Desconhecidos no Nosso Apartamento: Katia Fica Estupefacta ao Encontrar Parentes da Sogra Instalados…

Estranhos no apartamento

Clara foi a primeira a rodar a chave e parar à entrada. Da casa chegava o som da televisão, vozes à conversa na cozinha e um cheiro que não era o dela. Rui, logo atrás, quase deixou cair a mala de tanta surpresa.

Espera, sussurrou ela, estendendo o braço. Há gente lá dentro.

No sofá preferido, o bege que tanto adoravam, estavam largados dois desconhecidos. Um homem de fato de treino mudava de canal com o comando, ao lado dele uma mulher robusta tecia croché. Na mesa de apoio havia chávenas, pratos com migalhas e blisteres de comprimidos.

Desculpem, quem são vocês? a voz de Clara tremia.

Eles voltaram-se com um ar perfeitamente natural.

Ah, chegaram, respondeu a mulher, sem largar o croché. Somos da família da Leonor. Ela deu-nos as chaves, disse-nos que não vivia cá ninguém.

O rosto de Rui ficou lívido.

Leonor quem?

A tua mãe disse, enfim, o homem, levantando-se. Viemos de Santarém, o Tiago tem de ir ao hospital. A tua mãe disse-nos para ficarmos cá, que vocês não se importavam.

Clara entrou devagar na cozinha. Ao fogão estava um rapaz de quinze anos a fritar salsichas. O frigorífico cheio de compras que não eram deles, a bancada um monte de louça suja.

E tu, quem és? perguntou ela, sem fôlego.

Tiago respondeu o rapaz, virando-se. Não posso comer? A avó Leonor disse que era à vontade.

Clara voltou para o corredor, onde Rui já agarrava o telemóvel.

Mãe, o que é que tu fizeste? o tom dele era baixo mas carregado de raiva.

Da coluna do telefone soou a voz despreocupada da mãe:

Rui, chegaram já!? Como correu o Algarve? Olha, dei as chaves à Sofia, ela com o Vítor vieram a Lisboa levar o Tiago à consulta. Pensei que vocês estavam fora, a casa vazia, é um desperdício, são só uns dias.

Mãe, perguntaste-nos?

Para quê perguntar? Não estavam cá. Diz só que eu trato de tudo e que deixam tudo limpo.

Clara arrancou o telefone das mãos do marido:

Dona Leonor, está a falar a sério? Pôs gente estranha na nossa casa?

Que estranha? A minha prima Sofia! Fomos criadas juntas, dormíamos na mesma cama em pequenas.

E para mim? Isso é indiferente! Esta casa é nossa!

Ó Clara, não faças caso. É família. Gente tranquila, não partem nada. O miúdo está doente, quis ajudar. Ou vais ser tão forreta assim?

Rui recuperou o telemóvel:

Mãe, tens uma hora para chegar e vir buscar toda a gente. Todos.

Mas eles iam ficar até quinta! O Tiago tem exames, consultas. Poupam no hotel.

Mãe, uma hora. Se não, chamo a polícia.

Desligou. Clara sentou-se no puff e cobriu o rosto com as mãos. As malas estavam ainda por desfazer, da sala vinha a televisão, na cozinha ferviam salsichas. Há duas horas sonhavam, no avião, chegar a casa. Agora, naquela mesma casa, sentia-se uma clandestina.

Vamos arrumar as coisas, disse a mulher do sofá, vindo ao corredor, constrangida. A Leonor pensava que não se iam importar. Nem vosso contacto tínhamos. Ela sugeriu, nós aceitámos. Só queríamos cá ficar esta semana, por causa das consultas do Tiago.

Rui estava calado, junto à janela. Clara percebeu-lhe o nó na coluna ficava assim sempre que se irritava com a mãe mas não queria magoá-la.

E o nosso gato, onde está? lembrou-se Clara de repente.

Que gato?

O Tobias. Laranja. Deixámos as chaves por causa dele.

Nem o vimos, encolheu os ombros Sofia.

Clara correu. Encontrou o Tobias enfiado até ao fundo por baixo da cama. Os olhos muito abertos, o pêlo eriçado. Quando tentou tirá-lo, ele bufou e encostou as orelhas.

Tobias, pequenino, deitou-se de lado. Sou eu, já passou.

O gato olhava-a, assustado. O quarto cheirava a estranho. Na mesa cabeceira estavam medicamentos desconhecidos. A cama feita à pressa e não como ela gostava. No chão, chinelos de alguém.

Rui ficou junto dela:

Desculpa.

Porquê? Tu não tinhas culpa.

Pela mãe. Ela é sempre assim.

Ela acha-se no direito.

Sempre a mesma história, frustrava-se ele. Lembras-te quando viemos para aqui e ela aparecia sem avisar? Julguei que tinha ficado claro

Vozes no corredor. A sogra chegava. Clara levantou-se, endireitou os cabelos e saiu.

Dona Leonor aparecia à entrada, de trombas:

Rui, passaste-te de vez?

Mãe, senta-te, ele apontou para a cozinha.

Sentar quê? Sofia, Vítor, arrumem tudo, estamos a ser corridos. Vamos para minha casa.

Mãe, senta-te, estou a falar contigo.

Pela primeira vez, calou-se ao ver o rosto sério do filho. Foram todos para a cozinha, onde o Tiago comia restos a correr.

Explica-me, pediu Rui, frente a ela. Como é que te passou pela cabeça dar este passo sem perguntar?

Só queria ajudar! A Sofia ligou-me, o Tiago estava nas urgências, precisavam mesmo. Achei que, estando a vossa casa vazia…

Mãe, a casa não é tua.

Então? Tenho as chaves!

Chaves para dar comida ao Tobias. Não para montar aqui uma pensão.

Mas é família! Sofia é quase irmã. O Vítor trabalha tanto. O Tiago está doente, precisava. E tu deitas-lhes à rua?

Clara encheu o copo. As mãos tremiam.

Dona Leonor, nunca nos perguntou.

Para quê? Não estavam!

Por isso mesmo devia ter perguntado, Rui ergueu a voz. Temos telemóveis! Telefonavas, avisavas, pedias. Decidiríamos juntos.

E se dissesses que não?

Talvez. Ou aceitávamos por uns dias, mas sabíamos. Isso chama-se respeito.

Leonor levantou-se:

Sempre foi assim… eu a ajudar, e a levar nas trombas. Sofia, vamos, já não somos bem-vindos.

Mãe, tens um T1. Disseste que não cabem quatro.

Cabemos. Mais vale pouco espaço que má vontade.

Clara pousou o copo com força:

Dona Leonor, por favor. Sabe bem o que fez não estava certo. Se achasse que estava, teria ligado primeiro.

A sogra parou.

Sabia que íamos ficar contra. Quis-nos encostar à parede. ‘Eles chegam, já está gente, resignam-se. Não é?

Só queria ajudar

Queria foi fazer à sua maneira. Há diferença.

Leonor parecia sem norte.

A Sofia não dorme, só chora. O Tiago com dores. Fiquei com pena.

Compreende-se, disse Rui. Mas não podia decidir sobre o que não era seu. Imagine, mãe, que eu ia a sua casa enquanto viajava e recebia amigos sem pedir autorização. Como se sentiria?

Ficava furiosa.

Pois.

Ficaram em silêncio. Da sala ouvia-se o som de malinhas. A Sofia chorava baixinho, o Vítor arrumava. O Tiago estava à porta, olhar no chão.

Desculpem, murmurou o rapaz. Não sabia. A avó disse

Clara fitou-o. Era só um miúdo, assustado, sem culpa.

Não tens culpa, disse ela, exausta. Vai ajudar os teus pais, querido.

Leonor tirou um lenço da mala, limpou os olhos.

Achei mesmo, do fundo, que era o melhor. Que mal fazia? Criei-vos a dar e a partilhar

Não somos crianças, mãe. Temos trinta anos. Temos regras nossas.

Já percebi, admitiu ela. Ficam-me com as chaves?

Ficamos, acenou Clara. O nosso voto de confiança já não chega.

Entendo.

A família da Sofia despediu-se longa e constrangidamente. Leonor levou-os, prometendo que se arranjavam em casa pequena. Rui fechou a porta e encostou-se a ela.

Percorreram a casa. Refazer a cama. Limpar o frigorífico. Em todo o lado sinais de outros comida alheia, móveis mudados, loiça suja. O Tobias, ainda escondido.

Achas que ela percebeu? perguntou Clara, abrindo a janela da cozinha.

Não sei. Quero acreditar que sim.

E se não percebeu?

Vamos ser mais firmes. Não volto a permitir.

Ela abraçou-o. Ficaram juntos no meio daquela desarrumação, calados.

Queres saber o que me dói? afastou-se Clara. O Tobias. Tudo isto foi para ele, e ficou sozinho, assustado.

Achas que o alimentaram?

Acha? A tijela está vazia, a água suja. Devem ter-se esquecido dele.

Rui baixou-se:

Tobias, desculpa, amigo. Nunca mais dou as chaves à mãe.

O gato espreitou, desconfiado. Lentamente saiu do esconderijo, roçou-lhe nas pernas. Clara trouxe-lhe comida e ele devorou tudo como se há dias não comesse.

Foram limpando a casa. Fizeram a cama, deitaram fora o que era dos outros, lavaram a loiça. O Tobias dormiu à janela, enrolado. Aos poucos, o lar voltava a ser deles.

À noite, Leonor telefonou. A voz era sumida, humilhada.

Rui, estive a pensar Tinhas razão. Desculpa.

Obrigado, mãe.

A Clara ainda está zangada?

Ele olhou para a mulher. Ela disse que sim.

Está. Mas há de passar.

Depois ficaram sem dizer palavra, o chá arrefecendo entre as mãos. A noite caía lá fora. O apartamento, finalmente, era só deles limpo, sossegado. As férias tinham terminado com violência e sem aviso.

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