Dona Vera, posso entrar? – à porta do gabinete da diretora da fábrica hesitou um dos seus adjuntos.

Dona Margarida Lopes, posso entrar? à porta do gabinete da diretora da fábrica, parou um dos seus adjuntos.
Entre, Manuel Carvalho, faça o favor acenou ela de forma eficiente. Então, conte, como vai tudo hoje?
Depende, tudo onde?
Na secção, claro.
Ah, na secção. Por lá está tudo em ordem. Por alguma razão?
Como assim, por alguma razão? Se veio ao meu escritório, suponho que é para tratar de algum assunto, não?
Pois, na verdade venho pedir-lhe um favor, Dona Margarida Manuel suspirou, franzindo a testa.
Um favor? A diretora fixou o olhar naquele homem, sempre de bom trato, e abanou a cabeça. Ó Manuel, há uns tempos para cá anda estranho… Está algum problema em casa?
Digamos que se não me ajudar, vai mesmo haver um problema sério em minha casa… suspirou ele, muito aflito. Preciso de um documento da sua parte.
Um documento? Margarida ficou alerta. Que documento é esse?
Olhe, precisa mesmo de ser… Manuel fez uma expressão de desespero. É um atestado. Para a minha mulher.
O quê?! O rosto de Margarida alongou-se de espanto. Um atestado? Para a sua mulher? Em que sentido?
Um atestado em que confirme que nunca houve… que nunca tivemos qualquer tipo de relação, para além do trabalho.
Como assim, Manuel?
Relação íntima… Manuel ficou encarnado. Como homem e mulher.
Mas está a brincar comigo, ou ficou doido de vez? Margarida, por sua vez, ficou pálida. O Manuel só pode estar a gozar!
Quem me dera fosse brincadeira… mas desta papelada, com a sua assinatura e carimbo, depende o destino da minha família. A minha mulher está convencida que somos amantes.
A diretora ficou imóvel, a boca aberta, e por fim perguntou com cuidado:
Está a dizer-me que a sua mulher exige um atestado destes? Isso nunca ouvi… nem nos filmes vi coisa assim.
Eu bem tento explicar-lhe tudo! desabafou Manuel. Mas não resulta. A minha mulher diz que se não trouxer esse papel, pede o divórcio e leva os miúdos todos com ela para o Porto, para casa da mãe. O Porto, imagine! É como se fosse o fim do mundo… Por isso, por favor, faça-me este favor. Peço de coração, Dona Margarida.
Mas, Manuel! Margarida não acreditava que aquela conversa era real. Afinal, porque é que a sua mulher mete na cabeça que entre nós houve algo? À exceção das reuniões, nem nos cruzamos!
Por isto aqui… Manuel tirou do bolso o telemóvel, procurou uma foto e mostrou-lha. A minha mulher viu isto e perdeu a cabeça.
O quê? Isto? Margarida olhou para a fotografia em que estavam todos os elementos de direção da fábrica. Também tenho essa foto. Foi naquele evento de reconhecimento do município…
Exato, respondeu Manuel com um sorriso amarelo. Mas estávamos lado a lado e pus a mão no seu ombro.
Porque não cabíamos todos na fotografia, Manuel!
Pois, mas repare na sua cabeça. A Mariana diz que só mulheres apaixonadas se apoiam assim no peito de um homem!
Que disparate! Os olhos de Margarida brilhavam de indignação. A sua mulher não percebe nada. Apoiei-me porque a Teresa, ao meu lado, segurava um ramo de flores que me tapava a cara!
Jurei-lhe que foi isso, Dona Margarida, mas quanto mais eu tentava explicar, pior era. Só este atestado poderá resolver.
Mas isto não é maneira de viver! exclamou Margarida. Então não tem voz em casa?
Não tenho mesmo… sussurrou Manuel, só para que ela ouvisse. Pelos meus filhos, faço o que for preciso. Não consigo viver sem eles, compreende?
Que situação lamentável… murmurou Margarida, pegando numa folha branca. Pronto, já que precisa, vamos lá ao atestado. Diga o que devo escrever.
Escreva: Eu, Margarida Lopes, certifico que o meu adjunto Manuel Carvalho me é insuportável.
Margarida ergueu os olhos, admirada, mas ele fez-lhe sinal para continuar.
Sim, sim, insuportável. E até ponha: Aliás, odeio-o.
Como assim, odeio?! protestou Margarida. Isso não tem jeito nenhum. Não podia trabalhar com alguém que odeio!
Então escreva: odeio-o… como homem! E completando: nunca dormiria com ele, nem por um milhão de euros. Assine e coloque o carimbo, para ficar oficial.
O carimbo está na contabilidade, disse ela, maquinalmente, relendo em seguida o papel, horrorizada.
Isto é um absurdo pegado! declarou, em tom decidido. Depois dobrou a folha ao meio, rasgou-a, depois outra vez, e outra.
Mas o que faz?! soltou Manuel, alarmado. Eu preciso desse papel!
Ouça bem, Manuel… Margarida sorriu-lhe, de repente, com um ar estranho. Mais vale separar-se logo da Mariana, para não acabar pior.
Não posso… Ela leva-me os filhos, de certeza.
Isso não é verdade, assegurou ela, com um sorriso confiante. Conheço um advogado ótimo, vai ajudá-lo. Vai garantir que os meninos ficam consigo.
Mas eu…
E se for preciso, atalhou Margarida, eu própria ajudo na educação dos seus filhos.
A senhora? Ajuda-me? Mesmo?
Claro! Aprecio-o muito como adjunto. Sei de uma excelente ama, ficará muito satisfeito.
E a Mariana?
Que a Mariana vá para o Porto, para junto da mãe. Ou se quiser, que venha aqui falar comigo, de mulher para mulher. Uma boa conversa entre nós vale mais do que mil papéis carimbados.
No final de contas, aprendi que às vezes a insegurança só se vence com diálogo honesto. Onde falta confiança, nem todos os carimbos do mundo conseguem salvar uma família.

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