Coloquei o meu marido perante uma escolha difícil.
Mãe, por que é que vamos à casa da avó Matilde? Eu não quero ir, é aborrecido lá.
Olhei para a Matilde pelo espelho retrovisor. A minha filha ia no banco de trás, agarrada ao seu tablet cor-de-rosa, nem levantou os olhos quando perguntou. Seis anos e já fala como se me estivesse a fazer um favor só por estar aqui.
Porque hoje é o aniversário do Martim, o teu primo. Lembras-te dele?
Lembro, ele é chato.
Matilde! virei-me, mas o Ricardo pousou a mão no meu ombro.
Deixa isso, por favor. Hoje não.
Fitei o meu marido. Ele ia ao volante, tenso, como se em vez de ir à festa da família, fosse para um interrogatório. Vestido num fato azul-escuro e camisa branca, cuidadosamente passada por mim de manhã. Demorei meia hora nesta camisa, porque sabia que a minha sogra ia reparar em qualquer vinca. Ia fingir que não viu, mas aquele olhar dela ia deixar claro que sou má dona de casa.
Não estou a começar, Ricardo. Só estou a explicar-lhe porque é que vamos lá.
Mas tu explicas com um tom… Já deste a entender à Matilde que vamos a um lugar onde não somos bem recebidos.
E somos?
Ele não respondeu. O semáforo à frente ficou amarelo e o Ricardo travou. O silêncio encheu o carro e até ouvir os sons do jogo da Matilde no tablet pareceu ensurdecedor moedas virtuais a tilintar.
Olha, combinemos uma coisa, disse ele sem me olhar. Chegamos, damos os parabéns ao Martim, ficamos duas horas, três no máximo, e depois vimos embora. Sem conversas sobre o passado, sem queixas, sem dramas. Apenas uma reunião de família. Pode ser?
Quis dizer que não tinha a certeza. Que sempre combinamos isso e acabamos a mesma história: eu na cozinha, a ouvir a minha sogra a explicar-me como se educam filhos, a criticar porque trabalho demais, a dizer que não sei cozinhar como a Dona Rosa, minha mãe, Deus a tenha.
Mas calei-me. Limitei-me a acenar e virei-me para a janela. As ruas de Lisboa passavam radiantes de sol do final da primavera. Mulheres de vestidos leves, homens de camisa de manga curta, crianças lambem gelados. Típico sábado de maio. O que apetecia era estar no parque ou numa esplanada, não fazer quilómetros até à Torre da Marinha para estar com quem não gosta de nós.
Mãe, o Martim vai receber muitos presentes? a Matilde finalmente largou o tablet.
Provavelmente vai. É o aniversário dele.
E eu? Também vou receber?
Dei-lhe um olhar pelo espelho. Ela olhou-me com os seus grandes olhos castanhos já expectantes. Já a habituei a receber sempre alguma coisa nas festas percebo agora. Cada Natal, cada festa do jardim de infância, visita às minhas amigas um brinquedo, uma guloseima.
Filha, hoje é o aniversário do Martim, não o teu. Os presentes são para ele.
Mas eu também queria!
Matilde, no teu aniversário, daqui a uns meses, receberás muitos. Hoje vamos dar um presente ao Martim, lembras-te? Comprámos-lhe ontem aquele LEGO.
Lembro… mas queria esse LEGO para mim!
Em casa tens uma sala só de brinquedos, não aguentou o Ricardo. Não podes esperar só um dia?
Matilde amuou e voltou ao tablet. Olhei para o Ricardo, ele agarrava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Eu sabia bem o que ele pensava. Sabia que a mãe ia reparar se a Matilde fizesse birra. Que ia comentar, falar com a irmã dele, a Inês. Que ambas iam passar semanas a falar mal de mim e da minha forma de educar.
Fizemos o resto da viagem em silêncio. Vinte minutos só com o barulho do jogo e dos carros. Observei Lisboa a passar e pensei que há três anos prometi a mim mesma que nunca mais puse os pés naquela casa. A seguir àquela discussão em que a minha sogra me disse, na cara, que não sabia ser mulher nem mãe.
Na altura, saí batendo a porta. O Ricardo veio atrás, a tentar convencer-me a voltar, a pedir para pedir desculpa. Não voltei. Fomo-nos embora de táxi e ele calado o caminho todo, eu a olhar pela janela, a pensar se seria o fim. Talvez devia ir para casa da minha irmã no Porto…
Mas fiquei. Porque o amava. Porque tínhamos a Matilde. Porque nunca fui de desistir.
Depois daquela noite, ficámos sem visitar a família dele quase um ano. Ele pediu para irmos no Natal. Eu não quis. Na Páscoa? Novamente não. Só quando a sogra foi internada com problemas de coração, aceitei visitar. Fui com a Matilde, levámos fruta e flores. Ela estava muito envelhecida. Senti pena.
Agradeceu a fruta. Fez festas na cabeça da Matilde. Disse que tinha saudades da neta. Nem uma palavra de desculpa. Nem menção à discussão. Como se nada tivesse passado.
Pensei: talvez seja assim, fingir que nada aconteceu. Talvez isto seja ser adulto: engolir mágoas e sorrir.
Mas ontem, quando o Ricardo anunciou que íamos ao aniversário do Martim, percebi que não tinha esquecido nada. Que a mágoa continuava cá dentro, sempre pronta a saltar.
Chegámos, disse o Ricardo, trazendo-me de volta ao presente.
Parámos junto ao típico prédio marinhense, dos anos setenta, na Torre da Marinha, Seixal. O prédio onde o Ricardo cresceu, onde a mãe vive há quarenta anos. Onde eu sempre fui “de fora”.
Matilde, desliga o tablet. Vamos, pedi, esforçando-me por soar calma.
Saímos do carro. O Ricardo tirou do porta-bagagens o presente: um enorme saco com o LEGO das cidades, para rapazes de oito anos. Demorámos uma hora a escolher, eu queria algo mais simples, Ricardo insistiu que devia ser “digno”.
O que é digno? questionei.
Para não parecer que fomos forretas.
Mas é um presente para um miúdo, não uma demonstração de estatuto.
Mas a mãe repara, a Inês repara.
Cedi. Lá foi o LEGO de 60 euros, preço que achei um exagero, mas nunca os consegui demover: para eles conta tudo preço do presente, marca da mala, onde se fazem as compras.
Subimos quatro andares a pé, como sempre elevador avariado. A Matilde já choramingava de cansaço. Fui puxando-a pela mão. Sentia a postura tensa do Ricardo à frente.
No patamar, ele virou-se:
Estás pronta?
Queria dizer que não, não estava. Queria ir embora, não fingir que está tudo bem quando está tudo mal. Em vez disso, fiz um sorriso forçado.
Pronta.
Ele tocou à campainha. Lá dentro, vozes, gargalhadas, música. A festa já ia a meio. Ricardo fez de propósito para não ser o primeiro a chegar.
Abriu a porta a Inês, a irmã dele. Dois anos mais nova, mas parece muito mais velha: cabelo pintado cor de cobre, traços duros, sorriso forçado.
Finalmente! afastou-se para nos deixar passar. Venham. Já começámos sem vocês.
Olá, Inês, Ricardo fez-lhe um beijo. O trânsito estava caótico.
Pois, pois, trânsito… Mirou-me. Olá, Sofia.
Olá.
Beijámo-nos mas foi daqueles frios, só de convenção.
Olha para esta menina crescida, é a Matilde? Inês agachou-se para falar com a minha filha. Tanto cresceste! Nem te reconheci!
Matilde escondeu-se atrás da minha saia. Não se lembrava da tia, só a vira há três anos.
Diz olá, anda, empurrei-a delicadamente para a frente.
Olá, sussurrou Matilde, colando-se de novo a mim.
Ai, tão envergonhada, Inês levantou-se. Bem, venham, a mãe está na cozinha e o Martim com os amigos na sala. Vamos já cortar o bolo.
Ao entrar, veio aquele cheiro familiar: algo entre lavanda e bolo no forno. A sogra sempre teve saquinhos de ervas nas gavetas e todas as semanas faz um bolo. Hoje, pelo aroma, de maçã.
No hall já muitos sapatos: sapatilhas de criança, sandálias de senhora, sapatões de homem. Ou seja, já está tudo. Tirei as sandálias que comprei de propósito para a visita, calcei as sabrinas que escondi na mala. A Matilde contrariada, não queria tirar as suas. Ignorei o olhar crítico da Inês.
Ricardo, vai lá para a sala, o Martim está à tua espera, disse ela. E nós, meninas, cozinha.
Meninas… Estiquei um pouco os lábios. Tenho quarenta e dois anos, sou casada há dezanove, mãe, sou chefe de contabilidade de uma empresa de construção, pago hipoteca e impostos mas continuo a ser tratada como se tivesse doze.
O Ricardo olhou-me, havia pedido de compreensão naquele olhar. Assenti, ele foi levar o presente ao Martim, e eu arrastei a Matilde para a cozinha.
Era enorme e luminosa. Na janela, uma fila de vasos com gerânios coloridos. Nas paredes, panos bordados. A mesa coberta por uma toalha de renda, igualzinha às do tempo em que lá fui a primeira vez, vinte anos antes.
A dona Rosa sentada à mesa a conversar animadamente com uma senhora que não conhecia. Ao ver-me, forçou um sorriso.
Sofia! Que bom ver-te, levantou-se. Notei-a mais velha, cabelos brancos, costas mais dobradas.
Mas o olhar igual: crítico, penetrante, analisador.
Olá, Dona Rosa, aproximei-me, demos aquele abraço formal de quem não se quer tocar.
Olá, filha. E esta boneca, é a minha netinha? agachou-se à frente da Matilde. Que linda! Sai à avó!
Matilde refugiou-se atrás de mim. Acariciei-lhe o cabelo.
Diz olá à avó, filha.
Não quero.
Silêncio constrangedor. A sogra endireitou-se lentamente, vi-lhe um risco de desapontamento nos olhos. Ou de crítica.
As crianças são assim, disse. Têm vergonha, é normal…
Mas o tom deixava bem claro que não achava nada normal. Criança educada cumprimenta os mais velhos, implica culpa na mãe.
Ela vem cansada da viagem, tentei, soando quase a desculpa.
Claro, claro. Sentem-se, vou já servir chá. Ou preferem café? Trouxeram-me café bom de Itália.
Chá, obrigada.
Sentei-me, puxei Matilde para junto de mim. A senhora desconhecida sorriu.
Eu sou a Mariana, amiga da Dona Rosa, apresentou-se. Muito prazer.
Sofia. Prazer.
A sogra mexia-se junto ao fogão, buscava chávenas. Observei-lhe as costas e perguntei-me de que falavam antes de eu chegar. Dos filhos? Do tempo? De mim…?
Como estão as coisas, Sofia? perguntou a sogra sem se virar. Continuas no mesmo emprego?
Sim, continuo.
E aquilo continua trabalhoso?
Sempre chega…
E quem vai buscar a Matilde ao infantário quando ficas até tarde?
Aí está. Começou… Inspirei fundo.
Eu vou. Tenho horário flexível.
Ah, está bem. Pensei que já tivessem contratado uma ama, agora toda a gente faz isso.
Não, tratamos nós.
Dona Rosa pôs à minha frente uma chávena de chá e sentou-se defronte. Olhou-me longamente.
Estás mais magra.
Não, estou igual.
Não, estás mais fina. Devias comer melhor, filha. Os homens gostam de mulheres com corpo…
Cerrei os lábios. Sempre este paternalismo. E sempre acompanhada de um sorriso, mas com veneno a escorrer por baixo da língua.
Estou bem, obrigada.
Pois, pois. Eu só me preocupo. Sabes que eu gosto muito de vocês. O Ricardo ligou-me ontem todo entusiasmado a dizer que vinham. Que bom, pensei, já não esquecem o caminho para cá.
Temos estado ocupados, disse do modo mais neutro possível. Matilde tem o infantário, balé, e nós o trabalho.
Todos ocupados, claro. Mas não se pode esquecer a família, Sofia. Família é o mais importante.
Não respondi. Bebi o chá a queimar os lábios. Matilde já não conseguia estar quieta.
Mãe, posso ir para outra sala ver o que estão a fazer?
Vai, filha, mas porta-te bem.
Ela fugiu da cadeira, correndo para a porta. Dona Rosa acompanhou-a com os olhos.
Travessa, igualzinha ao Ricardo, nunca conseguia estar sossegado.
Sim, é muito ativa.
E porta-se bem no infantário?
Porta-se… na maior parte do tempo.
Na maior parte… repetiu a sogra. E não obedece às vezes?
Pousei a chávena na mesa.
Às vezes não. É criança.
Claro, cada criança é diferente. O Martim, por exemplo, é muito obediente. A Inês soube educá-lo. Vai bem na escola, ajuda em casa. Um anjo.
A amiga, Mariana, assentiu.
Sim, nota-se que é educado, agradece sempre os presentes aos convidados. Excelente menino.
Senti quente a subir-me à cara. Não o diziam diretamente, mas o recado estava lá: Martim é bom, Matilde não. Culpa da mãe.
Na sala ouvi-se riso de crianças e a voz do Ricardo animada. Imaginei-o, a fazer o papel do tio divertido, a mostrar como somos uma família feliz e unida.
Dona Rosa, posso ir cumprimentar o Martim e dar-lhe os parabéns? levantei-me, precisava de sair dali.
Claro, vá, vá. Ele está na sala. Dentro de pouco cortamos o bolo.
Fui para o corredor, sentia os olhares cravados nas costas. Encostei-me à parede. Dez minutos e já queria fugir.
O telemóvel vibrava no bolso. Era mensagem do Ricardo: “Estás bem?
Escrevi: “Sim. Mentira. O que tinha a dizer? Que já levei três críticas? Que sinto que faço exame de entrada que já chumbei antes?
Saiu um senhor dos seus cinquenta anos da sala, acenou-me e foi para a casa de banho. Continuei encostada à parede a pensar até quando aguentava ali. Duas horas? Três?
Tia Sofia?
Virei-me. À porta da sala estava Martim, camisa com botões e calças de fazenda. O aniversariante. Só o conhecia das fotos que a Inês enviava ao Ricardo, esta era a primeira vez que o via desde pequeno.
Olá, Martim. Parabéns!
Obrigado, sorriu. O tio Ricardo disse que trouxeram um presente.
Trouxemos, sim. Está lá na sala.
É o LEGO?
É surpresa, já vais ver.
Assentiu e correu para a sala. Menino educado. Exemplo do que a sogra acha que Matilde devia ser.
Fiquei a olhar para o chão, respirei fundo e entrei na sala para mostrar a cara aos outros convidados.
Devia lá estar uma dúzia de pessoas. Adultos nos sofás, poltronas; crianças rodopiavam em redor da mesa repleta de bolos secos, saladas e febras frias. Pilha de caixas de presentes num canto com papéis brilhantes de todas as cores. Conhecia algumas caras primas do Ricardo, marido da prima… Todos a olhar para mim, disfarçando a curiosidade.
Ricardo no sofá conversava animadamente com outro homem. Ao ver-me, levantou-se.
Aqui está a Sofia. Apresento-vos a minha mulher.
Cumprimentei, espalhando sorrisos automáticos, a ouvir frases do género “Finalmente conhecemos” ou “O Ricardo sempre falou muito de ti”. Mentira ele não partilhava a nossa vida nem queria.
Matilde encolhida num cantinho, de olhos postos no tablet. Aproximei-me.
Filha, guarda isso. Não é bonito ficares no tablet.
Não quero. Estou aborrecida.
Matilde…
Oh mãe!
Algumas cabeças viraram-se para nós. Corou-me logo a cara.
Guarda já o tablet, por favor.
Ela ficou de beiço, mas lá obedeceu, guardou-o na minha mala e refugiou-se num canto. Sentei-me ao lado, sentindo todos os olhares. Olhares de censura incapaz de lidar com a filha…
A Inês interrompeu a cena, à bandeja, copos de sumo e vinho.
Meus caros, vamos brindar ao Martim! Vem cá filho!
Ele chegou-se à mãe, abraçou-a. Tanta foto, toda a gente a tirar telemóvel.
Ao nosso rapaz! alguém ergueu o copo. Que cresça com saúde, seja feliz e inteligente!
Que tire só notas máximas!
Que traga sempre orgulho aos pais!
Todos beberam. Provei o vinho, ácido e barato. O Ricardo colou-se a mim, tenso.
Presentes! anunciou Inês. Martim, senta-te, agora vais receber os teus presentes!
Eram muitos. Convidados em fila, cartão de felicitações para cada presente. Primeira, comprava-lhe material de desenho. A seguir, o tio dava um robot telecomandado os miúdos vibraram, Martim radiante.
Depois vieram livros, puzzles, jogos de tabuleiro, roupa. Cada caixa mais alta que a anterior. Martim agradecia, sorria, dava abraços. Perfeito, como a avó queria.
Olhei de soslaio a Matilde. Ela olhava para aquela pilha com um brilho nos olhos de inveja.
Filha, não olhes assim, sussurrei.
Porque é que ele ganha tanta coisa? respondeu ela, baixinho.
Porque é o aniversário dele.
E o meu é quando?
Em outubro. Falta pouco.
Tanto tempo!
Ssshh, não agora.
Ricardo aproximou-se com aquele nosso presente. A caixa colorida, fita dourada. Martim abriu e exclamou:
Uau! É o LEGO City que eu queria! Olha mãe, é mesmo o que pedi!
A Inês sorriu:
Claro, o tio Ricardo e a tia Sofia sabem escolher. Obrigada!
Martim correu a abraçá-lo, depois veio meio envergonhado abraçar-me.
Obrigado, tia Sofia.
Diverte-te, Martim.
Alguns começaram logo a comentar o preço do brinquedo, outras aplaudiam a escolha. Dona Rosa, encostada à porta, assentia satisfeita.
Ainda bem que não pouparam no sobrinho.
Cerrei os punhos. “Não pouparam”… como se fosse caridade.
Matilde puxou-me pelo braço.
Mãe, eu também posso ganhar um presente?
Inclinei-me.
Não, filha. Aniversário não é teu.
Mas eu queria!
Agora não é a tua vez.
Ela não aceitou. Levantou-se, dirigiu-se ao Martim e, alto, perguntou:
Martim, emprestas-me um dos teus presentes?
Todos ficaram em silêncio e olharam. Ele olhou sem perceber.
O quê?
Tens tantos, podes dar um a mim?
Levantei-me de imediato, agarrei-a pela mão.
Vamos embora.
Mas eu quero um presente! Eu quero o LEGO, o robot, o…
Ela desfez-se em lágrimas, gritava, deitada no chão de raiva. Birra violenta, como nunca antes. Todos calados, Inês ficou lívida, Dona Rosa de braços cruzados, com um ar de vitória estava provado: a neta era mimada e mal-educada.
Ricardo tentou acalmá-la.
Filha, anda comigo lá fora que explico…
NÃO quero explicação, quero presente!
A gritar, a bater com os pés no tapete, ranho, lágrimas. E eu ali, parada, olhos de todos em cima, julgamento nos rostos.
Qualquer coisa em mim quebrou-se.
Matilde, levanta-te, vamos-nos embora.
Peguei-lhe com força, puxei-a. Ela tentou soltar-se, Ricardo tentou interromper:
Sofia, espera, não sejas assim…
Mas não ouvi. Arrastei-a para o corredor, Dona Rosa bloqueou a porta.
Não vá assim a correr! Espere um pouco!
Olhei-lhe nos olhos e saiu-me tudo o que, três anos, guardei:
Talvez se a sua família não fizesse dos presentes demonstração de poder, a minha filha não andasse atrás de atenções!
Ela ficou branca.
O que disseste?
O que penso. Só dão valor ao que se gasta, ao aspeto. Criaram um ambiente em que quem não é perfeito, não serve. Então ela busca atenção como pode!
Sofia, chega, Ricardo tentou.
Não, não chega. Anos de olhar de lado, de indiretas… Chega! Eu não tenho de provar nada!
Inês entrou no meio.
Falas assim connosco? Na casa da nossa mãe?
Estou cansada de ser julgada!
Não mereces respeito só porque sim, retorquiu Inês.
Dezanove anos de casamento, uma filha, casa arrumada, trabalho. Não chega?
Basta de escândalos! elevou a voz Dona Rosa.
Vocês dividiram a família. O Ricardo vive dividido. E eu já não aguento mais.
Ricardo tentava entender, branco como a parede.
Sofia, chega, por amor de Deus…
Estou farta. Ou escolhes a tua família eu e a Matilde ou continuas nesta divisão.
Ele ficou parado, sem se mexer.
Vais-me pôr a escolher?
Foste tu que deixaste sempre tudo passar, não defendeste, só pediste para aguentar.
Silêncio. Peguei na Matilde e saí. Ricardo tentou bloquear o caminho.
Vais para onde?
Para casa.
Sofia, vamos conversar.
Não há nada para conversar. Não volto mais cá.
Assim não resolves…
Respeita-me ou não me tens mais.
Desviei-o, calcei os sapatos a Matilde e saí. Dona Rosa seguiu-nos pelo corredor.
Se fores agora, não sei se perdoo
Não espero o seu perdão.
Ricardo apareceu.
Percebes o que estás a dizer?
Percebo. Ou estamos juntos, ou cada um segue o seu caminho.
Depois do choque, saí porta fora. A Matilde ainda fungava. Fomos apanhar um táxi. No caminho, ela adormeceu no meu colo, a soluçar.
O Ricardo ligou uma, duas, três vezes. Desliguei o telemóvel. Chegámos a casa, deitei a Matilde no sofá, cobri-a. Sentei-me, olhei para ela. Dormia, cansaço e mágoa misturados.
A minha menina. Mimada? Talvez. Mas tudo o que fiz foi dar-lhe o que não tive: tempo, atenção, carinho. Será demais? Onde acaba o amor e começa o mimo?
Não sei.
Passadas duas horas ouvi a chave na porta. O Ricardo chegava. Cumprimentou. Fui fazer chá. Ele sentou-se à mesa.
Ela está a dormir?
Sim.
Silêncio, prolongado.
A mãe está de rastos. A Inês diz que foste injusta.
Talvez.
Percebeste o impacto do que disseste?
Disse a verdade.
Ofendeste a minha mãe.
Que só viu a Matilde três vezes em três anos. Isso é amor de avó?
Ela tem problemas de saúde, tem dificuldade em ir até ao Seixal…
Mas vê a Inês todas as semanas.
Ela mora ali ao lado…
Tu sabes bem que há mais nisso. Tua mãe nunca gostou de mim.
Não é verdade.
Nunca serei suficiente. Estou farta.
Fez silêncio. Sentei-me à frente dele.
O que queres que faça?
Que me escolhas.
Mas é a minha mãe!
Sou tua mulher.
Estás a exigir escolha?
Estou a traçar limites. Ou te encontras a ti mesmo, ou esta família desiste.
Ele abanou a cabeça, olhos cansados.
Sempre tentei agradar à minha mãe. Agora vejo que fui péssimo marido.
Aproximei-me, abracei-o.
Não quero que deixes de falar com ela. Mas quero respeito.
Mas e se ela não for capaz?
É ela que tem de escolher. Não nós.
Amo-te, Sofia.
Também te amo. Vamos encontrar maneira, juntos.
Fui ver a Matilde. Dormia, sorriso sereno. Beijei-a.
No dia seguinte, o Ricardo disse que a mãe queria falar connosco.
Vamos lá amanhã à tarde? perguntou.
Só se garantires que me defendes.
Prometo.
No caminho, ninguém falou. O céu já tinha mudado, pesado, nublado.
A Dona Rosa abriu a porta mais velha, cansada.
Entrem.
Na cozinha, depois do chá recusado, disse:
Sofia, aceito o teu pedido de desculpa pela forma de ontem, mas não pelo conteúdo.
Só quero ser tratada com respeito.
Também quero uma família sem confusão.
Vamos tentar do zero.
Silêncio. Respirou fundo.
Tentemos.
Quando saímos, abraçou-me pela primeira vez.
Daqui a uma semana venham com a Matilde, faço tarte.
Está combinado.
A caminho de casa, o Ricardo perguntou:
Achas que vai funcionar?
Não sei. Quero acreditar.
À entrada, a Matilde aguardava com um desenho:
Mãe, fiz a nossa família!
No papel: eu, o Ricardo, ela, a avó e o avô. Todos de mãos dadas.
Sorri. Abracei-a.
No fundo, talvez as coisas melhorem. Vai levar tempo, mas ao menos agora, estou disposta a tentar.







