COMO O VASCO APRESENTOU A SUA NAMORADA À MÃE…

COMO O ZÉ ANTÓNIO APRESENTOU A NAMORADA À MÃE

Mãe, esta é a minha namorada, Laurinda O Zé António tentou dizer aquilo com ar descontraído, mas o nervosismo tremelicava-lhe na voz. E nós queríamos assim pronto enfim vocês sabem

Aham Já sei muito bem o que é que tu queres, que eu não nasci ontem A mãe observava a escolha do filho como quem avalia bacalhau na peixaria. Agora, se a menina quer o mesmo Isso é que já não sei. Laurinda, conhece bem o meu menino?

Ui, conheço como ninguém respondeu a futura noiva, sem o menor envergonho. Nem precisa de manual de instruções.

Perdão? Deu-lhe tal baque, que a mãe até passou para o você. Isso é lá faladura que se tenha? As meninas dizem uma coisa dessas?

Ora, não tem mal nenhum! É uma expressão cá nossa: conheço como as palmas das minhas mãos. Mas deixemos disso, Dona Teresa, temos é de nos conhecer melhor uma à outra. Vai que nem nos damos bem.

Então, como assim? baralhou-se a mãe.

Veja lá, pode ser que vamos ficar as duas acordadas à espera do Zé António, enquanto ele anda pelas noitadas com os amigos. E depois ainda partilhamos o prazer de ouvir-lhe o ressonar a cheirar a cerveja.

E o que tenho eu a ver com isso? A mãe ainda tentou recuperar a chefia da conversa. Você não vai dormir no quarto das visitas? Quero eu acreditar

Mas a senhora vai andar à escuta à porta, preocupada. Todas as mães fazem isso, não é?

Ó, espera lá O Zé António achava a situação digna de uma novela. Que estão para aí a dizer sobre mim?

Cala-te, pá! entoaram as duas, em uníssono feminino.

Bom, Dona Teresa, diga-me uma coisa: não é mulher de armar pancadaria de vez em quando, pois não? Porque o seu filho vai sempre a correr, mas disso não fala.

Desculpe? A mãe arregalou os olhos. Então as senhoras andam à estalada?

Ó se andam riu-se Laurinda. Aquelas de má fama até deixam o marido com as orelhas a tinir.

Nossa Senhora! Dona Teresa levou as mãos à cara, escandalizada. Que conversa é esta? Parece coisa de novela mexicana

Vá lá Laurinda piscou-lhe o olho. Diga lá, nunca teve vontade de dar um tabefe ao marido? Ou ao filhote, que é tão despachado?

Bem Ia a mãe confessar, pensou melhor. Não, nunca me passou pela cabeça.

Gosto da sua vontade de parecer distinta Laurinda sorriu. Mas eu cá não acredito. Quem aguenta criar um Zé António destes sem vontade de lhe dar uns açoites? Dizem que antigamente era moda receber palmadas. Deu-lhe assim umas chapadas no rabo quando miúdo?

Ai, não! Aqui a mãe foi sincera.

Ó mãe tentou o Zé António intervir, mas ouviu logo:

Cala-te outra vez!

Devia ter-lhe dado, Dona Teresa Laurinda afagou-lhe o rabo, divertida. Este traseiro, com tanto talento para arranjar sarilhos, precisava de disciplina. Olhe, mas no geral, o Zé António é bom rapaz. Ainda dá para pô-lo nos eixos. Pode ser que, à conversa, nos entendamos melhor. Aceita uma bica? Trouxe um bolo para acompanhar, que sem açúcar não há sinceridade.

Já ao fim do dia, assim que o Joaquim chegou do trabalho, Dona Teresa, na presença do filho, anunciou:

Joaquim! O nosso Zé António vai casar-se, graças a Deus!

Caramba, não posso crer! quase deu um pinote o pai.

Calma, ainda estou a pensar nisso corrigiu o filho, inquieto.

Ai não, Zé António lançou a mãe, com aquela voz de não hás de, não. Desta vez casas mesmo. E se deres meia volta, fico com a Laurinda para mim, que é boa rapariga!

Ó mãe, ela não é orfã, tem os pais dela brincou o filho.

Pronto, então levo-te a ti outra vez ao hospital de Santa Maria e digo logo que trocaram os bebés. O teu pai está do meu lado, não estás, Joaquim?

Se for preciso, confirmo em tribunal! O pai até mostrou o punho ao filho.

E assim vai Portugal: mães despachadas, noivas de resposta pronta e filhos que, quer queiram quer não, acabam sempre no mesmo destino à mesa com a família e um bolo de pastelaria.

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COMO O VASCO APRESENTOU A SUA NAMORADA À MÃE…