Ao ver quem o marido trouxera desta vez, a mulher riu tanto que os três gatinhos, atraídos pelo barulho, esconderam-se atrás das suas pernas. A gata, ao ver os filhotes, escapou das mãos do homem e logo começou a lamber aqueles minúsculos seres…
Numa manhã feita de névoa e sol, o motorista de uma carrinha de pequenas entregas recebeu um rol de ruas e tarefas para mais um dia surreal no Porto. Nos arredores da cidade, existia uma base compacta com uns dez veículos idênticos: ali havia um parque de estacionamento, uma sala com mesas de azulejo para um café apressado e uma máquina que marcava cada entrada e saída dos trabalhadores.
Sentou-se ao volante, deu à ignição e, como sempre, a sua carrinha velha tremeu e tossiu, lançando sons roucos que pareciam ressoar dentro do próprio sonho. No almoço, após desligar o motor, ia avançar para as mesas quando ouviu um gemido estranho, indizível, vindo debaixo do capô.
Parecia um assobio de correia ou que o ventilador roçava algo mas a máquina estava morta. Olhou o grupo dos outros motoristas, já acomodados e a rir de piadas impossíveis, e decidiu investigar. Levantou o capô e quase perdeu o fôlego. Sentado na tampa do ventilador, junto à grelha, estava um minúsculo gatinho preto, coberto de óleo e a miar baixinho.
Tremendo dos joelhos, encostou-se ao lado do carro. Por uma brevíssima fração de segundo, imaginou o desastre se o bichinho tivesse deslizado para as engrenagens fulminantes. Recuperando-se, pegou com cuidado no animal, fechou o capô e voltou à cabine.
Em casa, a esposa desencadeou uma tempestade:
Desleixado! Não viste antes de arrancar? E se o atropelasses? Dá-te por contente por não te mandar dormir no sofá! Percebeste?
O homem tentou justificar-se, as mãos abertas como quem implora clemência, enquanto o gatinho ronronava nos braços dela e, sem demora, era levado ao banho. De lá vinham vozes doces, murmúrios e estalidos de beijos.
Suspirando fundo, ele refletiu sobre a última vez que ouvira palavras tão ternas dirigidas a si. Sem conseguir lembrar, partiu rumo ao trabalho, como quem foge de si mesmo.
Na manhã seguinte, mais atento ao mistério do dia anterior, abriu o capô nada. Agachou-se para ver por baixo e, ali…
Ali estava um gatinho ruivo e branco! Ao inclinar-se, o pequeno miou alegre e saltou para ele. Segurando-o, tentava compreender como fora parar ali, e o que fazer agora. Recordando as palavras severas da mulher, virou a carrinha em direção ao lar.
Desta vez, não houve censura. Pelo contrário: olhou-o com admiração e disse, após vinte anos, ser aquele o seu gesto mais sensato.
Bravo! aprovou ela, levando o segundo minúsculo gato para o banho, seguido do companheiro da véspera.
O dia correu-lhe leve como azeite. Sentiu-se invulgarmente contente e seguro. À noite, jantavam em quatro: os dois gatos preferiram o colo da esposa, subindo-lhe pelas pernas, brincando enquanto ela ria com uma alegria cristalina, como nos tempos de mocidade. Esse riso, ele sabia, fora a razão do seu apaixonar.
Na aurora seguinte, já numa inquietação quase mágica, agachou-se novamente sob o carro.
Santo Deus! murmurou.
Havia ali um terceiro filhote, cinzento, com manchas brancas. Pegou-o suavemente.
Ao entardecer, a mulher guiou-o até uma bruxa, uma curandeira de renome no bairro da Sé, uma maga de olhos luzentes. Após analisá-lo, decretou: dois feitiços de amor, três maldições e o mal de olho. O tratamento: um mês de rituais e quinhentos euros.
Na manhã seguinte, já temendo a rotina fora do normal, fumou longamente antes de verificar. Sob o carro, olhou uma gata adulta, cinza, barriga flácida era a mãe dos três filhotes.
E agora perguntou, resignado o que fiz eu mais desta vez?
Suspirou, abriu a porta da cabine. A gata miou e saltou para dentro numa leveza de sonho.
Ao trazê-la para casa, a esposa riu tanto e tão contagiosamente, que os três gatinhos, atraídos pelo ruído, assustaram-se e esconderam-se nas suas pernas. A gata, ao encontrar a prole, soltou-se e começou a lamber cada um com dedicação maternal.
Ele assistia, atónito, como se nunca tivesse presenciado coisa parecida.
Mas afinal, o que está ela a fazer? perguntou ele, perplexo, à esposa.
Coitado! riu a mulher. Ainda não percebeste? Ela arranjou uma casa para os seus filhos e aproveitou para arranjar teto para si.
Curvou-se, afagou a mãe gata e abanou a cabeça.
Na minha vida inteira, nunca vi estratégia tão felina. É preciso ter gênio para tal.
Perto do fim da semana, a mulher proclamou ao marido que ele ia pescar no Douro. Espantado, ele ficou de boca aberta e olhos como pratos de faiança.
Vai lá, vai incentivou ela. Chamo as amigas, não me atrapalhes em casa. Está entendido?
Percebi disse ele, sem saber se achava boa ou má tal sorte. Mas, afinal, nesta surrealidade, a opinião dele era irrelevante.
Antes de ele partir, ela beijou-o.
Sempre soube que eras extraordinário.
Saiu para o alpendre e olhou à sua volta.
Meu Deus, que maravilha este lugar! Porque nunca notei antes?
Os pássaros cantavam não só nas árvores, mas por dentro dele também, como se o peito se fizesse ninho.
Amigas apareciam uma a uma, cada qual com garrafa e petiscos. Quando todas estavam acomodadas, a mãe gata cinzenta acomodou-se com majestade ao centro. As mulheres serviram espumante e ergueram os copos:
À sábia anfitriã, que ajeitou a vida dos filhos e a própria!
Depois, ninguém soube dizer qual foi o próximo brinde. A gata espreguiçou-se na toalha, os olhos semicerrados de felicidade, sentindo-se amada e em casa.
No sofá, seus três filhotes dormiam, enroscados num murmúrio de sonhos.
Em resumo, o brinde é simples:
Que nunca falte saúde às mulheres inteligentes e aos seus maridos, sortudos por viverem ao seu lado.
É isso que vos desejo.






