Dois anos depois do divórcio, reencontrei a mulher que um dia me fez perder o fôlego: Monica, a minh…

Já tinham passado dois anos desde aquele dia, e agora encontrei-a de novo. Uma mulher bonita caminhava à minha frente na Rua Augusta, e ao vê-la o meu coração quase parou. Nela reconheci a minha ex-mulher, Inês, aquela que fazia os homens virarem a cabeça.

Depois do casamento, já não reconhecia a minha mulher. Tornou-se numa daquelas mulheres que andam sempre com o cabelo oleoso apanhado e camisolas enormes. Deixei de a ver com vestidos que realçavam o corpo ou com roupa interior delicada.

Após o casamento, a minha mulher passou a usar em casa aquelas sacas t-shirts imensas. Desleixou-se completamente. Já não ia à manicure, raramente se maquilhava. Muito menos fazia exercício, e a barriga flácida depois dos partos nunca desapareceu, nem a celulite também

Nos dois anos em que vivemos juntos, transformou-se completamente. Foi engordando, as t-shirts eram cada vez maiores. Quando lhe sugeria que estava na altura de se olhar ao espelho, ofendia-se e ficava dias sem me falar.

Dei por mim, algures nesse tempo, a perceber que estava apaixonado pela Inês de antes do casamento, mas agora vivia com alguém completamente diferente. A Inês antiga era apaixonada, divertida, linda, todos os meus amigos me invejavam e perguntavam como a tinha conquistado. Com todas estas mudanças, percebi que já não sentia interesse, não me inspirava, e quando olhava para ela sentia só tristeza.

Lembro-me da última vez, estava ela de t-shirt cinzenta manchada de leite, calções largos por onde se via a celulite nas pernas e sem se ter depilado. O cabelo apanhado num carrapito desfeito, com fios a sair para todos os lados. E uma tristeza constante no rosto, para não falar das olheiras fundas.

Nessa noite, disse-lhe que já não conseguia continuar. Disse-lhe que só sentia tristeza e pena, não amor.

Passaram dois anos e voltei a cruzar-me com ela. Uma mulher bonita atravessou a rua junto à Praça do Comércio e o meu peito apertou-se. Reconheci nela a minha ex-mulher Inês, aquela que fazia todos olharem para trás. Trazia um vestido bonito, o cabelo encaracolado solto. Agora estava elegante outra vez, ela tinha deixado de ser aquele patinho feio para voltar a ser uma rainha. Uma rainha que criou os nossos dois filhos.

Por algum motivo, só nesse dia percebi que a minha mulher nunca teve realmente tempo ou energia para cuidar de si própria. Ela dedicava tudo a fazer da nossa casa um lar, a criar os nossos filhos. Eu deixei de olhar para ela, não fazia ideia de quanto esforço colocava em tudo isto e nunca compreendi porque não cuidava dela mesma.

Quando ficava uma ou duas horas sozinho com os gémeos, esgotava-me. E ela carregava-os todo o dia, ainda fazia as limpezas, cozinhava e encontrava tempo para estar comigo. Claramente, no meio de tantas responsabilidades, não havia tempo para ir à manicure ou ao ginásio. E eu devia ter entendido que o corpo dela precisava de recuperar do parto, não era justo exigir-lhe que fizesse imediatamente exercício.

Nunca íamos a lado nenhum onde ela pudesse usar as suas jóias ou vestidos bonitos, e usá-los só em casa devia ser desconfortável Foi culpa minha não lhe dar oportunidades para se arranjar.

Só dois anos depois consegui olhar à distância e perceber que, durante todo esse tempo, ela carregou a família às costas sem nunca me censurar, sempre me recebeu bem quando chegava do trabalho e nunca me guardou rancor. Criou um lar para eu voltar e só percebi isso quando já era tarde. Bastava que eu tivesse colaborado mais cedo, que a tivesse ajudado, para que ela pudesse cuidar de si própria.

Fui um verdadeiro idiota por ter perdido um tesouro sem me dar conta disso. Estava tão convicto da minha razão que nunca liguei realmente à vida dela nem à dos nossos filhos e, assim, destruí tudo.

Agora olho para ela e quero-a de volta, mas não sei se alguma vez poderá perdoar aquilo que lhe fiz. Vou tentar falar com ela, tentar redimir-me, pelo menos para poder acompanhar os meus filhos, porque já perdi dois anos da vida deles
Hoje, a minha ex-mulher tem muitos admiradores, mas não deixa nenhum aproximar-se verdadeiramente. Ao que parece, fui mesmo eu que a magoei mais do que alguém podia. E agora, não sei o que fazer com esta vergonha e este peso na consciência, depois de me aperceber do erro que cometiAproximei-me, com o coração nas mãos, e chamei suavemente por ela. Inês olhou-me, serena, e sorriu com uma calma antiga. Nos seus olhos, já não havia mágoa só uma distância cortês, do género que se cria quando se constrói um novo mundo sem o outro. Os nossos filhos correram para mim, rindo, e durante aquele abraço entendi finalmente tudo o que tinha perdido: não apenas uma mulher, mas a família e a vida inteira que ela, sozinha, sustentou nos dias mais difíceis.

– Estás bem? – perguntei, tentando disfarçar a voz embargada.
– Estou. E tu?
Assenti, sem coragem para confessar que não estava. Que talvez nunca tivesse estado, sem ela.

Virei-me para os miúdos, segurei-lhes as mãos, e naquele instante percebi que pedir perdão era só o início. O verdadeiro desafio seria merecê-lo, todos os dias. E era tarde demais para voltar ao passado, mas talvez ainda houvesse tempo para ser diferente no futuro.

Enquanto ela se afastava com os nossos filhos, o sol desenhava sombras douradas na calçada. Vi-a rir, livre, dona de si, e senti gratidão por tê-la amado, mesmo que não soubesse cuidar. Ela caminhava à frente, e eu atrás, reconhecendo agora quem sempre iluminou o caminho da nossa família.

Ali, no fim da Rua Augusta, entendi que o amor é frágil, mas a responsabilidade de amar é interminável. Era o momento de crescer não para reconquistá-la, mas para ser o homem que falhei em ser. Por ela, pelos nossos filhos, e, finalmente, por mim próprio.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Dois anos depois do divórcio, reencontrei a mulher que um dia me fez perder o fôlego: Monica, a minh…