Dona Vera, posso entrar? – um dos seus adjuntos ficou parado à porta do gabinete da directora da fábrica.

– Dona Mafalda, posso entrar? hesitou na porta do gabinete da diretora da cooperativa um dos seus subdiretores.
– Claro, Rui António, entre acenou com um gesto profissional Mafalda. Então, como vão as coisas hoje?
– Como assim, as coisas? Onde?
– No setor de produção.
– Ah, no setor. No setor está tudo nos conformes. Porquê?
– Ora essa! Se veio falar comigo, imagino que seja sobre algum assunto de trabalho, não é?
– Bem, na verdade, preciso mesmo lhe pedir um favor respondeu Rui, franzindo ligeiramente o rosto.
– Um favor? Mafalda fitou o subdiretor com atenção e abanou a cabeça. Ai Rui António, ultimamente não tenho gostado muito do seu ar.
– Ultimamente?
– Sim. Anda sempre cabisbaixo, com ar de quem carrega o mundo às costas. Está tudo bem em casa?
– Olhe suspirou Rui, derrotado. Dentro de pouco tempo, se não me ajudar com uma certidão, estará tudo menos bem.
– Certidão? Mafalda franziu o sobrolho. Agora deixou-me ainda mais baralhada. Que papel é esse?
– Eu sei que parece estranho Rui inflamou-se, baixando a voz. Mas não há alternativa. Preciso mesmo duma declaração, para a minha esposa.
– Desculpe? O ar de Mafalda ficou incrédulo. Uma declaração? Para a sua esposa? Em que sentido?
– Uma declaração a dizer que entre nós dois nunca existiu qualquer relação. Nem nunca houve nada.
– Nada quê?
– Relação íntima. Daquelas entre homem e mulher o tom de Rui ficou vermelho, quase infantil.
– Ficou maluco, Rui António? Mafalda empalideceu, de olhos arregalados Ou está a brincar comigo?
– Infelizmente, não é brincadeira nenhuma. Mas é mesmo desta declaração, assinada e carimbada por si, que depende o futuro da minha família. A minha mulher meteu na cabeça que somos amantes.
A diretora ficou alguns segundos de boca aberta, depois falou baixinho:
– Ela está boa da cabeça? Pedir esse tipo de documento ao marido?! Nunca vi tal coisa, nem nos filmes mais rebuscados.
– Eu sei, acredite! quase implorou Rui. Mas não consigo fazer nada. Temos filhos pequenos, percebe? E ela disse-me que, sem um papel desses, pede o divórcio, leva-os com ela e vai viver para a casa da mãe no Funchal. Sabe onde é? Fim do mundo. Por favor, Mafalda, escreva a tal declaração.
– Ouça lá, Rui António! Mafalda ainda mal acreditava. Como é que a sua mulher foi inventar tal ideia acerca de nós? Nunca nem sequer cruzámos fora do trabalho E não há hipótese de encontrá-la batom nas suas camisas!
– Pois Rui tirou o telemóvel do bolso, procurou uma foto e mostrou à diretora. É que ela viu isto. Desde aí, não quis mais saber de explicações.
– E então? Mafalda olhou para a foto, onde estava toda a administração da cooperativa. Tenho uma igual! Foi depois de sermos todos homenageados pelo presidente da Câmara.
– Exato murmurou Rui. Mas estou ao seu lado e pus-lhe a mão no ombro.
– Porque estávamos todos apertados e tínhamos de caber na fotografia!
– Pois Mas repare como inclina a cabeça na minha direção. A Ângela diz que só as mulheres apaixonadas fazem isso.
– O quê?! Mafalda sentiu-se ofendida. Que disparate! A sua mulher está a ver coisas. Inclinei-me porque o ramo de flores que a Sofia segurava tapava-me a cara!
– Passei horas a explicar-lhe tudo, mas quanto mais explicava, pior ela ficava. Sinceramente, sem a tal declaração, estou perdido. Palavra de honra.
– Isto não se faz! voltou Mafalda a indignar-se. Tem medo da sua mulher assim ao ponto de precisar disto?
– Tenho, sim sussurrou Rui, baixinho mas audível. Pelos meus filhos faço tudo. Não conseguiria viver sem eles. Compreende?
– Que horror resmungou Mafalda, puxando uma folha lisa. Enfim Se é mesmo preciso Diga lá o que quer que escreva.
– Ok Rui engoliu em seco. Escreva: Eu, Mafalda Alexandra da Conceição, declaro que não suporto o meu subdiretor Rui António.
Mafalda arregalou os olhos, mas ele soltou um gesto apressado:
Escreva mesmo assim. Não suporto. Acrescente: e até o detesto.
– Detesto?! exclamou Mafalda. Mas como assim, detesto?! Não conseguiria trabalhar consigo se o detestasse!
– Então escreva: detesto-o como homem. Nunca me deitaria com ele nem que me oferecessem um milhão de euros. Agora assine e ponha o carimbo, se faz favor.
– O carimbo está na contabilidade respondeu Mafalda, por hábito, enquanto relia uma última vez e se horrorizava.
– Mas isto é completamente absurdo! protestou por fim, dobrando a folha ao meio, rasgando-a e tornando a rasgar, determinada.
– O que está a fazer?! assustou-se Rui. Preciso desse documento!
– Sabe que mais, Rui António Mafalda deixou um sorriso estranho escapar. O melhor é divorciar-se mesmo da Ângela. Antes que seja tarde demais.
– Desculpe?! Não posso! Ela vai levar os meus filhos. De certeza.
– Não leva, não senhor continuou Mafalda a sorrir. Conheço um advogado excelente, com muita experiência nestas coisas. Ele garante que fica com eles pelo tribunal.
– Mas eu
– E se for preciso interrompeu ela ajudo-o pessoalmente a cuidar deles.
– A senhora? Ajudava-me? Mesmo?
– Claro. Tenho estima por si enquanto colega e ajudo, sim. E ainda consigo arranjar uma ama cinco estrelas. Vai ficar descansado.
– E a Ângela?
– Deixe a Ângela ir para o Funchal para junto da mãe. Ou então, que venha falar comigo. Conversamos olho no olho, como deve ser. Isso vale mais que qualquer papel idiota com assinatura e carimbo.

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Dona Vera, posso entrar? – um dos seus adjuntos ficou parado à porta do gabinete da directora da fábrica.