A funcionária tentou passar-me os seus relatórios. Reencaminhei o pedido dela ao chefe: «Ajude a Leonor, ela não está a conseguir».
Leonor apareceu no nosso departamento há cerca de um ano e meio. Uma mulher simpática, muito cuidadosa, dedicada, mãe de dois filhos. No início, os pedidos dela pareciam inofensivos: «Oh, estou retida no centro de saúde, atende o meu telefonema», «Preciso de ir buscar o miúdo mais cedo ao infantário, ajuda-me a carregar o relatório no sistema, são só dois botões». No grupo existe o hábito de nos apoiarmos, e achei correto dar uma mão à colega.
Mas existe uma linha fina entre a entreajuda e o hábito de passar o trabalho próprio aos outros. Passados alguns meses, reparei que aqueles «dois botões» já se transformavam em tarefas completas. Leonor enviava-me mensagens às cinco da tarde, acrescentando: «Tu ficas sempre até às seis, e o meu mais novo está doente». É uma manipulação clássica: quem manipula usa o sentido de culpa e normas sociais. Na nossa sociedade, o papel de mãe é quase sagrado, e ela aproveitou isso até ao ponto em que senti que já não tinha energia.
Leonor construía à sua volta a imagem da mulher apressada, heroína, que luta com a vida doméstica e o trabalho, mas a realidade era outra: o salário era igual para ambas, a diferença é que os meus finais de dia eram meus, enquanto parte do trabalho dela acabava por ficar sobre a minha mesa. Quando recusei pela primeira vez, de forma delicada, dizendo que estava ocupada, vi surgir uma agressividade passiva: «Tu não tens filhos, não sabes o que é seres puxada de todos os lados». É um truque típico: quem manipula tira-nos o direito ao cansaço, dizendo que os nossos motivos «não são tão válidos».
O momento decisivo chegou no fim do trimestre. Teríamos de entregar as tabelas de vendas compiladas trabalho minucioso, a exigir concentração. Às 16h45 recebi um e-mail de Leonor com dados em bruto e uma mensagem: «Mudaram o evento no jardim de infância, preciso de sair. Faz, por favor, tu és mestre nisto, demora dez minutos, e eu não sei onde deixar o miúdo. Amanhã agradeço». Naquele instante percebi: se cedesse, estaria a comprometer o meu tempo livre durante meses. Recusar diretamente significaria ficar presa a ofensas e queixas, então precisava de mudar o tema da conversa passar do favorecimento pessoal para o âmbito das regras de trabalho.
Não lhe respondi de forma rude. Limitei-me a reencaminhar o e-mail ao chefe de departamento, João Pereira, com uma mensagem neutra: «João, boa tarde! Envio o email da Leonor. Por motivos familiares, ela está a delegar tarefas aos colegas e não consegue acompanhar o volume de trabalho neste horário. Peço que ajude a Leonor: talvez seja bom rever o número de tarefas ou pensar numa redução da carga horária, para que possa cuidar dos filhos sem desfazer a organização do departamento. Hoje estou a 100% com os meus projetos e não consigo absorver o bloco dela sem prejudicar a qualidade do trabalho».
Carregar no botão «Enviar» deu medo: pensamentos invadiram-me «Isto é ser dedo duro», «Vão odiar-me». Mas já estava farta de fazer trabalho de outra pessoa.
A resposta foi imediata. João Pereira não sabia que parte do trabalho da Leonor era feito por mim; para ele tudo era perfeito. Na manhã seguinte, Leonor foi chamada ao gabinete. Não sei o que falou, mas saiu de lá vermelha e calada. Nunca mais me pediu para «atender» ou «terminar» nada dela.
Há quem diga: «Devias ser mais compreensiva, crianças são sagradas». Claro, mas ser bom à custa do esforço dos outros é exploração. Quem realmente passa por dificuldades fala com o chefe, acorda teletrabalho, horário flexível ou férias não carrega o colega às escondidas.
Não foi vingança, apenas defini os meus limites. No trabalho existe uma regra simples: se aceitas em silêncio o trabalho de outra pessoa, está tudo bem para ti. O fluxo de pedidos da Leonor acabou. Agora, entre nós, só há formalidade e cortesia e o departamento funciona de novo. Descobri que Leonor consegue lidar com tudo, desde que não tente pôr as suas responsabilidades nos ombros dos outros.






