Certo dia, recebi um telefonema da minha tia-avó distante convidando-me para o casamento da sua filh…

Olha só, deixa-me contar-te o que me aconteceu há pouco tempo, porque ainda me dá vontade de rir só de lembrar! Um dia, toca o telemóvel e é uma daquelas primas afastadíssimas da minha mãe, a Tia Graça, a convidar-me para o casamento da filha a minha prima em quarto grau, que eu já nem sabia de que cor era o cabelo desde que a vi pela última vez, ainda ela tinha seis anos. Isto é, quando Efigénia tinha seis anos.

Nem é que eu seja lá grande fã destes encontros de família, mas tentei escapar e claro que não colou. A minha tia foi logo directa ao assunto, quase ameaçadora: Uma vez em cada vinte anos há-de chegar, não me apareças que é o fim do mundo! E não é que uns dias depois chegou um convite todo fofo, com pombinhas e rosas, assinado pela Efigénia e pelo Armando? Ainda vieram lembrar-me outra vez dois dias antes, não tive escolha nenhuma, tive mesmo de ir.

Pensei, pronto, lá se vai o sábado, mas que remédio Lá fui eu para o restaurante, de ramo de flores na mão, com uma disposição pouco simpática e já a pensar em pirar-me à socapa passado uma hora. Entro no salão do casamento e sentam-me numa mesa cheia de malta nova, amigos do noivo, todos já bem regados com vinho tinto e a elogiar, Ai que tia tão gira tem a noiva, nem parece tia nenhuma! Venha lá conhecer-nos melhor, vamos pôr isto animado! E olha, entrámos todos na brincadeira, e eu até me comecei a divertir.

Quando vi a noiva, nem reconheci. Depois de tantos anos, aquela miúda morena e magrinha tinha-se transformado numa loira exuberante cheia de curvas. Dizia-me mais a versão antiga, confesso. No geral, a festa estava meio estranha: várias tias com cara amarrada, os maridos a olhar de soslaio, o noivo parecia que queria fugir dali a correr, a noiva convencida que era a rainha da beleza e, sinceramente, se não fosse o nosso grupinho a animar, aquilo parecia mais um velório que uma boda. E as tias olhavam-nos com um ar nada satisfeitas.

Quando dou por isso, já tinha perdido o primeiro brinde, e o segundo começou, comigo! O mestre de cerimónias, todo entusiasmado quando descobriu quem eu era, anuncia alto e bom som: Agora vamos ouvir os parabéns da jovem e bonita tia da noiva! E eu, a tentar ser querida: Queridos Efigénia e Armando

Mal acabo, cai um silêncio de cortar à faca, e percebi que alguma coisa estava muito errada. Olho à volta e não vejo a minha tia Graça, e penso: Não me digas que ela mudou assim tanto que nem a reconheço?

Nisto, a tia do outro lado da mesa, de vestido cor-de-rosa, sussurra furiosa: A noiva chama-se Rosalina, e o noivo é o Luís. Fico aparvalhada: Como assim Rosalina? E Luís? A senhora continua: Isto hoje em dia qualquer um vem às festas dos outros, é só para comer e beber à borla Já tivemos um assim na despedida de solteiro, só saiu quando o pusemos na rua. Que falta de vergonha!

Amiga, nesse momento eu percebi que o verdadeiro circo ia começar. Os convidados olharam-me de cima a baixo, quase a espumarem, a levantarem-se das cadeiras. Felizmente ainda não começavam a arregaçar as mangas, mas já faltava pouco! Tentei ainda defender-me: Mas tenho o convite aqui! E comecei a agitar o papel: Está tudo escrito: Efigénia e Armando, é neste restaurante, neste salão E se não fosse o empregado de mesa, não sei como ia sair dali.

Chega ele e diz-me baixinho: Menina, há outro salão, no piso de cima, talvez seja onde quer ir? E as tias, nem assim paravam: Pois claro, vai lá acima agora encher a barriga de borla! Marca presença aqui, depois vai para o outro salão. Não há direito, tanta lata para estas aventuras! Outra tia ainda comenta: A falta de vergonha é uma bênção, não é, Dona Irene? Olha, parecia uma cena tirada duma novela!

Só para ficar claro, eu nem cara de aventureira ou de alguém com má reputação tenho. Mas, vista de fora, nunca se sabe Os amigos do noivo lá tentaram defender-me e logo levou resposta: Já começou a enfeitiçar os homens todos, valha-me Deus! E outra ainda: Olha que a nossa contabilista também ficou sem marido por causa de uma assim, basta uma distracção e já estão a cortar-nos o tapete.

Nunca destrui casamentos de ninguém, mas naquele instante até comecei a olhar para os maridos presentes e pensar qual seria o menos mau, já que estava a ser acusada, ao menos fazia jus à fama, não?… Felizmente, o empregado foi chamar a minha tia verdadeiríssima, que chegou num instante, logo a perceber tudo e a jurar a pés juntos que me conhecia, mas sempre com aquele arzinho maroto, a piscar o olho, como quem diz: Esta só podia sair à família, sempre com um parafuso a menos!

Valha-me Deus, lá me levaram para o salão certo, onde estava finalmente a Efigénia morena, giríssima, e o tal Armando, coitado, e onde tive de ser ressuscitada à base de medronho e vinho do Porto. Valeu ao menos que ainda não tinha dado o presente.

O melhor foi que, no fim, os amigos do noivo da primeira boda ainda me foram levar à porta e todos a rir!

Enfim, só mesmo comigoSaí de lá com dores de barriga de tanto rir e com metade da festa a acenar-me da entrada, chamando nomes carinhosos e dizendo para voltar sempre, mas só se fosse para animar outros casamentos. Ainda hoje, quando vejo um convite de casamento, faço questão de confirmar três vezes o nome dos noivos, o piso do salão e, claro, levo sempre na carteira um extra de sentido de humor. No fim das contas, descobri que não há família chata nem festa envergonhada que resista a uma boa dose de equívoco e a um medronho a tempo certo. E, se não fosse aquela confusão, nunca teria dançado o vira num casamento alheio, conhecido tanta figura e sabido que afinal herdei mesmo a veia cómica da tia Graça. Porque família, no fim do dia, não é só quem recebe o nosso presente: é quem, à primeira trapalhada, nos puxa para a pista, nos salva dos enganos e ainda por cima nos oferece mais um copo só para garantir que a história fica ainda melhor para a próxima vez que for contada.

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