ele desceu as escadas sozinho pela primeira vez em meses.

Eles esperam por mim, amor. Não posso faltar-lhes tentou explicar.

E lá foi. Os cinco gatos e as duas cadelas faziam-lhe roda, e ele, finalmente, sentiu-se vivo. A chuva morna da primavera caía, e ele corria ou tentava atrás das pequenotas, com os gatos atrás.

Lá atrás, abrigada sob um chapéu-de-chuva, a mulher sorria para aquela cena.

O tempo continuou a passar. Primeiro ficou só com uma canadiana, depois sem nenhuma. E, de repente, deu-se conta: as pernas já há muito tempo que não doíam.

No antigo trabalho já ninguém o queria. Pagaram-lhe uma boa indemnização e despediu-se. Agora tinha todo o tempo do mundo e decidiu escrever tudo o que lhe tinha acontecido. Saiu-lhe uma peça de teatro, enorme.

Foi a vários teatros em Lisboa não quiseram saber. Mas num teatro popular, quase escondido numa cavezinha, ligaram-lhe passado uns dias.

Vamos avançar disse o encenador mas temos de aparar, mudar umas coisas.

Mês e meio de discussões, palavras para trás e para a frente, até marcarem estreia.

Na noite da peça, quinze pessoas na sala pequena. Nem meia lotação. Mas para ele eram os quinze mais importantes da vida.

Gelado de nervos, mal conseguia olhar para o público. Cai o pano, silêncio brutal, como se tudo tivesse desabado dentro dele mas passado um instante, uma ovação enorme, palmas de rasgar o ar. Os atores felizes quase não largavam o palco.

Na segunda sessão, casa cheia. Houve quem se sentasse nos corredores. Os aplausos eram tantos que o pano caiu, de tão insistentes.

O grupo de teatro mudou-se para a sala central da cidade, e ali reuniam-se agora os amantes da arte, em torno das peças da nova estrela.

Ele comprou um fato caríssimo, e a cada véu, subia ao palco com a mulher. Tinha de ser.

E se perguntas pelos bichos as duas cadelas e cinco gatos posso-te já dizer: ficaram com duas cadelinhas e dois gatos; os outros três gatos foram adotados por fãs.

E sobre o que é esta história? Se calhar nem é nada especial. Ou talvez seja sobre isto: quando tens à tua frente olhos cheios de esperança, já não consegues cair. Tens de resistir.

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