Deita-o na rua. Encontrei o gato doméstico do vizinho debaixo da neve e a dona recusou-se a ajudá-lo

Deita-o fora para a rua. Encontrei o gato doméstico dos vizinhos debaixo da chuva e a dona recusou-se a ajudá-lo

Olha, deixa-me contar-te uma história que me ficou atravessada. É sobre compaixão e como, por mais aborrecidos que estejamos com alguém, não podemos virar as costas quando mais precisam.

A minha vizinha Amélia nunca foi fã do gato do lado, o famoso Micas. Não que tivesse problemas com gatos, mas aquele tigrado gigante já lhe tinha dado algumas dores de cabeça. Lembro-me de um verão em que o Micas achou piada a transformar as hortas do bairro, principalmente a da Amélia, na sua casa de banho particular. Ela apanhava-o sempre a remexer a terra, como se andasse em escavações arqueológicas. Lá ia ela atrás dele, a correr e aos gritos, mas o bicho nem ligava saltava o muro todo senhor do seu nariz e lá ia à vida dele.

A casa, que era da avó dela e ficava num cantinho sossegado nos arredores de Lisboa, era o refúgio perfeito. Bastava dar uns passos para o campo para pareceres estar numa aldeia. E a estação de comboios ali perto punha a cidade mesmo ali à mão. Durante anos, a Amélia e a prima Joana que, por acaso, também morava na mesma aldeia, filha do tio António, irmão da mãe passavam os fins de semana cá fora: banhos de sol, piqueniques, churrascadas, passeios pelo pinhal, tudo o que era bom para recarregar energias. O bosque ali ao pé dava para encher um cesto de pinhões num instante, e o sossego não tinha comparação.

A horta da Amélia era pequena, mas dava-lhe gosto. Um canteiro de salsa e coentros, outro de alface, e ali crescia o cebolinho. Mas o seu orgulho estava sempre a ser profanado pelo Micas. Irada, ela foi falar com a dona do gato, a Dona Graça. E a resposta dela deixou-me passada: Então e eu o que hei de fazer? Não vou ficar a guardar o bicho Se não gostas, atira-lhe com uma pedra! imagina só ouvir isto.

Percebia-se que a Dona Graça não tinha grande paciência para gatos. O Micas era do falecido marido, o Senhor Joaquim. Desde que ficou viúva, ficou só com ele por obrigação. Sempre dizia: Gatos? Só se fossem de ouro! Aquilo dela eram cães. Mas pronto, o marido lá se foi, e o gato ficou.

Mesmo assim, o Micas safava-se bem sozinho: caçava ratos, dizem que até trazia peixe da ribeira quando o dono ia à pesca. Só queria um teto e uma lareira no inverno. Nem ligava à Amélia quando ela tentava ser simpática ou lhe oferecia restos do que trazia da cidade. Mantinha distância e olhava sempre desconfiado.

Um dia, desesperada, a Amélia atirou-lhe água fria. Outra vez, foi arrancar ervas e levou um apito sim, um apito, como um árbitro de futebol , e quando viu o Micas, foi a correr atrás dele a apitar. E ainda se riu tanto ao lembrar-se da cara dele, a olhar para trás como quem diz: Ó amiga, que raio de brincadeira é esta? e depois lá desapareceu entre as silvas, com o rabo no ar todo indignado.

A Dona Graça via tudo isto da janela e só se ria. Mais agora, que finalmente tinha realizado o sonho de ter um cão: a filha trouxe-lhe a Pipoca, uma cadelinha minúscula, toda vaidosa, para passar o verão. E assim outra vez a Dona Graça já tinha com que se entreter. A Amélia, para resolver a guerra do canteiro, foi ao viveiro, comprou três sacos de serradura e despejou num canto no meio das urtigas. O Micas adorou o presente foi logo fazer buracos ali. Finalmente, paz. Mas acabou por reparar que o bicho estava sempre atento: vigiava-a do muro, da varanda, até de dentro dos arbustos.

Depois veio o inverno. A Amélia andava menos por lá, só aparecia aos fins de semana, porque voltou à universidade.

Numa dessas visitas, ela levanta-se cedo, abre a porta de trás, e o que vê? Um montinho coberto de água gelada e bocadinhos de folhas. Era o Micas. Ali, encharcado, com gotas presas no bigode, imóvel. Nenhuma energia sequer para mexer o rabo. Mal ela lhe limpou a água e o tentou animar, percebeu logo que o animal não miava, não mexia nada. Só os olhos, muito cansados.

Pega nele, enrola-o numa manta, aquece-o o melhor que pode, esfrega-lhe o focinho com uma toalha quente. Até o cobriu de garrafas de água quente. Depois correu à rua bater à porta da Dona Graça.

E a resposta foi dura: O Micas ficou no alpendre, não entra mais em casa! Fez porcaria por todo o lado e ainda queria atacar a Pipoca! Arranja-lhe destino, não o quero cá! Acontece que desde que tinha cadela, a Senhora Graça perdeu a paciência toda e deixou o gato entregue à sua sorte.

Com o calor ele aguentou, mas o frio era demais. A Amélia tentou fazer-lhe ver: São anos juntos, Graça O gato só tem a ti! Mas ouviu: Enchi-lhe a taça de ração, se tiver sede que coma neve! Se quiser, deita-o mesmo para a rua!

Voltou a casa com um peso gigante no peito. Só depois lhe caiu a ficha: o Micas tinha ido pedir socorro mesmo a ela, com quem tinha estado sempre de mal.

Começou a telefonar aos amigos a perguntar se conheciam quem quisesse ficar com um gato. Ninguém. A prima Joana ofereceu um cantinho no estábulo, com as vacas e os porcos, que ao menos era quentinho. Mas em casa já tinha dois gatos e o marido estava a dizer que não queria mais nenhum.

Entretanto, o Micas, mesmo meio combalido, lá saiu da manta, deu duas voltas pela sala, sentou-se à frente dela, e ficou a olhar, como quem diz: É agora ou nunca. A Amélia suspirou e ligou à mãe. Ela sempre foi contra bichos na casa, mas ao lembrar-se do Senhor Joaquim e de como era bom amigo, amoleceu. Contou-lhe como o Micas seguia o dono por toda a parte, fiel como um cão. Até se emocionou a pensar como estava velho e escorraçado por todos.

A solução apareceu: a Amélia foi ao mercado, comprou uma caixa de plástico com pegas, preparou o Micas todo direitinho, e lá foi com ele para Lisboa. Para o Micas, era o começo de uma vida diferente.

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