“Ele ou os gatos: o ultimato do marido, a decisão da Olga e como ajudei o Vítor a fazer as malas”

O meu querido marido, o Frederico, acabou por lançar aquele ultimato: Ou eu, ou os teus gatos. Pois olha, só tive foi de ajudá-lo a fazer as malas.

– Mais pêlo outra vez! Olha só para este casaco, Leonor! Fui ontem buscá-lo à lavandaria, e hoje parece que dormi num abrigo de gatos. Mas isto aguenta-se até quando?

Aquele tom do Frederico, sempre tão queixoso ultimamente, já nem incomodava, era quase habitual. A Leonor estava a virar umas panquecas na frigideira, suspirou fundo e desligou o fogão. Virou-se calmamente para o marido. O Frederico estava ali, no meio do corredor, de braços esticados segurando o blazer azul-escuro, onde realmente se viam uns fios brancos de pêlo.

– Frederico, para que tanto alarido? perguntou ela, ainda com o avental posto. – Eu já te pedi para não deixares roupa na cadeira da sala. O Simão adora lá dormir Se meteres logo no roupeiro, não apanha nada. Anda cá, eu limpo.

Pegou no rolo adesivo que estava sempre no móvel da entrada para estas situações, e limpou em dois segundos o casaco. Ficou impecável. Mas o Frederico não ficou mais calmo, até tirou o casaco do alcance dela, como se tivesse sido atacado.

– Não é dos roupeiros, Leonor! O problema é esta casa ser impossível de viver. Está tudo cheio desses teus… bichos. Se me sento no sofá, fico coberto de pêlo, não posso andar descalço no tapete. Chego a casa para descansar, não para andar aos saltinhos para evitar taças de ração e caixas de areia. Pareces que montaste um zoo aqui dentro!

Ela não respondeu. Limitou-se a sentir aquele nó de sempre no peito. A nossa casa, disse ele Aquele T3, bem espaçoso e cheio de luz, era dela, herdado da avó anos antes sequer de conhecer o Frederico. Quando ele veio de malas e cuia, só trazia um portátil e uma mala de viagem, há já cinco anos. E naquela altura, o Simão, um rafeiro grande cheio de pose, e a tímida tricolor Margarida já faziam parte do recheio e o Frederico até dizia que os gatos é que davam alma ao lar.

O encanto passou depressa e o convívio do dia-a-dia começou a revelar o verdadeiro Frederico um homem que queria tudo arrumado como um bloco operatório, e o foco todo virado para ele.

– Frederico, são só dois gatos lembrou Leonor, servindo-lhe um café. Eles já cá estavam antes de ti. São família.

– Família! riu-se, sentando-se à mesa. São animais, Leonor. Não passam de preguiçosos que só comem e dormem. Aliás, viste quanto andas a gastar com a comida deles? Ontem vi o talão que deixaste em cima da bancada: noventa euros por comida de gato! E depois dizes-me que temos de poupar para as férias.

– O Simão precisa mesmo dessa ração especial, sabes bem que tem problemas nos rins, disse ela, pousando a chávena à frente dele. E é do meu ordenado. Não toco no teu dinheiro para isso.

– É tudo do mesmo orçamento! e bateu com a mão na mesa, fazendo saltar a colher. Se gastas o teu em comida para gatos, depois não há para comprar o nosso peixe. Lá vou eu ter de ir às compras outra vez, fazer o papel do salvador Isto faz-se as contas, queres ver?

E foi aí que ela percebeu: aquele homem, que no início declamava poemas e lhe oferecia flores, estava agora irreconhecível, sempre amuado, sempre a bater no mesmo. Ela até entendia a ansiedade o departamento dele no banco tinha acabado de ser reestruturado, e o Frederico estava com medo de ser dispensado. Mas porquê descarregar tudo nela e nas pobres criaturas que só pediam colo?

Nesse momento, entrou devagarinho na cozinha o Simão. Enorme, com olhos verdes e pelagem de pelúcia, aproximou-se da dona e soltou um miado baixinho.

– Sai daqui! gritou logo o Frederico, batendo no chão com o pé.

O gato assustou-se, deu um salto para trás e, ao patinar no chão laminado, agarrou-se com as unhas às calças do Frederico. Ouviu-se logo o barulho do tecido a romper.

A sala ficou em silêncio. O Frederico olhou devagar para as calças. Ali, na perna, uma bela peúga aberta.

– Pronto, acabou. sussurrou ele, com uma voz gelada que deixou Leonor gelada por dentro. Chega, acabou a palhaçada.

Levantou-se, fazendo voar a cadeira. A cara corada, as veias no pescoço a saltar.

– Aguentei isto cinco anos! Aguentei cabelo de gato na sopa, cheiro a areia na casa de banho, correrias às três da manhã! Mas riscares-me a roupa?! Tenho de pôr um limite.

Leonor encostou as mãos ao peito, imóvel. O Simão escondeu-se rapidamente debaixo do sofá. A Margarida, que dormia calma no parapeito, ficou em sentido.

– Que limite, Frederico? sussurrou a Leonor.

– Ou eu ou esses bichos! – disse devagar, olhos cravados nela. Escolhe. Dou-te até ao fim do dia. Quero chegar a casa e não ver nem rasto deles. Dá-os à tua mãe, deita-os à rua, mete-os num canil, não quero saber. Mas comigo, nunca mais. Sou um homem, mereço respeito!

– Mas estás a falar a sério? Vais mesmo pôr-me um ultimato por causa disto?

– Não são só as calças! É a tua obsessão com esses animais! Preferes os gatos ao teu marido. Prova-me o contrário. Hoje à noite, logo se vê.

Agarrando na pasta sem sequer tocar no café, saiu batendo a porta, levantando até o calendário da parede.

Estava Leonor sozinha na cozinha. Levantou o calendário, pendurou-o no mesmo lugar. Sentou-se de novo e chorou. Não por tristeza, mas por frustração. Como é que alguém pode pedir que traías aqueles que só dependem de ti? O Simão, já velho, precisava de cuidados. A Margarida, medrosa, não sobreviveria um dia na rua.

Daqui a pouco o Simão espreitou debaixo do sofá, viu que o homem barulhento tinha ido embora e chegou-se à Leonor, apoiando-se nas pernas dela e ronronando alto, como um motor de barco. Ela agarrou-se ao felpudo do Simão:

– Vocês de cá não saem, ouviram? murmurou baixinho.

O resto do dia passou sem cor. Leonor ligou ao trabalho, inventou uma gripe e tirou o dia. Não conseguia pensar em mais nada; limitou-se a regar plantas, a arrumar coisas, a andar de um lado para o outro.

Recordou vezes em que o Frederico tinha dado um toque à Margarida, meses antes, só porque ela se atravessou no caminho. Disse que não viu, mas Leonor percebeu bem o gesto. Lembrou-se de quando ele proibiu a entrada dos gatos no quarto e dos miados sentidos encostados à porta.

Ao almoço, sentiu uma clareza fria, quase libertadora. O Frederico não estava só a ter uma birra, aquilo era o verdadeiro teste à relação. Quem está disposto a pôr-te contra um ser indefeso, amanhã fará igual com a tua mãe, ou contigo, se precisares de cuidados ou te tornares um empecilho.

Olhou para o relógio: quatro da tarde. Ele só chegava às sete. Tempo não faltava.

Foi buscar o velho Samsonite azul, o tal das férias no Algarve. Pousou-o em cima da cama, abriu o fecho até fazer barulho. Começou a arrumar tudo com método: fatos, camisas, calças, camisolas, meias, cuecas nos bolsos laterais. Passou pela casa de banho e enfiou na necessaire a escova, lâmina, o perfume chic.

Às seis, havia duas malas e um saco de desporto junto da porta. A casa parecia subitamente mais vazia, mas mais leve, como se alguém tivesse levado embora o peso morto.

Fez um chá de hortelã, pôs ração aos gatos, sentou-se no sofá a aguardar. O Simão aconchegado aos seus pés, a Margarida empoleirada a seu lado.

Às 19h15, ouve-se a fechadura. Leonor ficou imóvel. Ouviu-se a voz de Frederico:

– Então? Escolheste? Onde estão os gatos? Espero que, pelo menos desta vez, tenhas feito o correto.

Entrou de rompante e travou ao ver tudo igual. Leonor sentada, gatos nos seus postos. O Simão nem abriu os dois olhos.

– Não percebo, começou ele a alterar o tom, vermelho. Estás surda? Mandei escolher!

– Ouvi-te bem, Frederico. E já escolhi.

– Então onde estão eles?!

– No sítio deles. Quem tem de ir és tu. As tuas coisas estão no corredor.

Ele, pasmado, foi ver, tropeçou no saco e berrou:

– Isto só pode ser gozo. Eu?! Vais pôr-me a andar assim? Vais escolher gatos em vez de um homem? Eu sempre te mantive, Leonor! Ninguém vai aturar-te agora!

– A casa é minha, tenho emprego e ganho o suficiente, respondeu, contando nos dedos. E não vou mais lavar, cozinhar ou ser saco de pancada de ninguém. Agora sim, vou respirar.

Ai é? Logo vês o que é bom para a tosse! disse, ameaçador. Mas, de repente, o Simão levantou-se, arqueou-se todo e soltou um rosnar baixo. Frederico encolheu-se para trás, meio atrapalhado.

– Fica com os teus bichos. Vais acabar sozinha! e saiu da sala, arrastando as malas.

Deu mais umas voltas, a bramar, chegou a perguntar alto pelo portátil e pelos documentos. Leonor, muito calma, respondeu a tudo: Está na mala lateral, Os documentos estão na pasta, em cima das roupas. E pus também a tua caneca.

Aquilo irritava-o mais do que gritos. Queria confusão, lágrimas, portas a bater, pratos a voar. Em vez disso, foi remetido ao silêncio dela.

Por fim, bateu com a porta de entrada de tal forma que abriu eco nas escadas. Ainda se ouviu o trolley a bater nos degraus do prédio.

Leonor ficou ali, sentada, à escuta de si própria. Esperava sentir tristeza, medo, mas sentia-se só leve como quem largou um fardo enorme de uma vez.

O Simão veio aninhar-se nela. A Margarida trepou-lhe ao colo. Leonor sorriu, pegou no telefone, viu Frederico Amor a ligar, bloqueou de imediato e apagou o contacto. Fez antes um brinde a si própria: foi à cozinha, serviu um copo de vinho verde guardado do Natal e comeu uma sandes de queijo, sem pressas.

Sabia que o mais difícil ainda podia chegar: contactos, ameaças, discussões por bens embora tudo fosse dela, até a TV. O carro, sempre do Frederico, estava cheio de prestações por pagar. Mas isso já era preocupação para o futuro.

Por agora, era finalmente dona da casa de novo. Pendurou o blazer onde bem lhe apeteceu, deixou brinquedos dos gatos espalhados pelo chão, sem ninguém para reclamar.

Tocaram à porta outra vez, e Leonor sentiu um alívio um toque amistoso, breve. Era a D. Alzira, vizinha do lado, com uma travessa tapada.

– Leonorzinha, fiz um bolo de couve. Ouvi o barulho todo, o Frederico saiu a bufar. Foi de viagem?
– Não, D. Alzira sorriu, aceitando o tabuleiro . Mudou-se. Desta vez é definitivo. Sente-se, venha tomar um chá. Aqui agora está-se muito em paz e, sinceramente, com muita mais alegria.

A noite foi maravilhosa: chá, conversa, fatias de bolo, os gatos enrolados aos pés. Pela primeira vez em muito tempo, Leonor sentia-se realmente feliz e em casa. E percebeu: estar sozinha não é viver com gatos. Estar sozinha é viver ao lado de alguém que te despreza, e obrigar-te a trair quem realmente precisa de ti, só para agradar a quem nunca merece.

No dia seguinte, levou o Simão e a Margarida ao groomer. Agora sim, iam brilhar. Afinal de contas, foram eles os verdadeiros heróis que a ajudaram a varrer o verdadeiro lixo da vida dela.

Se ouviste isto até ao fim, obrigada por estares desse lado. Se esta história mexeu contigo, manda uma mensagem ou passa por cá para um café a porta está aberta.

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