Baratas: Um Olhar Sobre os Intrusos das Casas Portuguesas

Baratas

As baratas na cabeça da Inês dançavam um vira animado. Cheias de energia, agitavam as patinhas e faziam malabarismos ao som de uma música que, por vezes, parecia mesmo ecoar dentro dela, cada vez mais alto e frenético.

No fundo, as baratas de Inês costumavam ser bem comportadas. Silenciosas, humildes, quase nobres. Isso pelo menos garantiam-lhe o último atributo, pois Inês trabalhava com dedicação na genética dos seus pensamentos excêntricos. Do original, vinha pouco ela mesma o admitia.

A avó dizia sempre à Inês que ter baratas na cabeça até fazia bem. Se aparecem é sinal de que a pessoa é genuína, com personalidade. Daqueles com fogo cá dentro. Quem traz um lume dentro de si, vive de forma mais alegre e quem o rodeia também nunca se aborrece! exclamava muitas vezes, com brilho nos olhos. Ao quotidiano falta-lhe pimenta, e tu tens de sobra!

O conceito de pimenta, na verdade, não era criação da Inês. Foi a avó Amália, que apesar dos seus oitenta e muitos anos, era avançada e cheia de vida, com aquela veia moderna de quem apanhou o comboio do tempo sem nunca perder o passo.

Na realidade, para Inês, Amália não era só avó, era bisavó. Mas quem se importa com os bis quando a avó já cá não está há anos e a bisavó ocupa esse lugar no coração e na casa? São só detalhes.

Inês adorava a sua avó. Não podia ser de outra forma. Não tinha ninguém mais próximo do que ela. A mãe nem contava!

A mãe de Inês era não havia igual! Inteligente, bonita, diretora e logo de uma escola! De outra escola que não a de Inês, claro está, graças à insistência da avó Amália.

Para quê dar à menina as tuas chatices?

Não percebo…

Pois! Lá seria só mais uma aluna, aqui seria sempre a filha da diretora. Não arranques à miúda uma reputação que ainda lhe pode fazer falta. Perder uma boa reputação é a coisa mais fácil do mundo, ganhar uma é que é difícil. Vá, não compliques, filha!

A avó Amália falava sempre com franqueza. Achava que era assim que se devia viver e educar. Inês nunca soube se isto era mesmo o certo, mas via os resultados. Amália educou a filha, mãe de Inês, desde os cinco anos, depois da tragédia com a mãe dela filha de Amália. O que aconteceu, Inês soube só muitos anos depois. Nem avó nem mãe gostavam de falar disso.

Foi o destino, Inêsinha. Uma infeliz coincidência. Uma telha… A má sorte de alguém não limpar o telhado e o preço foi esse: uma vida. Ainda bem que foi só uma!

E poderia acontecer a qualquer um?

Queres uma mentira?

Não!

A qualquer um, meu amor. A ti, a mim, até ao Papa. Qualquer pessoa. Mas não serve de razão para ter medo.

Então serve para quê?

Serve para viver cada minuto como se fosse o último! Para fazeres alguma diferença, dar ao mundo mais luz, torná-lo mais bonito, justo. Porque deste lado escuro já temos de sobra sem a nossa ajuda.

Falar é fácil, avó. Fazer, já sei que não é…

Ainda bem que sabes. Assim vais pensar melhor nas tuas decisões. As tuas baratinhas vão crescendo sabidas.

Mas que nojo, avó! Baratas? Lá tens de meter bicharada?!

Inês não gostava de insetos. Borboletas, joaninhas vá que não vá. Mas baratas… davam-lhe arrepios.

Que horror! Avó! Uma barata!

Deixa estar! Pode ser que tenha família. E a avó Amália, dona de uma agilidade surpreendente, abatia a barata com a sua chinela preferida e ficava de olhos atentos à caça.

Disseste que podiam ter filhos!

Pois, gostava de saber onde! E iniciava-se uma limpeza geral, deixando claro que a família da barata não sobreviveria.

À medida que crescia, Inês percebeu a avó despachava as baratas por pena dela, porque sabia que Inês só fazia escândalo e demorava-se tanto a agir que os insetos podiam criar três gerações entretanto.

Toda a gente da família, dos ginastas aos vizinhos, sabia deste traço de Inês.

A sua filha devia dedicar-se a outra coisa. Tem flexibilidade, mas pensa devagar. Pode ser perigoso para quem tem de decidir rápido. Pensem nisso, está bem?

Vou pensar. disse Amália, e pôs Inês no clube de xadrez.

O clube foi um achado: ali, ninguém pressiona o tempo de pensar, ainda por cima até a elogiavam pela calma. Inês ficou por lá e bem.

Amália orgulhava-se muito dos sucessos da neta e fazia questão de mostrar os troféus aos vizinhos sempre que ela ganhava um torneio.

Inês, és a minha estrela!

Ó avó, não me assustes! Tu disseste à mãe que gente muito estrela não tem sorte nenhuma!

Não percebeste nada do que quis dizer!

Então explica. Sou uma criança, ora essa!

A avó nunca deixava uma pergunta de Inês sem resposta. Explicava tudo, com detalhe e paixão mesmo que a mãe torcesse o nariz.

Ó mãe, que conversas tu tiveste com a Inês? Veio hoje perguntar-me o que era carregar ao colo. Tem treze anos!

E depois? Hoje em dia as crianças sabem tudo. Devias ouvir as conversas que correm na turma dela! O que não sei é onde fui parar, após três casamentos! Mais valia ter ficado solteira…

A Inês nunca me contou nada dessas histórias.

Pois, não perguntas. Somos assim, os Silvas: vidas sossegadas cá por fora, e cá dentro, as baratas dançam-nos a noite toda! Fala com a tua filha, não tenhas medo! E não a critiquei, só lhe lançei a expressão. É uma moça esperta.

Avó, que faço do cérebro dela? Faz perguntas de cientista maluca!…

Como eu fazia contigo, lembras-te?

Tu nunca escondeste nada. Porquê?

Porque os trambolhões na vida doem mais do que as verdades que ouvimos em criança.

O tempo passou, mas a mãe de Inês acabou por encontrar uma nova felicidade. Inês tinha acabado de fazer dezasseis anos. Durante quase um ano, Eulália Namora encontrou alguém que lhe renovou o sorriso e Inês soube por acaso, ao vê-la num café. A mãe nem percebeu que a filha a vira ao longe, a rir, rejuvenescida. Finalmente, Inês percebeu: a mãe ainda era jovem e merecia ser feliz.

Avó, tu sabias?

Suspeitava.

Não quero atrapalhá-la…

Então não atrapalhes. Simples.

E se ele a magoa?

A avó de Inês, a fazer rissóis na cozinha, limpou as mãos ao avental, abraçando a neta apressada.

Quem é que permite? A nossa Eulália não está sozinha. Tem quem olhe por ela.

Inês confiava, porque a avó tinha sido investigadora criminal, desmascarara dois serial killers. Não era só as baratas que dançavam no seu cérebro era a coragem.

No fim, entregar teve de ser. O escolhido da mãe, senhor Tomé, cedo veio a casa pedir a mão de Eulália a toda a família. Inês concordou, porque nas palavras dele não havia fingimento. E a rotina na cara da mãe aquela ruga, a única que Inês conhecia, desaparecia na presença dele, substituída por sorrisos.

Os ciúmes, esses, demoraram a passar. Inês achava difícil dividir a mãe, principalmente quando chegou o irmão João. Mas um dia, a avó perdeu a paciência.

Ai, filha, fomos nós que te demos educação! Mas demos-te poucas palmadas!

Avó!

Pois, não julgava que eras tão egoísta.

Não sou, só…

Só te custa dividir a mãe. Percebo. Mas agora já não estás sozinha, nem eu nem tua mãe somos eternas. Compreendes? Agora já não me preocupo. Já pensaste por este lado?

Inês resmungou, mas sabia que era verdade: a avó falava no fundo do coração.

Apesar de toda esta azáfama, Inês já tinha Denis na sua vida colega de turma, arisco e espevitado. Conheceram-se de forma desastrada: Inês, toda compenetrada antes de um evento escolar, tropeçou nas escadas, Denis apanhou a mala dela e estendeu-lhe a mão. Ela, orgulhosa, recusou.

Deves! Queres mesmo ajudar, ajuda!

E não te ajudo?

És pouco lógico.

Mais tarde, ao descobrirem que ambos queriam ser médicos pediatras, Inês desconfiou mais ainda. Quando entrou para um grupo de voluntariado com crianças vulneráveis, Denis já lá estava, a fazer malabarismos com balões e piruetas e foi aí que Inês percebeu que as baratas deles dançavam a mesma dança.

E, como dizia a avó:

Estima bem aqueles que possuem baratas da mesma raça. Não aparecem muitos!

Avó, e tu tiveste desses?

Tive três! E todos foram meus maridos. Mas as coisas não correram, mas olha, amigos fiquei sempre.

E porque é que nunca nenhum ficou para sempre?

Um dia conto-te, mas deixa fazeres a tua própria colecção de histórias primeiro.

No dia em que Denis pediu Inês em casamento com anel, flores e todos os rituais a mãe chorou, a avó bateu palmas, esquecendo as suas dores, e até Dona Vera, a antiga vizinha, sorriu, dizendo-lhe ao ouvido:

Inês, não o percas! A avó sabe o que diz, quando fala das baratas…

E Inês, a sentir as baratas agitarem o seu cérebro com alegria, percebeu: no fundo, todos os bichinhos que tinha na cabeça só queriam uma vida cheia de sentido, barulhenta, com amor.

E ali, entre os braços da avó e da mãe, entre risos e lágrimas, percebeu mesmo. Em português antigo:

Ao fim ao cabo, no nosso rancho, nunca faltam baratas, minha amiga!

E Vera, juntando um piscar de olhos e um vira bem dado, saiu para abraçar toda a família. Porque, na verdade, nesta família portuguesa, baratas… eram só pretexto para celebrar a vida.

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