— E o que é que conseguiste com esse teu lamurio? — perguntou o marido. Mas o que veio a seguir deix…

E achaste que resolvias alguma coisa com as tuas queixas? perguntou o meu marido. Mas o que se seguiu deixou-o sem chão.

Levantei-me hoje às cinco da manhã, como quem não tem alternativa quando o peito parece ser apertado por dentro. Sentei-me na beira da cama a olhar para Lisboa a despertar lá fora.

O coração disparava de maneira esquisita: dois batimentos, um vazio, três batidas, silêncio. Ontem, o médico foi claro: ataques de pânico. Deu-me referência para novos exames.

Em dezoito anos, deixei de ser a Lucinda determinada com diploma de economia para para quê, afinal? Passei a ser um acessório do negócio do António? Uma espécie de contabilista de faz-de-conta, a tratar da papelada e a assinar documentos por ele? Ou, em última instância, a mulher da casa, de esfregona na mão ao final do dia porque o António não se incomoda com o chão sujo?

Já acordaste? ouvimo-lo na cozinha. O rosto amarrotado, o tom já impaciente. Voltaste a não dormir, não foi?

Assenti apenas, em silêncio. Preparei-lhe o café, retirei do frigorífico o iogurte natural, que ele toma ao pequeno-almoço há mais de cinco anos.

Olha deu um gole no café hoje vou ao Porto. Três dias. Reunião com o fornecedor. Importante.

António.

Sabia que não devia começar. Já sabia como ele olharia para mim: aquele olhar de quem acha que eu estou sempre a lamuriar-me, a exigir dele um cuidado que não sente. Mas, mesmo assim, saíram-me as palavras:

Não vás agora. Não estou bem. O médico insiste que faça exames.

Parou. Pousou a chávena na mesa e soltou um suspiro pesado pelo nariz o típico de quem já se cansou de ouvir sempre o mesmo.

O que ganhas com o teu queixume, Lucinda? A voz quase calma, mais indiferença do que irritação. Eu preciso é de trabalhar. De trabalhar, Lucinda. Não de ouvir todos os dias os teus ataques, a tua fadiga, o quanto estás cansada. Quem é que não está?

Já juntava as coisas para a mala. Tudo automático, a contar que eu ficasse calada. Que engolisse o silêncio, a mágoa, convencendo-me que eu é que tinha dito tudo mal, no timing errado.

Mas, por algum motivo, não fiquei calada.

António levantei-me. Devagar, com serenidade diz-me uma coisa, lembras-te em nome de quem está o empréstimo da casa?

Ele virou-se e soltou um sorriso de escárnio.

Isso interessa para quê? Está nos dois nomes, suponho.

Está só no meu. Apenas no meu.

Senti o ar quase partir-se. Vi-lhe o rosto transformar-se.

O que queres dizer com isso?

Lembras-te, há oito anos, quando comprámos esta casa? Tinhas dívidas. E não eram poucas. O banco nunca te teria aprovado crédito. Recordas-te?

Silêncio.

Pois. O crédito está em meu nome. A casa também. E, para além disso, sou tua fiadora nalgumas contas da empresa. Sem a minha assinatura, não renova, não amplia nada. Nada.

Ele sentou-se de novo. Devagar, como se as pernas lhe falhassem.

Porquê essa conversa agora?

Só para te lembrar. E mais abri a gaveta e tirei uma pasta. Coloquei-a à frente dele. Sei da Filipa.

António olhava para a pasta.

Ficou sentado, estático, a cara vazia, como se tivesse levado uma chapada, mas sem dor ainda só a cabeça a andar à roda.

Da Filipa repeti. A voz simétrica, calma, estranhamente firme e distante. Da contabilista do teu amigo Mauro. Bonita rapariga, por sinal. Doze anos mais nova do que eu.

Abri a pasta. Retirei folhas. Mais uma. E outra. Coloquei em leque à sua frente, como cartas num daqueles velhos casinos do Estoril.

Movimentos das tuas contas. Os que tentavas esconder. Vês estas transferências? Quarenta mil. Cinquenta. Setenta. Todos os meses.

Silêncio.

E isto é a tua troca de mensagens acrescentei as impressões. Achaste mesmo que eu não sabia a tua palavra-passe do computador do escritório? António, fui eu que a escolhi, há três anos, quando te esqueceste da antiga.

Ele agarrou nos papéis, leu ràpidamente. Empalideceu.

Onde foste buscar isto?!

Tem importância? servi um copo de água para mim. A mão tremia, mas pouco. O que interessa é outra coisa. Andaste a desviar dinheiro por ela. Quer ver se a Autoridade Tributária vai gostar desse roteiro?

António levantou-se a gritar.

Achas que te permito isto?! Quem és tu afinal?! Sempre dependeste de mim! Nunca ganhaste nada! Sempre foste uma sombra!

Sombra? sorri com amargura Palavra engraçada. Não será antes a sombra que assinou os teus contratos com os bancos? A sombra que fez toda a contabilidade enquanto andavas às reuniões? A sombra em nome de quem está esta casa e todos os créditos?

Estás a ameaçar-me?!

Não fui até à janela. Só estou a pôr-te a par dos factos. Porque, claramente, esqueceste-te do básico.

Virei-me.

Nos últimos seis meses revalidei o meu diploma. Fiz cursos profissionalizantes à noite, entre ataques de pânico e insónias. Tenho uma proposta de emprego. Não é luxuoso, mas chega para arrendar um apartamento e cuidar de mim e da Inês.

Inês?! sobressaltou-se. Vais tirar-me a filha?!

E viste sequer a Inês este mês? aproximei-me. Diz-me, quando foi a última vez que falaste realmente com ela?

António calou-se. Porque não sabia responder.

Peguei mais um documento da mesa.

Relatório do neurologista. Esgotamento nervoso crónico. Ataques de pânico. Recomendações: mudar de ambiente, psicoterapia, eliminar fatores traumáticos. Vês esta linha? “Situação de stress prolongado”. Sabes o que isso significa para ti?

Lucinda.

Que se pedir o divórcio, o tribunal vai precisamente olhar para isto.

Coloquei o último papel.

O principal: sem a minha assinatura, em uma semana não renova a linha de crédito. O Mauro ligou-me ontem. O banco exige documentação. E só a minha assinatura serve.

António voltou a sentar-se, desfeito.

O que queres? A voz rouca. Dinheiro?

Ri-me, baixinho, quase sem som.

Dinheiro? António, quero respeito. Só isso. Quero, finalmente, que assumas: sem mim não tinhas nada disto. Nem negócio. Nem casa. Nem essa tua bendita viagem de negócios à qual davas tanta importância.

Peguei na mala.

Tens até ao final do dia. Eu e a Inês vamos para casa da Teresa. Pensa bem. Quando estiveres pronto para conversar, liga-me. Só que não esperes encontrar a mesma Lucinda calada de antes.

Seis horas passaram até ele ligar.

Na cozinha da Teresa, bebia chá de erva-príncipe. Sentia-me estranhamente leve, como alguém que finalmente emergiu de uma lama pesada, limpando o rosto, nem acreditando que respirar é fácil outra vez.

Sim? atendi. Voz firme. Sem tremor.

Preciso de falar contigo.

Ouço-te.

Não ao telefone. Pausa. Vem a casa.

Ri-me.

Não, António. Se quiseres falar, vem até aqui. Lembras-te da morada?

Veio passado uma hora. Zangado, tenso, olhar de quem foi encostado à parede e agora tenta resistir.

A Teresa, percebendo o ambiente, levou a Inês para o quarto. Fiquei sozinha na cozinha.

Como te atreves?! António bateu com o punho na mesa. Estás a chantagear-me?!

Não. Só disse os factos.

Que factos? Roubaste-me papéis! Espiaste-me! Mexeste no meu computador!

António suspirei achas mesmo que atacar-me ainda é boa estratégia? Depois de tudo o que te mostrei?

Calou-se. Porque eu tinha razão.

Escuta bem. Inclinei-me para a frente. Não quero destruir-te. Não quero escândalos públicos nem envolver as finanças. Quero apenas que entendas: sem mim, não tens nada.

Queres divórcio? perguntou num fio de voz.

E tu, queres?

Ele desviou o olhar. Fez-se silêncio. Depois suspirou:

Com a Filipa, aquilo não foi nada.

Não me interrompas. Levantei a mão. Sei da Filipa há seis meses. Das transferências. Dos encontros em “reuniões” metade falsas. Sabia e calei. Porque acreditei: pode ser que passe. Pensava que voltavas para mim.

Sorri, com amargura.

Ou talvez tivesse era medo de aceitar que o nosso casamento acabou há uns cinco anos e nós fingíamos estar bem.

Lucinda.

Cansei de viver ao lado de quem me vê como um acessório. De quem desvaloriza tudo o que eu digo ou peço. De quem nem reparou que me estava a afundar com ataques de pânico e noites em branco!

António estava lívido, punhos cerrados.

Tens escolha continuei. Podemos tentar recomeçar, sem mentiras nem traições.

Ou vais embora e lavas as mãos de tudo.

Não. Abanei a cabeça. Só levo o que é meu. A casa. A minha parte na empresa. Pagas tu os créditos que ficaram em meu nome. Eu refaço a minha vida.

Levantei-me, sinal de que terminava ali.

Tens três dias. Quando quiseres conversar, liga-me. Mas lembra-te: aquela Lucinda que tudo aguentava ficou para trás, às cinco da manhã de ontem.

Uma semana depois voltou a aparecer.

Desta vez vinha sem arrogância, trazia só o vazio por dentro. Sentou-se na cozinha da Teresa, olhou para as mãos.

O Mauro disse-me que sem tua assinatura, o banco não renova o crédito murmurou. A empresa pára.

Assenti.

Sei disso.

Então… o que pretendes?

Olhei para ele.

Quero o divórcio.

António empalideceu.

Estás mesmo decidida?

Como nunca. Servi-me de chá. As mãos não tremiam. Nada. Assino no banco, facilito a renovação. Mas só com uma condição: o divórcio. Civilizadamente, sem escândalo. Ficas com a empresa, compras a minha parte. Fico com a casa. A Inês fica comigo.

Lucinda.

Está decidido, António. Sorri. Curiosamente, foi a primeira vez em muitos anos que dormi sem comprimidos. Dormi mesmo. Sem ataques.

Ele não respondeu.

E fez-me perceber muita coisa. Não estou doente. Não preciso de tratamento. Só tinha de sair daqui, de largar uma vida em que não valia nada.

Levantei-me.

Escolhe. Ou aceitas e terminamos isto em paz. Ou vou ao tribunal, apresento tudo, e não perdes só a empresa. Decide-te.

António baixou a cabeça. Sabia que perdera. Aquela mulher a quem sempre chamou fraca era mais firme do que ele.

Está bem disse por fim. Aceito.

Três meses depois, divorciámo-nos de forma oficial.

Fiquei com a casa e um valor justo pela minha quota na empresa. Arranjei novo trabalho.

António ficou com o negócio, outra casa. E com um estranho sentimento de vazio que nunca o largava. Sobretudo ao fim do dia, quando percebia que não tinha com quem partilhar sequer o silêncio.

A Filipa, curiosamente, foi-se embora um mês depois do divórcio. Descobri que, afinal, ela só procurava conforto. E quando percebeu que o António já não podia dar-lhe vida fácil, perdeu todo o interesse.

Fiquei a saber pelo Mauro. Sorri. Não senti absolutamente nada. Nem satisfação, nem pena.

Nada mesmo.

Às vezes penso: afinal, valerá a pena ajudar no negócio do marido? O que acham?

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