Ela levou para casa o filho de outra mulher, tirando-o da maternidade para o salvar, mas dezoito anos depois, quem regressou das sombras do passado bate agora à sua porta, virando o seu mundo do avesso.
É uma manhã fria de novembro de 1941, e o vento assobia entre as ramagens despidas dos sobreiros, puxando o último restinho de calor da terra já gelada dos campos alentejanos. A estrada, uma vereda cheia de lama, mal permite que as rodas gastas do carro de bois avancem, com os buracos cheios de água gelada a travar cada metro.
Não vamos chegar ao hospital, esta estrada é um tormento! soluça Mariana Esteves, limpando as lágrimas dos olhos inflamados.
Vamos sim, Mafaldinha, vamos chegar! assegura o marido, Tomás Esteves, enquanto puxa as rédeas do velho burro, as mãos duras e doridas do frio.
Na carroça, deitada em cima de um manto de palha, a jovem mulher apenas se contorce de dor, silenciosa. Só pensa em ver-se livre do sofrimento, de libertar a criança e terminar com aquele suplício. Não bastava o destino ter voltado a pregar-lhes partidas a parteira de confiança partira uma perna e o enfermeiro da aldeia tivera de ir a correr socorrer uma criança doente.
Pensa na menina, na Leonor, e no teu marido murmura a mãe, acariciando-lhe a barriga.
Não penso noutra coisa, mãe, sempre penso neles.
Já decidiste o nome do bebé? tenta Mariana desviar a atenção da filha.
O Pedro disse que, se fosse menina, queria chamar-lhe Filipa. Se fosse rapaz, seria Vasco.
Belo nome, filha, lindo. O teu pai vai conseguir pôr-te na maternidade. Vê, lá ao fundo, já se veem as chaminés da fábrica e logo vira-se para a cidade!
Mal chegam ao portão do hospital de Évora, a mulher entra em trabalho de parto. Pouco depois, nasce uma menina frágil, que enche o recinto com o seu choro. Ao segurar a filha nos braços, Madalena sente as lágrimas da felicidade e o cansaço misturarem-se. De súbito, toda a dor parece pequena perante o calor imenso do amor.
Filipa. Assim te chamou o teu pai. Ele há de vencer todas as guerras e voltar para junto de nós. És a nossa esperança…
Com avidez, Madalena sente necessidade de escrever ao marido. Assim que a enfermeira leva a recém-nascida para o exame, pede papel e lápis à funcionária.
Espere, Esteves, eu já trago tudo o que precisa.
Mas a enfermeira, de semblante carregado, movimenta-se com brusquidão e fala com impaciência.
O que se passa? arrisca Madalena.
Não tenho tempo para a tua conversa, corta ela, secamente.
De volta ao quarto, Madalena encontra outra puérpera, adolescente, chamada Constança, a arrumar suas coisas.
Já lhe deram alta? surpreende-se Madalena.
Sim, saio hoje.
Constança tem nos olhos um abismo de tristeza, cada movimento no empacotar das roupas mostra resignação. Sai da sala arrastando os pés, como se lá deixasse um naco de si mesma. Dez minutos passam, e a enfermeira volta, empurra papel para Madalena e sai com violência.
Tão cedo libertaram aquela moça… mas mandam-me estar cá mais três ou quatro dias comenta Madalena.
Ela foi embora porque quis, deixou cá o bebé, sem ninguém para o ir buscar. Já se sabe, há raparigas que se metem com o primeiro idiota desabafa a funcionária, sem pudor.
Mas que teve, menino ou menina?
Menina. Forte, saudável. O que mais querem? E sai.
Madalena vê-se incapaz de concentrar-se na carta para o marido, a imagem da pequena abandonada não lhe sai da cabeça.
Trazem Filipa para a amamentação; depois a levam novamente. Ao passar perto de uma porta, ouve-se um choro fraco de bebé. Hesita, sente que é a sua filha a chorar. Entra de rompante e vê Filipa a dormir sossegada. Quem chora é outra recém-nascida.
Que está aqui a fazer? rosna uma ajudante de enfermagem de traços austeros.
Pensei que era a minha filha… talvez seja melhor chamar a mãe da menina que chora.
Não tem mãe. A rapariga foi-se embora, deixou-a. Ninguém a pega ao colo, ninguém há para dar de mamar. Vai embora, quando for hora levo a Filipa ao quarto.
Sai, mas não dorme nessa noite. Na manhã, o choro dói-lhe nos ossos.
Posso dar de mamar àquela menina? pergunta à funcionária.
Estás louca? Se te afeiçoas a ela, vai custar ainda mais pô-la no lar! Habituas o bebé à ternura, depois só encontra o frio dos estranhos.
No lar…? espanta-se Madalena.
Então, onde é que julgas que ficam as crianças sem mãe? responde-lhe como se ela fosse de pedra.
De rompante, Madalena vai ter com o médico-chefe.
Doutor António, posso falar consigo um instante?
Diz, Esteves, mas despacha-te, tenho doentes à espera.
É rápido… No berçário, está uma menina deixada pela mãe. Deixe-me levá-la para casa. Tenho leite, cuido dela, como cuidei da minha. No campo, sei cuidar de bebés.
O quê? A sério?
Estou decidida.
Ele pensa, fita-a e, após um instante, acena. Madalena sente uma onda de alegria e corre buscar a bebé, que geme baixinho sozinha no berço.
Tu de novo? Já disse que não podes… Mascara a nurse.
O doutor autorizou. Agora esta menina vai para casa comigo.
E, com doçura, Madalena pega a bebé, aconchega-a ao peito e sente a ternura inundar-lhe a alma.
Tudo há de correr bem, querida. Chamar-te-ei Benedita. Filipa e Benedita é isto que falta no mundo…
Decisão tomada. Ao chegar a casa, Mariana fica abismada.
Mas o que é isto, Madalena, gémeas?
Duas filhas, mãe. Benedita e Filipa.
Mas tão diferentes…
Não são gémeas iguais, mãe, são diferentes.
Ao menos assim não há confusão. Tomás, leva a tua neta ao colo!
Tomás sorri, embala a pequena Benedita.
Vais ser o mimo do avô!
Não abuses, Tomás! Meninas mimadas dão cabo de si!
Pois vê a Madalena, cresceu bem, não?
Porque não a mimámos! Vamos, entrem, antes que fiquemos aqui atolados.
No trajecto, param para Madalena pôr a carta na caixa do correio azul, contando ao marido no exército que nasceu uma filha e adotaram uma órfã. Não mentiu: achava justo. Família… Sabia como a mãe ia reagir: “Mais uma boca para alimentar”. Mas escondeu do pai…
Passam-se cinco anos. As meninas crescem saudáveis e felizes, ambas parte do coração de Madalena. Não recorda já que não deu à luz Benedita o sangue era secundário: criara, alimentara, amara, zelara por ambas. Nunca se arrependera. Os pais ajudavam no que podiam. Só faltava Pedro regressar da guerra. As cartas prometiam que vinha, ainda estacionado em Berlim.
Chega enfim o esperado dia. Um rapaz, Simão, a correr pela rua poeirenta, grita:
Soldado! Voltou soldado!
Era o rádio humano da aldeia, tinha olhos para tudo. A mulher, a lavar roupa ao fundo do quintal, deixa o balde e corre ao portão. Da curva aparece um homem alto, seco, de farda. O passo é o do seu Pedro. Coração aos pulos, Madalena atira-se-lhe ao pescoço.
Pedro! Meu querido!
Abraça-a, ergue-a do chão.
Voltei, Madalena, estou em casa.
Que vejam todos, regresses à nossa rua!
Leva-a nos braços. Riem, choram, entre os familiares e vizinhos, todos a rodeá-los.
Onde estão as minhas filhas?
Com o avô, no pomar de medronheiros.
O Tomás sempre a zelar pela horta!
Busca as meninas, que timidamente se aproximam. Pedro senta-se entre elas, abraça-as e sorri.
Venham cá… Minhas meninas. Venham conhecer o vosso pai.
E, por um instante, tudo está em ordem, toda a felicidade se manifesta ali.
Quinze anos depois, a vida dos Esteves mudou. Os pais de Madalena já faleceram. Pedro trabalha no município, Madalena está num armazém agrícola desde a juventude. Benedita e Filipa, agora com dezoito anos, ficaram na aldeia a cuidar da herdade, o pomar do avô.
Está na altura de pensar em casamento, Pedro. As raparigas são mulheres diz Madalena.
Ainda são crianças!
Já são mulheres feitas.
Tudo porque para Pedro, nenhuma nunca deixou de ser criança. Para ele, ambas eram iguais. Os pretendentes rondam: Simão pelo Filipa, e Benedita chama a atenção do tractorista Nuno.
Vamos ao pomar, pai?
Que parade aí? resmunga Pedro.
O pomar precisa de nós. Herdámos do avô!
Sabia Madalena: o pomar servia de refúgio para se encontrarem com os rapazes.
Filipa, vai levar a farnel à tia Brígida, sim?
Filipa parte, Benedita segue para o pomar onde Nuno provavelmente já espera.
Meia hora depois, gritos cortam o ar.
Mãe! Mãe! Lúcia chega em pânico Venham cá!
Pedro e Madalena saem, inquietos.
Que aconteceu?
Temos visita, aponta para o portão. Entra uma mulher elegante, vestido de cidade, sapatos de salto alto estranheza na aldeia.
Boa tarde.
Madalena reconhece nela algo, mas não identifica.
A senhora é?
Sou Maria Lopes.
Não me recordo…
Lembra-se do hospital, em Évora, novembro quarenta e um?
Sim…
Quero ver a minha filha.
Como disse?
A sua mulher nunca lhe contou que uma das vossas filhas não é vossa?
Contou! E nunca mentiu, ao contrário de certas pessoas…
Uma delas deve saber…
Não merece nada! Abandonou uma filha e vem agora tirá-la de mim? chora Madalena.
Eu era sozinha, tinha dezassete anos… fui para Lisboa estudar, engravidei, o meu pai expulsava-me se voltasse com uma criança. Por medo, deixei-a, mas nunca deixei de sentir a falta explica Maria, num fio de voz. Mais tarde descobri que não podia ter filhos; o meu marido arranjou outra, também me deixou. Agora encontrei forças e quis buscar a minha filha.
E julga que a rapta assim? Pedro levanta-se de rompante.
Mãe, pai… Filipa aparece, pálida. Quem é esta?
Ouviste tudo…? Madalena sente-se desfalecer.
Mãe, quem de nós é filha dela?
Benedita… sussurra Madalena.
Não saio daqui sem falar com ela impõe Maria.
É então que Benedita entra, de sorriso aberto. Quando compreende o que se passa, grita, chora, foge para o campo. Maria vai-se embora. O ambiente pesa de dor e silêncio.
No dia seguinte, Benedita desaparece. Deixa uma pequena carta a dizer que não é capaz de viver com quem a enganou toda uma vida.
Pedro, estou a morrer de saudades dela. Não aguento.
Ela há de voltar. Este não é o seu mundo… E ama-nos. O pomar foi sempre cúmplice delas. Ela voltará…
Nuno também anda de cabeça caída. Pedro decide: se ela regressar, terá todo o apoio para casar.
Mãe… surge Bendita atrás dos medronheiros. Mãe, estou de volta.
Filha, meu tesouro! Madalena salta e abraça-a.
Desculpem! Eu queria viver outra vida, mas percebi que era tudo uma ilusão. Aquele mundo não era meu, não havia ali afeto. Só aqui me sinto em casa, entre o jardim e as vozes que me viram crescer…
Agora é hora de casar, mulher! Vai, vai ter com o Nuno, que bem merece! ri Pedro.
Na semana seguinte, entre os medronheiros carregados de bagas rubras, celebram-se dois casamentos: Filipa com Simão, Benedita com Nuno. Vestidos brancos ondulam no meio vermelhão do pomar, como bênção dos céus. Maria Lopes nunca mais voltou. Benedita tenta apagar aquele episódio. Pois mãe é quem cria, quem chora, quem dá, quem sente todas as dores e alegrias. Esse amor ficou gravado para sempre no seu coração tão grande quanto o de Madalena, a mulher que sempre seria, para ela, a verdadeira mãe.







