E logo havia de dar à Aninhas para ter o bebé no meio de uma tempestade de neve! Ainda faltavam três semanas pelo calendário, quem sabe a tempestade amainava, vinham as geadas e dava para ir à maternidade com calma. Mas não, tinha de ser mesmo agora!

E quem havia de dizer que a Mariana ia dar à luz em plena tempestade de neve! Ainda faltavam três semanas para o prazo, podia ser que até lá o tempo acalmasse, viesse o frio seco, e lá se podia ir ao hospital sem contratempos. Mas não, foi agora que o bebé decidiu vir ao mundo!

Na verdade, não foi ela quem decidiu, mas sim aquele que vivia dentro da Mariana. O rapazinho apressou-se, a barriga já estava pequena demais, e que lhe importava que a tempestade durasse há quase uma semana? Não era da conta dele.

Com este tempo, nem um tractor conseguia passar pela aldeia. As estradas estavam tão atulhadas de neve que por vezes se afundava até à cintura. E a neve teimava em cair, parecia até que no céu tinham rasgado um saco de farinha. Se espreitasses à janela, só vias branco, tudo a rodopiar no ar. Se tivesses de ir ao quintal, nem conseguias abrir os olhos o vento gélido batia em cheio na cara e logo vinham os flocos cegarem tudo.

E foi nesta tempestade que o pequeno decidiu nascer.

Desde manhã que Mariana se sentia estranha: ora era uma dor nas costas, ora um peso que a obrigava a deitar-se, mas depois nem se ajeitava na cama e logo levantava para andar de um lado para o outro. A sogra reparou logo na sua inquietação:

Ó Mariana, estás a preparar-te para ter o bebé? Porque é que andas aí feita barata tonta?

Não sei, mãe, estou é ansiosa, não me sinto bem.

Dá cá essa barriga.

A sogra nunca percebeu muito dessas coisas de partos, hoje em dia vai-se tudo para o hospital, há médicos para isso, as parteiras já são coisa do passado, já ninguém aprende dessas artes. Agora, na aldeia, restava só uma, a dona Rosa. Nos tempos da mãe dela, ainda eram três a atender partos.

Isto parece que já desceu, Mariana. O bebé quer nascer.

Mas como nascer, mãe? Ainda é cedo!

Isso já não é connosco, filha, quem decide é Deus.

Lá vieram as lágrimas aos olhos de Mariana. Era o primeiro filho, não sabia o que esperar, e ninguém lhe explicava nada. A sogra só tinha tido um filho, e isso foi há mais de vinte anos, já nem se lembrava de nada.

Mariana, vou chamar a dona Rosa. Deixo já o balde ao lume, quando a água ferver, apaga. Se tiveres força, vai buscar toalhas limpas, lençóis. Sabes onde está tudo, vai preparando. Mas não te afadigues muito, se custar, deixa estar. Quando eu tive o António, a dona Rosa dizia sempre que era para andar de um lado para o outro e respirar fundo. Assim abre-se mais depressa, dizia ela completou, atando o xaile. Pelo caminho passo pela tua mãe, a dona Teresa, e chamo-a também. Aguenta-te, miúda, a dona Rosa percebe disto, é conhecida em toda a região. Sempre que alguém tem filhos, querem-na a ela. É boa pessoa.

Dito isto, a sogra vestiu-se, pegou no cabo da enxada para se apoiar e saiu, enfrentando a tempestade.

Mariana ficou sozinha em casa. Ficou ainda mais assustada. E se o bebé começasse a nascer mesmo agora, sem ninguém por perto? Como é que a sogra ia conseguir chegar no meio daquela neve? E se a mãe não aparecesse? Mas porquê não havia de vir?

E principalmente: o que devia ela fazer? Só sabia que tinha de andar e respirar fundo. Mas respirar fundo quando a dor te atravessa e não te deixa puxar ar?

Ah, se o António estivesse consigo, a fazer-lhe uma festa, a dizer que ela era capaz e que estava ali se fosse preciso! Por causa da tempestade, ficou preso na cidade, não havia autocarro, não havia estradas. Ele nem sonhava que estava quase a nascer o filho ou a filha dele. Ai, como doem as costas!

Entretanto, a mãe entrou literalmente aos tropeções, coberta de neve.

Filha! Marianinha! A tua sogra disse-me que estavas para ter o bebé!

Sim, mãe.

Então pronto, filha. Trouxe-te umas bagas secas para fazer infusão. Depois bebes um bocadinho de compota. Vou pôr água a ferver…

Passou-se uma hora e chegaram a sogra e a dona Rosa. A parteira, uma velhota franzina mas vivaça, examinou rapidamente a Mariana e disse:

Vai ser para o amanhecer.

Para o amanhecer? espantou-se Mariana Ainda nem era meio-dia quando comecei com dores ontem!

Oh menina, isso eram só os sinais a avisar, às vezes vêm dias antes. Agora é que já está a começar a sério, mas ainda só vai em meio dedo. Não te afobes, amanhã já cá tens o teu bebé. Eu vou a casa.

Fique cá, dona Rosa, suplicou Mariana A senhora é a única que percebe disto, só com a senhora é que me sinto mais calma.

A velha, que já vira nascer mais de cem crianças, ficou com pena da menina:

Está bem, fico por cá. Quando a mãe está calma, o bebé também vem melhor.

Mariana não sabia que os avisos eram como as flores da primavera: alegres, mas de pouca dura. Depois vinham as «flores» a sério, e para essas ela não estava nada pronta.

A dor era como se lhe rasgassem tudo por dentro, nem respirar conseguia, nem mexer as pernas. Não tinha forças para se levantar, não aguentava ficar deitada, já não sentia nada além da dor.

A sogra com a dona Teresa não sabiam o que fazer, só andavam de um lado para o outro, aflitas sem poder ajudar. Dona Rosa mandou-as passar-lhe a ferro a roupa, para não estarem a incomodar.

Já era noite quando tudo acalmou. Dona Rosa voltou a ver como estava: já ia em quatro dedos. Ia devagar, era o primeiro filho, o caminho ainda não estava feito, era difícil para o bebé. E para Mariana era tão duro que não havia palavras. Não tinha mais forças. Aproveitou uma pausa das dores para comer qualquer coisa. Dona Rosa mandou-a dormir, precisava de se fortalecer.

A tempestade, essa, parecia só piorar.

Acordou Mariana às quatro da manhã, tudo escuro, e ao lado dela a dona Rosa a ressonar.

Meu Deus, ajuda-me, sussurrou ela, olhando para os santos Que o bebé nasça depressa.

E tudo recomeçou. Dores tão fortes que só via escuridão. Dona Rosa acordou num salto, examinou a barriga: ainda cinco dedos. Estava a demorar, mas para primeiro é normal. Vai aguentar.

Quando amanheceu, já Mariana estava de rastos, a camisa colada ao corpo, os olhos toldados, o cabelo em desarranjo.

Falta muito pouco, disse a parteira o bebé já está quase cá.

Vovó, ajuda-me, gemeu Mariana vovó, ajuda, vovó!

Mariana, filha? assustou-se a mãe Quem é que chamas? A vovó já cá não vem, deves estar a sonhar? explicou à sogra, desde pequenina que só chamava pela bisavó, nunca dizia avó, era só vovó. A bisavó Zélia sempre gostou mais da Mariana do que dos outros bisnetos, foi a primeira bisneta, só teve filhos homens e adorava-lhe a graça.

Mariana, já se vê a cabecinha. Aguenta-te, força aí mais essa vez. Assim, olha… Puf-puf-puf, e respirava a parteira para lhe dar força.

Gritou Mariana com o que lhe restava, empurrou, tentou respirar, voltou a gritar.

Vovó, ajuda-me, não aguento, suspirou e o bebé saiu para as mãos enrugadas da dona Rosa.

Talvez, pensou ela, este seja o último bebé que ajudo a nascer sorriu à nova vida. Deu o bebé para o colo da Mariana:

É um rapaz, Marianinha, um rapaz sussurrava-lhe vê só que filho bonito tens. Traz voz bem forte, vai ser chefe, isto cheira-me.

Mariana chorava de alegria, beijava as mãos minúsculas do bebé. Como caberia tamanha maravilha dentro de si? Que pena o António não estar ao lado, para ver o filho deles, o mais bonito do mundo.

Martim, meu Martim, sussurrava.

Martim? admirou-se a sogra Só ontem disseste que se fosse rapaz era para ser Duarte!

Mas vê-lo, mãe! Só pode ser Martim! Martim António, sorriu Mariana.

Dona Rosa terminou o trabalho, já estava cansada. Apesar da alegria de trazer uma nova vida, deixa o corpo cansado. Agora também ela precisava descansar, só que ainda tinha de enfrentar a tempestade até casa.

Mariana adormeceu com o filho nos braços, a mãe também já se despedia para ir a casa, ainda não lá tinha ido nesse dia e meio. Pôs o xaile até aos olhos, despediu-se baixinho da sogra, e saiu.

Reparou que a tempestade estava a abrandar. Já só caía uma neve miúda, talvez até parasse de todo. Era bem capaz do genro voltar já amanhã. Ia quase a chegar a casa quando lhe ocorreu:

«Vou passar pela vovó Zélia, dar-lhe a boa notícia. Pode ser que precise de alguma coisa, embora na semana passada ainda lhe tenha levado pão. A vovó Zélia sempre come muito pouco.»

A bisavó do marido, e trisavó da Mariana, vivia duas casas ao lado, velhinha, já ia quase nos noventa e três. Sozinha há muitos anos, mas nunca quis mudar-se teimosa e agarrada à sua casa, ainda cuidava dela quase sem ajuda, mas os netos estavam sempre por perto.

A muito custo abriu a porta do quintal, parecia que o António tinha vindo ontem, a enxada estava encostada. Limpou o caminho até à porta, varreu o alpendre, entrou em casa.

Vovó Zélia! Vovó Zélia! gritou, batendo os pés no soalho para sacudir a neve. Tinha de gritar, a velha ouvia mal. Vovó Zélia, sou eu, a Teresa, vim ver como está.

Ninguém respondeu, dormia a velhota. Que pena, não queria acordá-la. Tirou o casacão, descalçou-se, entrou no quarto e…

Viu a avó deitada na cama, com as mãos cruzadas no peito, toda vestida de limpo. Aquilo chamou-lhe logo a atenção, nunca tinha visto a Zélia com aquele vestido, o lenço era branco e novo. A mulher aproximou-se, limpou as lágrimas dos olhos, fechou-lhe as pálpebras.

Olhou para a mesinha de cabeceira: uma foto da Mariana, ali ao lado da imagem de Santo António e um toco de vela.

Obrigada, vovó, por ter ajudado a minha Mariana. Já nasceu o Martim. Sabia que ela lhe ia pôr o nome. Mas a vovó já sabia disso tudo, não era? beijou-lhe a face enrugada obrigada, minha querida…

E assim se aprende que, mesmo na maior tempestade, a força das mulheres e a união da família encontram sempre o caminho certo para trazer a vida ao mundo. E, às vezes, quem já partiu continua ao nosso lado, dando a força que precisamos, mesmo que só no silêncio do coração.

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E logo havia de dar à Aninhas para ter o bebé no meio de uma tempestade de neve! Ainda faltavam três semanas pelo calendário, quem sabe a tempestade amainava, vinham as geadas e dava para ir à maternidade com calma. Mas não, tinha de ser mesmo agora!