Dasha regressa a casa mais cedo com mimos dos pais e planeia surpreender o marido, mas Ivan, em vez de lhe dar as boas-vindas calorosas, manda-a ir ao supermercado. As consequências foram inesperadas.

Teresa chegou a casa mais cedo, carregada de mimos que a mãe tinha preparado. Queria surpreender o marido, mas o Miguel, em vez de lhe dar um abraço caloroso, mandou-a logo ao supermercado. O que aconteceu depois foi inesperado.

A alça da mala pesava tanto que Teresa não conseguiu conter um gemido. As dores na zona lombar tornaram-se as suas companheiras nos últimos dois meses. Com cuidado, pousou os sacos recheados em cima do passeio irregular, junto à paragem.

Respirou fundo. Sentiu o bebé a mexer-se incomodado na barriga o sexto mês, já se sabia, não era brincadeira. Principalmente quando se decide regressar três dias mais cedo de casa dos pais, para fazer uma surpresa ao marido. A saudade era tanta que, durante as últimas dezenas de quilómetros de autocarro, Teresa contava os postes para passar o tempo.

O que estará o Miguel a fazer agora? Nem devia suspeitar que ela já estava a poucos minutos de casa. A caminhada da paragem até ao prédio parecia interminável, ainda mais com as sacolas cheias de doces caseiros, enchidos, frascos de compota, maçãs enormes parecia que carregava o peso do mundo às costas.

Ao fim de uns cinquenta metros, percebeu que não ia aguentar o resto do caminho. As dores nas costas não davam tréguas.

Tirou o telemóvel do bolso e ligou ao marido.

Miguel, amor, cheguei sussurrou assim que ele atendeu.

Teresa? O que foi? Aconteceu-te alguma coisa? respondeu logo ele, assustado.

Não, está tudo bem. Olha, já cheguei! Estou na paragem ao pé de casa, podes vir ajudar-me? As sacolas são pesadíssimas, a minha mãe exagerou

Fez-se silêncio do outro lado. Teresa olhou para o ecrã, não fosse a chamada ter caído.

Estás na paragem? Agora? Teresa, mas tu disseste que vinhas só na quinta!

Queria fazer-te uma surpresa fez um beicinho. Não ficas contente? Preciso mesmo de ajuda, estou exausta. Anda cá!

Espera aí! Não venhas já. Teresa, ouve, em casa não há nada para comer, ontem acabei tudo. Se puderes, passa ali no Pingo Doce comprar carne, aquela vitela do talho. Hoje tirei o dia de folga, queria preparar-te um bom almoço, receber-te como mereces.

Estás a brincar comigo, Miguel? Teresa mal acreditava no que ouvia. Ouve, estou grávida de seis meses, à beira da estrada, carregada, e tu queres que eu vá ao supermercado buscar carne?

Teresa, é só um saltinho! Aproveitas e trazes também um saco de batatas novas, porque as que temos já estavam a apodrecer. Pede a alguém para te ajudar a levar, ou vai devagarinho vá lá, amor, eu preparo já tudo por aqui.

Olhou para as mãos doridas e sentiu uma mistura de tristeza e revolta a subir-lhe ao coração.

Tens noção do que me estás a pedir? a voz saiu-lhe trémula. Eu só precisava que viesses buscar-me, Miguel. Só isso. Precisava de chegar a casa, de comer e de deitar-me!

Mas estou mesmo em cima do tempo, Teresa! Quero que esteja tudo perfeito para ti. Não custa nada, é só passares ali, por favor. Compra 800 gramas de vitela, o saco de batatas pequeno, sim? Eu preparo tudo!

Desligou-lhe o telefone na cara. Teresa ficou durante uns segundos a olhar, incrédula, para o ecrã escuro, à luz fria do candeeiro da rua. Em vez de abraços, tinha recebido um recado para ir ao talho. “Se calhar ele está mesmo a preparar algo especial…” pensou, tentando justificar o marido. Suspirou, agarrou novamente nos sacos e, mancando, dirigiu-se ao supermercado.

Empurrava o carrinho pelos corredores, sentindo os olhares de pena da funcionária do caixa, que a reconheceu. O saco de batatas parecia chumbo, a carne ainda mais pesada. Quando saiu, já nem sentia os dedos estavam dormentes com o peso.

O telefone voltou a tocar.

Já compraste? quis saber Miguel, entusiasmado.

Já. Estou no prédio, vem abrir.

Espera! Não subas já. Senta-te um bocadinho no banco aí à entrada, dez minutos só.

Estás a gozar comigo? Miguel, não aguento mais, tenho as pernas inchadíssimas!

O meu plano não está pronto ainda! Senta-te, respira, cinco minutos só, prometo.

Teresa deixou-se cair pesadamente no banco de madeira do prédio, as sacolas fizeram um estrondo ao bater no chão. Naquele momento, apetecia-lhe atirar o saco da carne pela janela do terceiro andar.

Esperou dez minutos. Depois vinte. Todas as emoções ferviam dentro dela. Imaginava que, se entrasse agora, ia encontrar o quê? Uma festa? Um pequeno-almoço romântico? Um violinista escondido atrás da porta? Nada daquilo valia o desconforto de estar ali à espera, cansada, depois de tantas horas na estrada.

Ao fim de trinta e cinco minutos, ouviu a porta a abrir: Miguel apareceu todo despenteado, t-shirt ao contrário e a transpirar em bica.

Cá estás! disse, forçando um sorriso enquanto pegava nos sacos. Por que estás tão chateada? Olha que lindo dia vá, vamos!

Porque estás todo molhado, e cheiras a lixívia? perguntou Teresa, levantando-se com dificuldade.

Vais ver já! disse ele, sorrindo misteriosamente enquanto entravam no elevador.

Quando chegaram, Miguel abriu a porta como se fosse uma cena de cinema. Teresa entrou e, em vez do habitual cheiro de comida caseira, só sentiu o forte odor a lixívia e ambientador barato.

Deu uma volta pela casa: tudo brilhava, a sala estava impecável, as coisas já não estavam espalhadas em cima das cadeiras, o tapete limpo que ainda pingava em algumas zonas. As suas pequenas estatuetas estavam agora recolhidas num canto, sozinhas.

Na cozinha, Miguel brilhava de orgulho.

E então? Gostaste do meu presente? SORPRESA!

Teresa não conseguiu disfarçar a deceção.

Isto é tudo? apenas sussurrou.

Como assim? Teresa, estive três horas a esfregar tudo! Aspirei até debaixo dos móveis, lavei a loiça toda, limpei a sanita até brilhar. Queria que, ao chegares, não tivesses de te preocupar com nada. Só precisei de te atrasar para acabar!

Sentiu um nó na garganta. Ficou sem saber o que dizer.

Então por causa disto, deixaste-me na rua, cansada, com dores, a carregar peso? Em vez de me vires buscar, puseste-me a ir às compras? Mesmo grávida? já quase gritava, sem se conter.

Eu só queria fazer-te uma surpresa Nunca estás satisfeita! Eu a limpar tudo, sem dormir, só a pensar em ti, em como ias gostar. E tu só te queixas disto e daquilo, do bebé, das costas E eu? Achas que não estou cansado também?

Sentindo-se injustiçada, Teresa tentou explicar-lhe do que precisava. Tu não percebes! Só queria que me desses a mão, que me ajudasses a subir até casa, chorou, sentando-se no chão da cozinha. Miguel, de repente furioso, resmungou e saiu, batendo com a porta do quarto.

O bebé mexeu-se inquieto na barriga. Teresa ficou ali, a olhar para o saco de carne e batatas no chão, a sentir-se sozinha e incompreendida. Passados uns minutos, Miguel voltou e perguntou a resmungar se queria jantar.

Não quero nada, Miguel. Deixa-me em paz, por favor. Preciso de descansar.

Novamente outra porta a bater.

Foi lavar o rosto à casa de banho. Ficou a olhar-se ao espelho: pálida, com olheiras e o cabelo todo desarranjado. Recordou-se do quanto sonhava com aquele reencontro. Imaginava-o a abraçá-la, a sorrir-lhe e a dizer: Bem-vinda a casa, querida. Em vez disso, acabara numa das piores discussões desde que estavam juntos.

Nessa mesma noite, pegou na mala e voltou para casa dos pais. Nem teve tempo ou vontade de se mudar de roupa.

Toda a família tentou convencê-la a voltar para casa. Os sogros, as cunhadas, até alguns amigos. O próprio Miguel ligava insistentemente, a pedir-lhe que voltasse, que tinha percebido e que ia mudar. Mas, dentro dela, Teresa já tinha decidido: não queria passar a vida ao lado de um homem que punha o chão lavado acima do bem-estar da própria mulher e do filho.

Hoje aprendi que um abraço vale muito mais do que qualquer chão reluzente. Que o que alguém precisa, muitas vezes, é só de atenção e presença. E que nenhuma casa limpa compensa a ausência de compreensão e amor.

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Dasha regressa a casa mais cedo com mimos dos pais e planeia surpreender o marido, mas Ivan, em vez de lhe dar as boas-vindas calorosas, manda-a ir ao supermercado. As consequências foram inesperadas.