Leonor Graça era uma senhora que os anos só faziam mais bela, conferindo-lhe uma postura elegante e uma força interior notável.
Estava viúva há cinco anos. A dor da perda já se tornara apenas uma cicatriz e os filhos um rapaz e uma rapariga tinham seguido as suas próprias vidas. Aos sessenta anos, Leonor vivia sozinha num T2 acolhedor, organizado com carinho e esmero. A solidão nunca lhe pesara demasiado: ia à piscina, visitava exposições e até aprendera a fazer macarons franceses, que antes só contemplava nas montras das pastelarias.
Mas todos sabemos, ninguém foi feito para viver sozinho. Às vezes sentia falta de alguém para comentar as notícias, resmungar sobre o tempo ou assistir em silêncio a uma novela saboreando uma companhia discreta.
Foi então que Manuel Tavares apareceu na sua vida, como saído de um filme antigo. Conheceram-se num dos bailes de danças sociais para pessoas de certa idade. Ele convidou-a para um foxtrote, não lhe pisou os pés algo raro e passou a noite a elogiá-la, deixando Leonor, desacostumada a tantas atenções, corada de prazer.
Manuel tinha sessenta e sete anos, cabelo grisalho, postura firme e camisa engomada. Parecia de outra época, e contava que sempre fora engenheiro, também viúvo, morando agora com a filha e respetiva família.
Leonor, és uma mulher extraordinária dizia ele, ao deixá-la à porta do prédio. Já não se fazem como tu.
O namoro deslanchou depressa, mas sempre muito discreto: passeios, cafés, um gelado à beira-rio, conversas longas ao telefone. Manuel era atencioso, nunca se queixava da saúde nem pedia dinheiro emprestado, um sinal importante de respeito para Leonor.
Ao fim de um mês, chegou o convite que ela aguardava com um misto de ansiedade e expectativa. Manuel quis que conhecesse a filha num jantar em sua casa.
A minha Maria do Céu, diz que está curiosa contigo disse, em tom doce. Não paro de falar de ti. Vem jantar connosco, para fazermos uma noite em família.
Leonor preparou-se como se fosse para um baile de finalistas: fez o cabelo, escolheu o melhor vestido do armário.
O apartamento de Manuel era amplo, um T3 num prédio antigo, com tetos altos, estuque, cheiro a livros velhos e uma certa tensão no ar difícil de ignorar.
Quem abriu a porta foi Maria do Céu. Trinta anos, mas parecia mais velha. Forte, queixo firme, olhar clínico e avaliador, como quem inspeciona um lote de conservas esquecidas.
Boa noite disse ela, seca, sem sorrir. Entre, por favor. O meu pai está há horas a escolher uma gravata.
Leonor ofereceu um bolo caseiro, assado de manhã cedo. Maria do Céu pegou nele como se pegasse num rato e seguiu para a sala de estar.
A mesa estava posta com generosidade: cristais, saladas, pratos quentes. Via-se que tinham caprichado. Manuel surgiu radiante do quarto, pronto a mimar a convidada:
Leonor, senta-te aqui. Maria do Céu, põe uma salada para a nossa amiga.
O jantar começou formal. Conversa de circunstância: o tempo, os preços no mercado, as notícias. Maria do Céu quase não falava, mastigando devagar e fitando Leonor com um ar pesquisador.
Leonor sentiu-se incomodada, tal e qual uma peça num leilão.
Depois de terminarem o prato principal e de Manuel servir chá, Maria do Céu pousou o talher, limpou os lábios e, encarando Leonor, perguntou em voz direta:
Diga-me, dona Leonor, como é o seu apartamento?
Leonor engasgou-se com o chá, tão inesperada e indelicada foi a pergunta, que até pensou ter ouvido mal.
Desculpe? balbuciou.
O seu apartamento insistiu Maria do Céu. É seu? Quantos metros quadrados? Em que zona? Que andar?
Manuel pareceu encolher-se, enfiando o nariz na chávena, fingindo que via ali algo de fascinante.
Bem é um T2 respondeu Leonor, um pouco desorientada perto da Avenida da Liberdade. Mas porquê? Tem alguma coisa a ver com o jantar?
Maria do Céu cruzou os braços, recostando-se.
Tem tudo a ver, dona Leonor. Somos pessoas adultas, não vamos fingir romanticismos. Tenho de saber sobre as condições.
Que condições? Leonor olhou para Manuel, procurando apoio, mas ele fixava o padrão da toalha.
As condições em que vai acolher o meu pai cortou Maria do Céu, concisa. Quero ter a certeza de que ele ficará confortável, bem tratado, numa zona calma e com o centro de saúde por perto. O meu pai precisa de sossego e dieta rigorosa.
Leonor pousou a chávena no pires. O tilintar da porcelana soou como um gongo distante.
Está a dizer que me entrega o seu pai? articulou ela devagar. E quem disse que eu o acolho?
Maria do Céu surpreendeu-se genuinamente, levantando as sobrancelhas:
Como não? Veio jantar a casa. O meu pai só fala da senhora… Se estão juntos, é natural passarem a viver juntos, não?
Talvez disse Leonor, cautelosa mas um mês é muito cedo. E quem lhe disse que o seu pai deve viver em minha casa?
E onde mais? Maria do Céu começou a enumerar. Temos um T3, sim, mas moro com o meu marido e dois adolescentes. O meu pai não aguenta tanto barulho. Precisa de paz, e a senhora vive sozinha num T2. Combina na perfeição.
Falava como se combinasse o destino de um gato abandonado.
Pensei que ficasse contente continuou ela, vendo Leonor calada. Um homem em casa, tarefas de pequenas manutenções. E para mim um alívio: já não preciso de cozinhar para cinco, lavar roupa, ajudar nos trabalhos de casa.
E mais, o meu pai é de poucas exigências, nem lhe mexo na reforma. Fica com mais para si.
Leonor fixou Manuel.
Ó Manuel, porque não dizes nada? perguntou, baixinho. Também achas que a tua filha pode decidir por ti como se fosses um pacote postal para me facilitar a vida?
Manuel levantou o olhar. Neles havia um cansaço e submissão que assustou Leonor.
Leonor murmurou ele a Maria do Céu só se preocupa. Aqui em casa é apertado, os rapazes fazem barulho, contigo era sossegado, tudo corria bem.
Dentro dela tudo fervia. E ela, que julgava viver uma história de amor, descobria agora um casting para cuidadora gratuita.
Olhem Leonor levantou-se. Obrigada pelo jantar. O salpicão estava ótimo.
Mas vai aonde? crispou-se Maria do Céu. Nem discutimos os detalhes. Quando faz o meu pai a mudança? Não são muitas coisas, mas a poltrona favorita tem de ir.
Leonor olhou para aquela mulher forte e pragmática que tratava o pai como se organizasse tralha de armazém.
Ouça, Maria do Céu a voz de Leonor soava cortante. Procuro um homem para ser feliz, não para resolver problemas domésticos dos outros. Não sou nenhum lar de terceira idade.
E dirigindo-se a Manuel:
E tu, Manuel, se aceitas que a tua filha decida assim por ti, não és o homem certo para mim.
Mas Leonor tentou Manuel, mas Maria do Céu logo lhe pôs a mão no ombro e sentou-o de volta.
Deixa lá, pai! disparou ela. Paciência. O meu pai tem boa reforma, logo aparece quem queira! Não faltam sozinhas a fazer fila.
Leonor foi buscar o casaco ao hall, as mãos tremiam, os botões teimavam em não encaixar. Da sala ainda ouvia o tom monocórdico de Maria do Céu:
bem vos disse, são todas iguais. Só querem conversa e dinheiro, nada de responsabilidades. Pai, vamos chamar a dona Luísa do 2º esquerdo, ela está sempre de olho em ti…
Ao sair para a rua, Leonor pensou: Bendito seja o momento em que isto se revelou logo, ao jantar, e não passados meses, quando já tivesse criado laços.
O problema das casas, como dizia o nosso Eça, estraga muita gente. Os filhos querem viver à vontade, mandando o pai para casa de uma boa senhora por conveniência. Fácil, vantajoso, prático.
E infelizmente, muitos aceitam por medo da solidão, por precisar de um qualquer um.
E vocês, o que acham? Leonor fez bem em sair? Ou devia ter entendido o lado dele e ficado, mesmo que fosse a filha a agir daquela maneira?







