– Alô… É o Vasco? – Não, aqui é a Helena… – Helena? Quem é você?… – Minha senhora, quem é você…

Está lá Duarte? Não, não é o Duarte. É a Leonor Leonor? E quem é você?… Minha senhora, quem é que está a falar? Sou namorada do Duarte. Queria alguma coisa dele?… Ele não está, ficou até mais tarde no trabalho

Senti a cabeça a girar. Vi gotas vermelhas a cair no chão. O meu ventre puxava, uma dor que quase me fazia dobrar Sabia, de alma, que o bebé estava a chegar.

Meu marido, Duarte, há cinco anos que ruma ao estrangeiro à procura de trabalho. Primeiro esteve na Alemanha, a conduzir camiões, depois foi para França a pintar casas. Saiu daqui por dinheiro. Temos dois filhos, e sempre sonhámos dar-lhes o melhor futuro. Sabíamos bem que, em Portugal, seria impossível construir o que ambicionávamos.

Já lá longe, Duarte até tinha sorte. Todos os meses enviava encomendas de produtos, cá para casa. Eram latas, arroz, azeite, algumas guloseimas. E mandava transferências de euros para eu aplicar na poupança, com juros. Conseguimos juntar o suficiente para comprar um apartamento para o nosso filho mais velho.

Parecia tudo bem. Mas, meses atrás, comecei a sentir que algo mudava no meu corpo. Primeiro pensei: será menopausa? Não era isso. Engordei bastante, dava-me um sono profundo, comia mais do que nunca, o humor era instável. Segundo a internet, estava grávida. Grávida aos 45? Achei impossível, mas fiz o teste. Lá estavam duas linhas vermelhas, nítidas.

Não contei nada a ninguém. Nem aos filhos, nem às noras. Não queria ser alvo de chacota: Olha a mãe, a perder o juízo na idade madura. Escondi a barriga. Era inverno, vesti os casacos mais largos, ninguém desconfiou.

No fundo, não queria este bebé. Talvez digam que não tenho Deus no coração, mas já passei a juventude. Tenho filhos, até netos, e desejo cuidar deles, não andar atrás de fraldas e papinhas. E não temos dinheiro para criar uma terceira criança. Duarte teria de voltar outra vez para fora, e sem ele, eu não aguento.

Já diziam que o tempo avançava, fazer um aborto era perigoso. Talvez me arruinasse irremediavelmente. Convenci-me por semanas que tudo ia correr bem. Talvez Duarte até ficasse feliz. Decidi ligar-lhe pelo Skype, para contar. Só abri o microfone, nunca a câmara.

Está lá, Duarte

Não é o Duarte. É a Leonor.

Leonor? Quem é você?

Minha senhora, quem é você? Sou namorada do Duarte. Queria alguma coisa dele? Ele está a trabalhar.

Desliguei logo. As lágrimas vieram fartas, salgadas. A verdade é que os homens podem trair-te em qualquer canto do mundo, com qualquer mulher. Apetecia-me pedir o divórcio, deitar fora as coisas dele, apagá-lo da vida.

Mas dentro de mim ainda restava esperança. Sonhava que ele voltasse para a família, ao saber do bebé. Sabia que em Fevereiro ia regressar, era aniversário dos nossos dois filhos, tinha direito a férias. Sonhei que passeávamos num jardim, os três. Duarte segurava a nossa filha por uma mão, eu pela outra.

Na véspera do Dia dos Namorados, Duarte chegou. Preparei jantar especial, velas, música suave, o ambiente tranquilo.

Duarte, tenho uma surpresa para ti. Estou grávida. Dizem que é uma menina.

Sua descarada! gritou ele.

O rosto dele ficou encarnado, virou pratos para o chão, martelou com os punhos na mesa.

Estou lá fora, a trabalhar como um animal, e tu aqui, a pular de homem em homem? E queres que eu assuma este filho bastardo?

Duarte, deixa-me explicar

Sai da frente, não quero saber! empurrou-me com força, bati a barriga no canto da mesa e caí no chão.

Levantou-se, agarrou a mala e saiu. As portas bateram, ecoaram pela casa. Senti a cabeça a rodar, sangue no chão, dores no ventre. Quase não consegui pegar no telemóvel para chamar o INEM. Mas senti que a menina ia nascer.

Quando os médicos chegaram, já segurava a nossa filha nos braços. Era calma, não chorava, dormia um sono profundo.

Então, mãe, vens connosco para o hospital?

Não. Levem a criança. Não a quero.

Não quer? Como assim?

Está dito. Levem-na! Esta criança destruiu a minha família. Talvez alguém consiga amá-la, mas eu não. Basta, tirem-na da minha vista!

Dei a menina sem remorsos. Os médicos trataram de mim ali mesmo. O parto foi limpo, sem rasgos, sem drama. Quando o INEM saiu, limpei a casa, fui ao duche, deitei-me.

Nenhum dos meus filhos sabe que entreguei a menina. Todos os dias vou à igreja, rezo para que a minha filha cresça forte, que encontre a sua família. Sei bem que não consigo ser mãe novamente, não suporto reviver esse sacrifício. Só desejo uma coisa que Duarte volte para casa. Mas ele foi de novo para a Alemanha, só fala com os rapazes.

Podem dizer que sou uma mulher sem juízo, mas escolhi o marido, não a criança. Que Deus me julgue.

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