Diagnóstico: traição

Diagnóstico: traição

As coisas entre vocês já vão tão a sério, não é? insistiu Dona Graça, fitando a futura nora com aquele olhar penetrante, de quem não aceita rodeios. E a boda, quando é que planeiam o casamento?

Acho que ainda não é o momento, respondeu Margarida com um sorriso forçado, escolhendo cuidadosamente as palavras para não magoar a futura sogra. Estamos a viver juntos há só um mês. É melhor esperarmos mais um pouco, para conhecermo-nos melhor… Quem sabe, se logo começamos a pegar-nos por tudo e por nada?

A sobrancelha de Dona Graça ergueu-se num gesto desconfiado, mas ela recusou deixar o interrogatório. A verdade é que Margarida até lhe caía bem muito melhor do que a anterior namorada do filho. Aquela Beatriz, sempre arrogante! Ainda bem que o Gonçalo acabou com aquilo.

E como é que vai o Dioguinho? sondou Dona Graça, mudando de assunto, mas sem tirar os olhos de Margarida. Já está crescido, mas ainda assim…

Ao ouvir o nome do filho de Gonçalo, Margarida sentiu o peito aquecer. Lembrava-se bem do receio dos primeiros dias: E se ele não a aceitasse? E se a visse como ameaça, a querer substituir a mãe?

Ele é fantástico, respondeu ela, desta vez sorrindo de verdade. No início estava nervosa, pensei que o Diogo pudesse olhar-me de lado ou ser frio. Mas, pelo contrário, correu tudo bem! Ele é um miúdo mesmo aberto e simpático.

Houve uma pausa breve. Margarida recordou-se de quando o rapaz chegou a casa, todo elétrico, experimentou a tarte de maçã e logo garantiu que, dali em diante, nunca lhes faltaria comida de verdade.

Mais ainda continuou Margarida, divertida ele diz às claras que agora quem manda na cozinha sou eu, que cozinho melhor do que o pai. Às vezes até me pede para lhe ensinar umas receitas.

Gonçalo, que até ali ouvira calado, levantou os olhos e acenou, confirmando as palavras. No rosto dele, surgiu um sorriso quase imperceptível, de quem também gostava do rumo que as coisas tomavam.

E já te pediu um mano? alfinetou Dona Graça, carregando no tom sugestivo.

Gonçalo, ouvindo isto, fez uma careta e lançou-lhe um olhar aborrecido: Outra vez?, lia-se nos olhos dele. Conhecia de cor os modos da mãe, que nunca hesitava perante temas delicados, como se não percebesse que tal podia incomodar.

Oh, qual é o problema? Dona Graça manteve-se firme, a voz animada, quase brincalhona, como se discutisse a chuva. O Diogo adora crianças, está sempre a brincar com os primos. E tu, com trinta e cinco anos, ainda tens tempo de sobra para dar-me uns netinhos!

Margarida sentiu o rubor subir pelo pescoço e apertou os dedos sob a mesa para controlar a ansiedade. Era doloroso pôr-se a falar de um tema tão pessoal com alguém que praticamente acabara de conhecer.

Temo que isso esteja fora de questão, respondeu, cuidando que a voz saísse calma. Os médicos são categóricos: dizem que não devo ter filhos.

Por um segundo, o silêncio pairou, denso. Dona Graça ergueu as sobrancelhas, a máscara afável apagada do rosto, substituída por um ar frio e distante.

Problemas femininos, não é? arrastou as palavras, com falsa compaixão e um toque de superioridade. Mas olha, hoje em dia já se resolve quase tudo. A medicina está avançadíssima

Margarida suspirou, um pouco cansada. Queria que o assunto morresse ali, mas sabia que, com aquela sogra, só ficaria pior se se calasse. Olhou de soslaio para Gonçalo, na esperança de ser salva, mas ele apenas encolheu os ombros, como quem diz: Desenrasca-te.

No meu caso não há volta a dar, murmurou, fixando um ponto à frente. Era estranho ter de explicar-se àquela mulher, mas calar-se só iria atiçar mais perguntas. Tenho problemas graves de visão. Descobri aos dezoito anos, já tive tempo de me habituar: nunca poderei ter filhos.

Dona Graça ficou parada, genuinamente baralhada, como quem tenta decifrar um sonho absurdo.

E o que é que uma coisa tem a ver com a outra? inclinou a cabeça, realmente curiosa Não percebo.

Margarida sorveu o ar e tentou simplificar:

Há noventa por cento de hipótese de eu ficar cega. Uma gravidez seria um esforço demasiado perigoso para o meu corpo! Não vale o risco. Que sentido faz ter um filho que eu nunca verei?

Por uns momentos, a tensão era palpável. Margarida endireitou os óculos, sentindo necessidade de deixar claro que aquilo não era um capricho, nem coisa de vaidade feminina: era uma ameaça real à sua saúde.

A desilusão de Dona Graça era quase visível, a energia dela desaparecida. Nem tentou arranjar mais conversa, limitando-se a olhares furtivos, pouco amigáveis. Ali, a nora desqualificava-se para aquele papel de escolhida ideal. Na mente da mãe, provavelmente via uma mulher forte e saudável, pronta a enchê-la de netos.

Mas Margarida não sentia culpa. Ela e Gonçalo tinham já discutido isto, pesaram todos os prós e contras, falaram com médicos, pesquisaram até tarde, conversaram abertamente. O risco era demasiado, e nenhum queria passá-lo. Fosse preciso, pensariam em adotar ou procurar barriga de aluguer. A vida já permitia essas coisas.

Quando a visita terminou e regressaram a casa, o ambiente alivou. Dona Graça despediu-se com um abraço ao filho, acenou seco a Margarida, num ritual de quem segue etiqueta mas pouco mais. Ao calçar os sapatos, Margarida cruzou o olhar de Gonçalo: no dele lia-se um silencioso desculpa.

Ao saírem, ambos respiraram fundo, o ar vespertino pareceu-lhes mais fresco que nunca. Margarida agarrou-lhe a mão, e Gonçalo respondeu logo, apertando os dedos num gesto de cumplicidade. Não era preciso falar: sabiam que o encontro correra mal. Mas isso não mudava o que tinham decidido ficar juntos, apesar das pressões dos outros.

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Três meses mais tarde.

Margarida começou a notar-se diferente. No início não ligou: seria cansaço do trabalho, uma constipação ligeira, talvez. Mas o mal-estar não passava. Acordava enjoada, os cheiros comuns tornavam-se insuportáveis, sentia-se sempre mole e exausta, mesmo sem grandes esforços.

Tentou tudo: comprou medicamentos na farmácia, bebeu mais água, deitou-se cedo. Sem resultado. Até no emprego se distraía e ao fim do dia só queria cama.

Certa noite, ao telefone com a mãe, não resistiu a desabafar. Falava num tom abafado, o cansaço a pesar-lhe nos ombros.

Margarida, perguntou a mãe, depois de breve silêncio, tens a certeza de que não estás grávida?

Margarida ficou surpreendida. Calou-se, pensou, depois respondeu convicta:

Absoluta. Nunca falhei uma pílula. Foram receitadas pelo médico, sigo tudo à risca.

A mãe não insistiu mais, mas a dúvida ficou no ar:

Só por descargo de consciência, faz um teste. É melhor ter a certeza.

Margarida ia protestar, mas algo na voz da mãe fê-la calar-se. Que custava confirmar?

Está bem, mãe. Vou agora à farmácia. O Gonçalo ainda está a trabalhar.

Apanhou o casaco e saiu. A farmácia era logo ali. Andou depressa, como quem tenta fugir de pensamentos. Será? Mas como, se estava tudo controlado?

Parou diante da prateleira dos testes, baralhou-se com tanta escolha. Pegou em dois, nem muito caros, nem baratos. Pagou, pôs no bolso e voltou para casa.

Já na entrada, hesitou só um instante, o nervosismo a provocar-lhe tremores nas mãos. Cumpriu todos os passos da instrução, depois ficou à espera.

O tempo parecia não passar. Margarida alternava os olhos entre o relógio de parede e os frasquinhos no balcão. De súbito, duas linhas surgem, bem nítidas. Espiou o segundo teste, igual.

Mas isto é impossível! soltou, sentindo o caos instalar-se no peito. Preparei tudo!

Foi então que a campainha soou alto. Sobressaltou-se. Tinha de ser o Diogo, o rapaz que nunca levava a chave para a escola.

Atirou os frascos para o lixo, ajeitou o cabelo e abriu a porta.

Esqueceste-te da chave outra vez? riu, deixando-o entrar.

Pois, murmurou o Diogo, a descalçar-se. Saí a correr…

Entretanto Margarida foi à cozinha preparar-lhe um lanche, sem saber que um dos testes se escapara do lixo e ficara caído no chão…

*****************

Gonçalo, vou passar uns dias em Aveiro com a minha mãe, ela anda mal anunciou Margarida, evitando encarar o noivo. Doía-lhe mentir a quem amava, mas naquele momento não via alternativa. A decisão estava tomada…

Gonçalo largou o portátil de imediato, preocupado:

Precisas de ajuda? Queres que vá contigo? Levo os medicamentos?

Margarida sorriu, enternecida, mas triste.

Por enquanto, não é preciso. Se houver alguma coisa, aviso-te.

Voltou às malas, apressada: camisolas, uns jeans, roupa interior, escova de dentes… O autocarro saía dali a pouco, a mãe iria buscar-lhe ao terminal.

Liga-me sempre que precisares. Só dizer, venho ter contigo.

Sim, prometo. Volto num instante. Nem tens tempo de sentir saudades.

A viagem até Aveiro decorreu estranhamente nebulosa, como num sonho longínquo. Margarida controlava-se para não enlouquecer, presa a um plano: ir, resolver o assunto, regressar e só aí conversar com Gonçalo, a sério.

No dia seguinte, sentou-se na pequena clínica privada, tudo já agendado. Consulta, análises, ecografia. A médica, uma senhora de meia idade com voz tranquila, reviu tudo, datas, sintomas, historial.

Está grávida, sim. Estimamos cinco, seis semanas.

Margarida anuiu. Ainda esperava um milagre que desmentisse as provas. Mas não havia dúvidas.

Mas eu tomava a pílula! Como é possível? a voz trémula, a ansiedade a ganhar forma.

A médica explicou, sem julgamentos:

Pode ter havido erro na medicação. Tomou antibióticos, teve vómitos, ou tomou a horas trocadas? Às vezes, basta um pequeno deslize.

Houve uma pausa antes da pergunta fatal:

Pensa interromper a gravidez?

Margarida fechou os olhos. Revivia o terror antigo: a ameaça da cegueira, as fórmulas dos especialistas, os riscos. Inspirou fundo e respondeu, firme:

Nove em cada dez mulheres com o meu quadro ficam cegas. Arriscava?

A médica compreendeu. Foi buscar requisições, preparou exames indispensáveis, passou instruções.

Amanhã, nova consulta. Decidimos juntas o melhor caminho. Se precisar, telefone para cá.

Margarida empilhou os papéis, assentiu em silêncio, ergueu-se. No corredor, fixou-se uns segundos à parede, respirou fundo. O dia seguinte traria a próxima etapa da decisão.

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Margarida! exclamou Gonçalo do outro lado da linha, o entusiasmo transbordava ao ponto de ela se sentir desconfortável.

O que foi? disfarçou ela, o coração disparado. Teria ele descoberto?

Estás grávida! Gonçalo não continha a alegria. Soava já a fazer planos.

Margarida suspirou, tentando segurar o tempo.

De onde tiraste essa ideia?

Encontrei um teste no chão, tinha duas linhas… Já marquei consulta para ti com um ótimo médico. Vou contigo, quero apoiar-te.

Ela precisava travá-lo:

Não te iludas. O teste pode estar errado. Tomo sempre a medicação, não falhei.

Por breves segundos, o silêncio pareceu ensurdecedor.

Olha, a minha mãe apareceu cá dias atrás, viu as tuas caixas dos medicamentos… Disse-me que tu estavas a fazer disso um drama. Que com os avanços de hoje, podias perfeitamente ter filhos. Deu-me exemplos, sugestões, falou de casos de sucesso. Insistiu tanto… Acabei por ceder às ideias dela.

A cabeça de Margarida girava. Havia ali algo estranho. Respirou fundo.

Estás a dizer que ela te convenceu a mexer nas minhas coisas?

Não, não, juro! Gonçalo tentava desculpar-se. Apenas… no outro dia, as tuas cápsulas espalharam-se, já não sabias qual era qual. Pensei… talvez fosse um sinal. Troquei por vitaminas. Pensei que a nossa família merecia um filho. Achei que tudo ia correr bem…

Margarida congelou, as palavras doíam como navalhas. Já explicara tantas vezes o porquê da medicação. Cada falha podia ser desastre.

Estás a falar a sério? Fizeste isso consciente? a voz falhava-lhe. As mãos rangiam de fúria.

Queria tanto… balbuciou Gonçalo, embaraçado.

Querias… e arriscaste a minha saúde sem avisar! Sabias do diagnóstico, das consequências! a indignação era visível.

Fez silêncio, esforçando-se por controlar-se.

Não consigo falar agora. Encontra-mo-nos no sábado, ao meio-dia, no Jardim do Príncipe Real, está bem?

Sim, claro! Vai correr tudo bem, tenho a certeza!

Margarida desligou sem despedidas. Mordeu o lábio até quase sangrar. A traição era fria e crua. Gonçalo, o homem em quem confiara, trocara os comprimidos de propósito, convencido pela própria mãe. Não era só uma questão de saúde. Era respeito, era confiança.

O sábado chegou e Gonçalo esperava ansioso junto ao portão, um ramo de lírios brancos os favoritos de Margarida nas mãos. Teve tempo para mil cenários de reconciliação fantasista. Mas foi Margarida quem chegou, ao braço do irmão Rui, com o rosto inexpressivo como mármore.

Não olhou sequer para as flores que ele estendia. Apenas tirou da mala uma folha e passou-lhe.

O que é isto? balbuciou Gonçalo, sem perceber.

A prova de que não haverá bebé, anunciou Margarida. Sabias do diagnóstico. Decidiste arriscar a minha saúde, ouvindo conselhos de quem não entende nada do assunto. Isto não se perdoa. Amanhã vou buscar as minhas coisas. O meu irmão vem comigo.

Virou costas, começou a afastar-se. Gonçalo, desesperado:

Espera, Margarida! Fala comigo!

Rui interpôs-se, bloqueando-lhe o caminho. Um gesto firme, certeiro: Chega.

Gonçalo ainda tentou esquivar-se.

É tudo mentira! gritou, a voz a fugir-lhe. Falei com médicos, disseram que o risco é mínimo! Só não queres filhos e inventas desculpas!

Margarida parou, olhou o ex-namorado, a voz gelada:

Foste falar sobre mim com desconhecidos?! Sabes sequer qual é o meu diagnóstico? Ou levaste só uma história mal contada e quiseste acreditar nela porque te convinha?

Gonçalo tremeu.

Tudo o que queria era uma família, nosso filho… Falaste em adoção, por que não tentar o nosso próprio?

Porque não é um desejo, é uma ameaça à minha vida. Sabes o que é perder a visão? Ficar dependente? Não poder trabalhar? Pensa, Gonçalo! Não é justo.

Pela primeira vez, Gonçalo pareceu perceber alguma coisa, mas já era tarde.

Traíste a minha confiança, concluiu Margarida, o tom baixo, mas inflexível. Trocar os meus medicamentos… Como posso confiar em ti depois disto?

O irmão aproximou-se, pronto a intervir caso fosse preciso. Margarida endireitou-se.

Acabou. Não quero mais correr riscos ao teu lado. Não quero mais surpresas.

Gonçalo abriu a boca, mas não saiu som. Margarida já ia longe, Rui ao lado, o vulto dela a perder-se entre o arvoredo iluminado por luzes surreais de uma Lisboa irreal.

Gonçalo deixou-se cair num banco. As flores tombaram-lhe ao colo, brancas, pálidas como a culpa. Olhou os lírios mudos e só então percebeu o que perdera uma vida, a mulher, a confiança.

Sobreporam-se, como ecos distantes: e se ela tiver razão? E se afinal os sonhos forem só isso, sonhos? Mas já não havia retorno.

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