Durante 35 anos fui presidente da Comissão de Avaliação de Incapacidades e retirei rigorosamente o estatuto de invalidez a quem tinha capacidade para trabalhar. Orgulhava-me de proteger o dinheiro do Estado português

Durante trinta e cinco anos, fui presidente da Comissão de Avaliação de Incapacidades (CAI) no Porto e, com uma mão de ferro, retirava subsídios a quem eu achava que ainda podia trabalhar. Eu tinha um orgulho danado de como defendia os tostões do Estado. Mas, quando o meu marido foi apanhado de surpresa por um AVC e as minhas colegas, com um sorriso de Monalisa, lhe recusaram fraldas geriátricas dizendo: Ó Dona Odete, ele ainda mexe o braço esquerdo!, percebi que tinha sido a fiel pastora de uma máquina que despreza os velhos e os fracos.

Em Portugal, ter acesso à reforma por invalidez não é questão de ter diagnóstico: é uma maratona de papeladas, exames, laudos e resistência a humilhações. Eu era o último muro e, meu Deus, pouca gente passava!

Chamo-me Odete Graça. Tenho sessenta e oito anos. Até ao ano passado, era presidente da CAI no Porto, onde me passaram pela mão milhares de pessoas sem pernas, cegos, doentes oncológicos, diabéticos de tudo o que é tipo e feitio.

Tinha fama de ser de aço a dama de granito, como diziam à socapa. Sabia todas as artimanhas, todas as encenações. Topava logo quem queria uma reforma choruda só para ter descontos na EDP ou ganhar uns 200 euros a mais no mês.

A missão, passada pelo Ministério, era simples: cortar despesas ao Estado. Quanto menos beneficiários, mais prémios para a direcção da comissão. Até davam pulseirinha dourada de excelência.

Cheguei a tirar benefícios a quem já nem dedos tinha na mão. Olhava bem nos olhos e dizia:
Ainda tem outra mão. Pode trabalhar nos CTT, atender telefonemas. O Estado não paga para ver televisão. Tira-se o escalão 2 e damos o 3, que é para trabalhadores. Próximo!
Negava fraldas e cadeiras de rodas importadas a mães de crianças com paralisia cerebral, assinando aquelas nacionais que mais pareciam meio de tortura ambulante.
Ó dona Conceição, são as regras. O nacional não é pior, só é diferente. Aguente-se.

E eu dormia de consciência tranquila. Achava-me defensora dos cofres públicos. Óptima reforma, respeito dos chefes, um Clio azul do Estado a uso e uma casinha nos arredores de Gaia.

Até ao dia em que a tragédia bateu à porta.

Pumba. Um AVC. O meu Toninho, com sessenta e nove anos. Era rijo, bem disposto, engenheiro de fábrica toda a vida. Planeávamos reformarmo-nos juntos, comprar um quintal em Ponte de Lima, aturar os netos.

Um verão debaixo do sol no Douro e, zás, caiu redondo AVC isquémico, tamanho familiar.

Fui a correr para o hospital de São João. O médico nem olhou para mim:
Dona Odete, a senhora percebe como isto é. Lado direito parado. Sem fala. Sem engolir. Ele sobrevive, mas prepare-se para adaptações a sério.

Um mês depois, trouxe Toninho para casa. O meu homem robusto era agora uma criança presa num corpo de adulto. Passava os dias de olhos no tecto, com saliva ao canto da boca e um olhar que me atravessava como uma seta.

A minha vida virou um inferno: voltas na cama de duas em duas horas, mudar fraldas, dar puré de cenoura com seringa, insónias e uma coluna arrasada. Em dois meses, caí dez quilos e fiquei a saber o nome de todas as marcas de creme para escaras à venda na farmácia.

O dinheiro evaporava como água no Tejo. A pensão do Toninho ia para a empregada, quando eu tinha de ir à CAI, e para os remédios. Precisávamos do escalão máximo de incapacidade. Precisávamos da Programação Individual de Reabilitação (PIR) para lhe garantirem cama articulada, colchão anti-escaras e as tais fraldas do Estado.

Reuni os papéis todos e lá fui à CAI. À minha antiga comissão. Mas agora, do outro lado da secretária.

Quem comandava era a Irene, minha fiel ex-subordinada. Certinha e implacável ensinada por mim!

Levei o Toninho numa cadeira de rodas das antigas, daquelas que range mais que carro dos anos 80.

Irene olhou por cima dos óculos. Nada de pena, só aquele brilho de calculadora exactamente o que via no espelho durante três décadas.

Aproximou-se do Toninho, pediu-lhe para levantar o braço esquerdo. Lá o fez, devagar, a tremer.
Ora, Dona Odete, está a ver? Já mexe o braço. Há progressos. Reflexos estão. Menos mal!
Irene, ele faz xixi nas calças! Não fala! Onde é que vê progresso? Precisamos do escalão máximo e do colchão, já está com feridas!
Irene soltou um suspiro e o sorriso paternalista.
D. Odete, sabe como são as regras. O escalão máximo é só para quem não levanta nem pestana. O Senhor António consegue trazer uma colher à boca. Ou seja, ainda se auto-assiste, nem que seja um bocadinho. Vai grupo 2.

E as fraldas? já gaguejava eu. Preciso de cinco por dia! Com a nossa reforma, não dá!
O Estado assegura três fraldas por dia para o grupo 2, e o colchão ainda não está justificado. Devia ter evitado as escaras, não é? O orçamento do ministério não estica. Aprendeu comigo, lembra-se? Próximo!
Chapéu.

Empurrei o Toninho para fora. No corredor, dezenas de pessoas. Velhos de bengala. Carecas da quimio. Mães com filhos em cadeiras barulhentas. Todos horas à espera para convencer umas senhoras engomadas de que dói. Querem só um bocadinho de sossego para sobreviver.

Olhei para eles. E lembrei-me de todos. O veterano da guerra que não dei direito a prótese alemã (com a nacional já pode ir da cama à sala). Saiu a chorar. A doente oncológica que pôs segunda categoria pode coser para fora, o cancro hoje já trata, dona Felicidade! e morreu dois meses depois.

Percebi, então, que não estava a poupar dinheiro público. Estava a roubar dignidade a quem já nada tinha para roubar. Era uma porquinha das engrenagens de uma máquina sádica, feita para humilhar quem precisa.

E agora a máquina triturava-me a mim.

Ajoelhei-me diante do Toninho, ainda naquela cadeira de rodas cigana, no meio daquele corredor sufocante. O Toninho, o meu homem que já me ergueu ao colo para eu limpar janelas, estava ali, com a baba no queixo. Não dizia nada. Mas o olhar dele E aquela lágrima solitária. Sabia perfeitamente foi descartado. Quarenta anos a descontar para o Estado, e agora nem uma fralda extra lhe davam.

Perdoa-me, Toninho! rebentei em pranto, encostada aos joelhos dele. E peço perdão a todos. Meu Deus, perdoa-me

No dia seguinte, pedi a reforma antecipada. Recusei a pensão de ex-funcionária pública e saí porta fora, sem olhar para trás.

Vendemos o nosso Clio para dar ao Toninho a cama que merecia e um colchão importado. As fraldas pago eu do meu bolso.

Mas ainda fiz mais. Hoje, trabalho de graça. Tornei-me advogada dos incapazes. Todos os dias vou com os velhotes às comissões e conheço cada decreto, cada manigância e circular que eles escondem nas gavetas.

Sempre que outra dama de granito tenta negar fraldas a uma avó depois de um AVC, eu ponho a cópia da lei na secretária e ameaço com o Ministério Público. Consigo para eles cadeiras, medicamentos, talões para termas. Bato-me com as armas deles.

O Toninho nunca mais se levantou. Os médicos dizem que não aguenta muito.

Mas cada vez que arranco uma primeira categoria para um avô paralisado, chego a casa, sento-me ao lado do Toninho, pego-lhe na mão e sussurro:
Hoje salvámos mais um, Toninho.
E parece-me que, por uns segundos, ele até sorri.

Vivemos num país onde velhice e fragilidade são tratados como pecado. Mas, um dia, esse sino toca para todos. Nenhuma carreira, nenhum QI a dar palpites nos cafés, te salva de um AVC ou de um cancro.

Se hoje recusares compaixão a quem caiu, amanhã não te admires se a máquina te atropelar a ti sem esboçar cara de pena.

E você? Já sentiu na pele a frieza dos papéis e carimbos quando precisou de apoio? Acredita que a maldade é das pessoas ou é o sistema que arranca a humanidade de quem tem um pinguinho de poder?

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