Leonor Figueiredo cresceu sem pai. Ou melhor, pai até tinha, mas quando Leonor fez 4 anos, ficou sem ele. O pai, Manuel Figueiredo, trabalhava na Proteção Civil, e morreu a tentar resgatar vítimas de um terramoto algures pelo sudoeste asiático ainda por cima morreu também o Faísca, o pastor alemão que Manuel criara desde bebé e com quem partilhava o pão e as meias.
Maria do Céu, a mãe de Leonor, ficou viúva, nunca mais quis saber de casamentos e criou a filha sozinha, orgulhosa como só uma portuguesa pode ser.
Aos 14 anos, Leonor decidiu inscrever-se numa turma juvenil de treino de cães no Clube Canino de Coimbra. Maria do Céu aprovou, claro, mas por dentro tremia que nem varas verdes não fosse Leonor seguir o caminho arriscado do pai. Quando Leonor fez 16 anos, apareceu em casa com um filhote de pastor alemão, mas demorou uma eternidade a escolher-lhe o nome, parecia que estava a escolher santo para procissão.
Um dia, voltando da escola, Leonor escutou a mãe a ralhar com o cachorro:
Ai, danado és tu, sempre a fazer asneiras, traquinas!
Leonor sorriu. Em miúda, quando chegava a casa feita num oito, a mãe dizia-lhe exatamente as mesmas palavras, com aquele ar de santa resignada. Leonor entrou na sala a rir e anunciou:
Já está, o nome é Traquinas!
Em dois anos, o Traquinas tornou-se num patudo vistoso, forte e disciplinado um cão de serviço como não há muitos. Leonor enchia-se de orgulho, tanto pela evolução do cão, como pela sua dedicação.
Chegou a altura de ir ao quartel alistar-se, e Leonor pediu para poder ir servir com o Traquinas. Nas costas da mãe, ia treinando o cão para a vida militar, na esperança de passarem os exames com distinção.
Foram parar ao Centro de Formação das Forças Armadas em Santarém. Três meses de treinos a mostrar que estavam prontos para o que desse e viesse. Depois, seguiram para a fronteira com Espanha, ali pela raia alentejana, onde as ovelhas são mais do que as pessoas.
No posto avançado, receberam-nos de braços abertos, e a dupla virou lenda: Lá vão as traquinices da Leonor e do Traquinas!, diziam, sempre que saíam em patrulha.
A vida ia correndo o melhor que podia, até que, numa noite das que são piores do que sopa fria, aconteceu o inevitável. Um confronto com contrabandistas levou a tiroteio: um soldado ferido, outro morreu e Leonor desapareceu sem deixar rasto. Traquinas também levou um tiro, mas conseguiu regressar mancando, mas vivo.
O quartel moveu céus e terra durante um mês, Portugal e Espanha, mas Leonor parecia ter sido engolida por uma nesga da Serra. Em casa da Maria do Céu bateu um oficial da Junta de Freguesia, acompanhado do cão ainda zonzo, trazia más notícias e latas de ração, a tentar reconfortar com promessas vagas.
Maria do Céu ouviu tudo com os olhos marejados, afagando Traquinas que lhe pousava a cabeça no colo, com aquele olhar dos cães que sentem tudo. O oficial ainda debitava encorajamentos sobre milagres e buscas enquanto a viúva murmurava:
Ai, danado és tu…
Desde então, todos os dias, manhã e tarde, quem passava pelo Jardim da Sereia via lá uma dupla invulgar: uma mulher de meia idade a passear um pastor alemão manquito. Havia qualquer coisa de sereno e dignificado naquela andança, quase como se quem passasse percebesse que ali o laço era maior que dona e cão. Maria do Céu dava ordens baixinho, conversava com o Traquinas, e ele, em atento, nunca ladrava ambos conhecendo muito mais do que deviam sobre perdas e esperas.
Traquinas, hoje vou fazer pastéis de massa tenra com cogumelos e couve, que amanhã é domingo e podemos ir à beira-rio, tu nadas e eu leio o jornal, sim?
Passou um ano. Trazem à porta da viúva cabazes de arroz, azeite, ração comprada com desconto no Continente, e o inevitável papel: no fim de mais um ano, caso nada mude, Leonor poderá ser dada como falecida.
A mãe ouviu calmamente, agradeceu e fechou a porta com um meio-sorriso torto.
Não lhes ligues, Traquinas. A minha filha está viva, eu sinto.
Um dia, toca a campainha e aparece um rapaz. Maria do Céu, aflita, hesita, mas Traquinas abana o rabo.
Boa tarde, Dona Maria do Céu, eu sou Tomás Raposo, servi com a sua filha disse ele, acelerado, como que a pedir desculpa por se meter na sua vida olá, Traquinas, lindo, reconheces-me, maroto?
Conversaram noite dentro. Tomás contou episódios do quartel, Maria do Céu serviu chá com bolinhos, mostrou álbuns de Leonor e recordou tropelias de infância.
De repente, Tomás ficou sério, como quem vai dizer disparate:
Dona Maria do Céu, não me leve à mal, mas preciso de lhe contar uma coisa meio absurda disse em voz baixinha.
O coração da mãe apertou-se:
Fala, rapaz.
Leonor apareceu-me em sonho pediu-me que lhe dissesse que vai voltar para casa.
Maria do Céu desatou a chorar, sem vergonha. Traquinas lambeu-lhe a mão; Tomás ficou imóvel, entre o embaraço e a vontade de acreditar. Sabia que sonhos não eram garantia, mas também não conseguiria negar-se a trazer aquela esperança à porta da mãe da amiga.
Mais um ano se arrastou, entre os passeios e os monólogos com Traquinas pelo jardim renderoso. Já o outono enchia Coimbra de folhas douradas e cheiros húmidos.
Numa dessas manhãs, iam os dois pela alameda, quietos na sua rotina, quando ao fundo surgiu uma figura alta, curvada, envolta em luz. Traquinas parou, aguçou as orelhas e, choramingando, lançou-se a correr na direção da silhueta. Maria do Céu largou a trela. O cão, esquecendo as maleitas, disparou pelo parque até se atirar nos braços de quem esperara durante anos.
Ela ficou parada, braços moles, lágrimas grossas. E lá ao fundo, finalmente juntos, estavam Leonor e o seu Traquinas.







