Sempre pensei que o meu marido enviava a pensão às três filhas do casamento anterior. Descobri que não era bem assim. Fui descobri-lo pessoalmente.
Durante meses, acreditei piamente que o meu marido cumpria os seus deveres de pai para com as filhas do primeiro casamento. Sempre que lhe perguntava pelas três meninas, ele jurava a pés juntos que tudo estava em ordem e que transferia o dinheiro todos os meses, certinho como um relógio suíço. Mas algo cá dentro não me deixava sossegada… uma vozinha a sussurrar que era melhor verificar.
Numa terça-feira, aproveitei que ele estava a trabalhar, peguei na morada que encontrei num velho papel da separação e atravessei Lisboa de uma ponta a outra. O bairro era pobre, nada a ver com o nosso. Antes sequer de sair do carro, já sentia que o ambiente ali era outro.
Bati à porta e apareceu uma mulher exausta a ex-mulher dele, mãe das três raparigas.
Sim? perguntou ela, desconfiada.
Olá. Sou a atual esposa do teu ex-marido. Precisamos de conversar.
O rosto dela endureceu num instante, mas depois suspirou e deixou-me entrar. A casa estava impecável, mas quase vazia. Móveis mínimos, conforto nem vê-lo. Nota-se logo quando alguém faz das tripas coração para sobreviver sem grandes luxos.
O que queres? cruzou os braços, olhos na defensiva.
Quero a verdade. Ele diz-me que vos manda o dinheiro todos os meses mas prefiro ouvir de ti.
Ela riu-se, mas com amargura.
Dinheiro? Não vemos um cêntimo há mais de um ano. Só vivemos do meu ordenado de empregada de limpeza e a ajuda da minha mãe. O pai delas esqueceu-se de que existimos.
Senti o chão fugir-me dos pés. Nesse momento, apareceu uma das meninas devia ter uns sete anos. O rosto cansado, cabelo despenteado, as mangas da roupa gastas e com uns buraquitos.
Mãe, tenho fome sussurrou ela.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Eu ali, habituada à casa grande, cheia de tralhas e mordomias, e aquelas crianças a contar os trocos para um pão.
E as outras duas meninas? perguntei baixinho.
Estão na escola. Chegam daqui a uma hora.
Ótimo disse eu, já com a decisão tomada. Vai buscá-las. Vamos todas às compras.
O quê? Não, não posso aceitar isso
Não estou a pedir-te autorização interrompi-a, tranquila mas firme. Isto não é caridade. É o que elas deviam ter recebido há muito.
Fomos ao centro comercial ali perto. Comprei roupa, sapatos, casacos e material escolar para as três. Ver-lhes as carinhas a brilhar ao vestirem as coisas novas, aqueles sorrisos rasgados apertou-me o coração e curou-me ao mesmo tempo. Para a mãe, comprei o essencial: roupa, champô, coisinhas dessas que fazem falta e ajudam uma pessoa a sentir-se gente.
Não sei o que dizer sussurrou ela, olhos marejados. Obrigada.
Não agradeças. Isto é só o início.
Quando voltei a casa à noite, ele estava na sala, descansadíssimo em frente à televisão, como se não tivesse meio mundo a depender dele.
Onde estiveste? perguntou, nem desviando os olhos do ecrã.
Fui conhecer as tuas filhas. As tais que dizes que sustentas.
Empalideceu logo. Saltou do sofá como se tivesse sentado no formigueiro.
Eu posso explicar
Não quero explicações cortei, sentindo uma raiva gelada Quero que faças as malas. Agora.
O quê? Esta casa é minha!
Não. Esta casa está no meu nome. Comprada com o meu dinheiro, da minha herança. Quero-te fora. Já.
Por favor, fala comigo
Disse para pegares nas tuas coisas. Se não fores tu, trato eu disso.
Fui ao quarto, peguei nas malas dele e comecei a enchê-las com as roupas. Ele atrás de mim, a pedir mil desculpas, mas a minha decisão estava tomada. Quando terminei, pus tudo no jardim em frente a casa.
Amanhã contacto a advogada avisei-lhe logo à porta Vou tratar de garantir que cumpres o que deves às tuas filhas, nem que tenha eu de pagar cada cêntimo àquelas meninas.
Ficou ali no meio das tralhas, pequeno e perdido.
Fechei a porta e encostei-me, a tremer dos pés à cabeça. Foi a decisão mais difícil e ao mesmo tempo mais fácil da minha vida.
Terei feito bem ao pô-lo a andar na hora, ou devia ter-lhe dado oportunidade de se explicar?







