«Vamos ficar cá até ao verão!»: Como expulsei a família abusada do meu marido e mudei as fechaduras
O intercomunicador não tocou. Uivou, exigindo atenção. Olhei para o relógio: sete da manhã, sábado. O único dia em que planeava dormir até mais tarde, depois da maratona do fecho do relatório trimestral, e não receber visitas. No visor, lá estava o rosto da cunhada. Margarida, irmã do meu marido Rui, tinha uma expressão de quem ia tomar de assalto a Torre de Belém, e atrás dela perfilavam-se três cabeças despenteadas de vários tamanhos.
Rui! gritei sem tirar o auscultador do intercomunicador. A tua família está cá. Desenha-te.
O meu marido arrastou-se, de pijama todo ao contrário, com aquela cara de quem sabe que a minha paciência para com a família dele já foi tirada a ferros. Enquanto ele tentava balbuciar qualquer coisa pelo intercomunicador, eu já estava junto à porta, braços cruzados. O apartamento era meu, as regras eram minhas. Aquele T3 na Baixa comprei-o bem antes de casar, à custa de muito trabalho e de uma hipoteca que me chupou os ossos, logo a última coisa que queria era gente estranha a invadir-me o espaço.
A porta mal se abriu e entrou logo uma romaria. Margarida, carregada de sacos, nem um bom dia me deu. Limitou-se a empurrar-me de lado como se eu fosse apenas um móvel a atrapalhar.
Ai, finalmente, chegámos! suspirou ela, largando tudo em cima do meu pavimento em mármore português. Leonor, estás a fazer o quê aí parada? Vai pôr água a ferver que os miúdos estão cheios de fome.
Margarida, disse eu, em tom controlado, mas Rui já encolhia os ombros. O que é que se passa aqui?
Então o Rui não te disse? arregalou os olhos, com aquele ar angelical. Estamos com obras em casa! A trocar canos, a partir o chão impossível viver lá, está tudo coberto de pó. Fica descansada, só uma semaninha por cá. Este palacete tem mais do que espaço para todos.
Olhei para o Rui, que já examinava o teto com ar condenado.
Rui?
Leonor, a sério, balbuciou ele. É a família não podes querer que eles durmam no meio das obras. Uma semana só.
Uma semana, repeti devagar. Sete dias. Comida é convosco, crianças não correm pela casa, nem tocam nas paredes, e do meu escritório nem se aproximam. Silêncio total depois das dez.
Margarida bufou:
Credo, Leonor! És mais controladora que uma inspetora das finanças Está bem, pronto. Já percebemos. Ao menos temos cama, espero eu?
Assim começou o inferno.
A tal semaninha virou duas. Depois três. A minha casa, que tanto custou a decorar, dava agora ares de hostel. No hall, montes de sapatos sujos onde tropeçava sempre; a cozinha era puro caos, gordura acumulada na bancada, migalhas e marcas viscosas por todo o lado. Margarida fazia-se senhora da casa, como se viesse por direito.
Ó Leonor, o frigorífico está mais vazio que o deserto! exclamou uma noite, abrindo as prateleiras vazias. Os miúdos precisam de iogurtes e o Rui e eu por acaso comíamos carne. Tu que até ganhas bem, podias era tratar da família
Tens o teu cartão, tens supermercados continuei a escrever no computador sem prestar grande atenção. Força. Podes sempre pedir entrega em casa.
Que forreta resmungou ela, batendo com a porta do frigorífico, fazendo tilintar os frascos. No caixão não leva nada, lembra-te disso.
Mas não foi isto que me fez perder a calma. Cheguei cedo do trabalho e encontrei os sobrinhos no meu quarto. O mais velho saltava na minha cama com colchão ortopédico (paguei por ele como se fosse feito de ouro), enquanto a mais nova desenhava uma obra-prima na parede… com o meu batom. Da Tom Ford. Edição limitada.
Rua! berrei com tal força que as crianças desataram a fugir.
No meio do reboliço apareceu Margarida, que ao ver o estrago desvalorizou:
Vais fazer uma cena por isso? São crianças! Depois limpas a parede, e o batom compra outro, não te vai fazer diferença. Olha, estávamos a pensar as obras estão a demorar. Aquilo é só gente incompetente e bêbeda. Vamos cá ficar até ao verão. Assim animas-te com companhia!
Rui ao meu lado, calado que nem pedra. Um banana.
Eu nada disse e refugiei-me na casa de banho para não fazer asneira da grossa. Precisava de respirar fundo.
À noite, Margarida vai ao duche e deixa o telemóvel em cima da mesa. O ecrã acende com uma mensagem gigante: Dinheiro do próximo mês transferido. Os arrendatários estão contentes. Perguntam se podem prolongar até agosto. Logo seguido de notificação: +900 euros.
Tudo fez sentido, de repente. Não havia obra nenhuma. Margarida andava a alugar o apartamento dela e vinha morar de favor comigo, a poupar nas despesas, lucrando à grande. Um plano de génio, à minha custa.
Peguei no telemóvel e tirei fotografia ao ecrã. Sem tremores, sentia apenas uma calma fria.
Rui, vem cá à cozinha, chamei.
Mostrei-lhe a foto sem palavras. Ficou primeiro encarnado, depois pálido.
Leonor, será engano?
Engano, Rui, foi teres deixado esta situação chegar tão longe. Tens escolha: amanhã ao almoço, ou eles saem, ou saem todos, contigo incluído.
Mas para onde vão?
Não quero saber. Que fiquem num hostel ou num cinco estrelas, se puderem.
De manhã, Margarida anuncia, como se nada fosse, que vai ver botas novas (provavelmente compradas com o dinheiro do arrendamento). Deixa os miúdos com o Rui, que tira o dia.
Esperei que saíssem.
Rui, leva os miúdos ao parque e não voltes depressa.
Porquê?
Porque vou desinfestar a casa de parasitas.
Assim que o elevador fechou, tratei do essencial: primeiro ligação ao serviço de troca de fechaduras. Depois à polícia de bairro.
O jogo da hospitalidade acabou.
O senhor das fechaduras era despachado.
Boa porta, menina disse. E esta fechadura ninguém arromba sem barulho.
Era o que queria. Segurança.
Transferi-lhe quase o suficiente para um jantar em Alfama. Paz não tem preço.
Depois, ataquei os pertences: sacos do lixo dos grandes, despejava tudo lá sutiãs, collants dos miúdos, brinquedos espalhados, cosmética a abarrotar no WC Nada de delicadezas, era tudo ao monte.
Quarenta minutos depois, uma montanha negra de cinco sacos e duas malas esperava junto à porta.
O polícia chegou logo a seguir. Eu, com os papéis prontos.
Bom dia, agente, estendi-lhe a caderneta predial e o bilhete de identidade. Única proprietária. Tenho aqui gente prestes a tentar arrombar entrada sem direito. Peço que registe a tentativa.
Um jovem agente, cansado, folheou os documentos.
Familiares?
Ex-familiares, sorri de lado. Isto virou questão de património.
Margarida chegou uma hora depois, carregada de sacos cheios de compras do El Corte Inglés, toda feliz. O sorriso caiu-lhe mal viu os sacos pretos e eu com o polícia ao lado.
Mas o que é isto?! És maluca, Leonor? São as minhas coisas!
Exatamente. Leva-as e desaparece. O hotel fechou.
Ela tentou entrar, mas o polícia bloqueou-lhe o caminho.
Senhora, reside aqui? Tem registo?
Eu sou irmã do Rui! Estamos de visita! virou-se, já vermelha. O que é que estás a fazer, vaca? Onde está o Rui? Ele vai-te pôr na ordem.
Liga-lhe sugeri. Mas ele não atende. Está ocupado a explicar aos filhos porque raio a mãe é muito empreendedora.
Tentou ligar, nada. Mais uma chamada, chamada rejeitada. O Rui ganhou finalmente coragem ou foi medo de ficar sem nada no divórcio.
Não tens direito! gritou ela, largando os sacos. Até um par de sapatos novinhos ficou no chão. Temos obras! Não temos para onde ir! Tenho filhos!
Não mintas dei um passo em frente. Manda cumprimentos à Vera do arrendamento. E pergunta se quer a renda até agosto, senão vai ter de despejar os inquilinos para poderes lá voltar.
Ficou de boca aberta. Aquela coragem de feira foi-se toda abaixo.
Tu como
Aprende a bloquear o telemóvel, empresária. Passaste o mês inteiro à minha custa, a estragar-me a casa, a meter dinheiro ao bolso à conta do teu apartamento alugado. Parabéns. Agora escuta: pegas nessas coisas e sais já. Se te vir, ou a algum dos teus, a menos de um quilómetro de minha casa, apresento queixa nas Finanças. Arrendamento não declarado, evasão fiscal vão gostar de saber. E ainda apresento queixa de furto. Desapareceu-me um anel de ouro e, se calhar, a polícia encontra-o nalgum destes sacos.
O anel estava no meu cofre, obviamente. Ela não sabia. Ficou lívida, a maquilhagem parecia uma máscara horrível.
És mesmo uma bruxa, Leonor sibilou. Que Deus te julgue.
Deus tem muito que fazer. Eu agora estou finalmente livre. E a casa também.
Ela apanhou os sacos, a amaldiçoar baixinho, a tentar chamar um táxi com mãos trémulas. O polícia resignado, aliviado por não ter de redigir qualquer auto.
Quando a porta do elevador se fechou, levando Margarida, as compras e as suas trafulhices, agradeci ao polícia.
Obrigada.
Se precisar, chame. Mas o melhor é ter fechaduras de jeito.
Entrei em casa e fechei a porta. O barulho do novo fecho era música. Cheirava a lixívia as senhoras da limpeza já tinham passado por lá.
Rui voltou duas horas depois, sozinho. Entregou as crianças à mãe à porta e entrou desconfiado.
Leonor ela foi-se embora.
Eu sei.
Disse tudo e mais alguma coisa de ti…
Não me interessa o que as ratazanas gritam quando saltam do barco.
Sentei-me na cozinha, bebi o meu café preferido na minha caneca favorita. As paredes estavam limpas de desenhos, e o frigorífico tinha só o que eu gostava.
Sabias do arrendamento? perguntei-lhe, sem olhar.
Não! Juro que não, Leonor!
Mesmo que soubesses, calavas-te, respondi. Estás avisado, Rui. Próxima brincadeira dessas, as tuas malas vão para o corredor junto das delas. Entendido?
Ele acenou, assustado. Sabia que falava a sério.
Dei mais um gole de café.
Estava perfeito.
Forte, quente, e o melhor de tudo: saboreado em silêncio na paz do meu lar.
A coroa não aperta.
Assenta-me como uma luva.
Na vida, aprendemos sempre à força que ser firme e valorizar o próprio espaço é essencial para viver em paz. O respeito pelos outros e, acima de tudo, por nós próprios é a verdadeira chave da felicidade.







